Certa vez, o saudoso amigo Antônio Uchoa, ao ver uma foto postada no Facebook que mostrava a Praça D. Luís ao final da cheia de 1950, comentou a imagem recordando-se daquele momento do passado e evocando a música Xanduzinha, composição de Luís Gonzaga e Humberto Teixeira, grande sucesso da época que tocava sem parar nas irradiadoras.
Para os mais jovens que não sabem o que é uma Irradiadora, a explicação mais resumida que posso fazer é que se tratava de um veículo de comunicação que trouxeram a dinâmica do "rádio" muito antes de a cidade ter uma estação própria.
Aqui em Aracati, na década de 1950, havia dois serviços de amplificadoras que o povo chamava radiadora. Essa função de comunicação foi difundida pelas lideranças políticas de então: Abelardo Gurgel Costa Lima, líder da UDN, e Renato Porto Caminha, do PSD.
Os alto-falantes, distribuídos em vários pontos da cidade e colocados no alto de postes de madeira, serviam principalmente para a divulgação política das lideranças locais — incumbência criada exatamente para essa finalidade. No entanto, com o passar do tempo, passaram também a transmitir mensagens sonoras para os enamorados, avisos, marcação de encontros e, por fim, tornaram-se um entretenimento para toda a população.
A Voz do Aracati, cujo locutor era Aluísio Marques, pertencia a Abelardo Costa Lima. A Voz da Democracia era de Renato Caminha e tinha como locutor oficial o Zé Lobo. Das duas, somente a Voz do Aracati permaneceu atuante até o final dos anos 50.
Essas radiadoras se digladiavam nos períodos das campanhas políticas. Na Voz do Aracati, o vibrante orador Abelardo Costa Lima, liderança maior da UDN, empolgava seus correligionários com discursos inflamados. Na Voz da Democracia, Dorian Sampaio, integrante do PSD, respondia aos acometimentos com mais veemência e impetuosidade.
Passado esse tempo, as “radiadoras” — assim chamadas pelo povo — passaram a ser usadas principalmente para divulgar notícias da administração pública, no caso a Voz do Aracati, e igualmente para enviar mensagens e tocar os discos de cera de 78 rotações dos cantores e cantoras mais populares do Brasil. Foi através delas que tomamos conhecimento de Nelson Gonçalves, Caubi Peixoto, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Luís Gonzaga e tantos outros artistas que, com suas canções de sucesso, embalaram nossos sonhos e despertaram sentimentos amorosos.
As radiadoras foram responsáveis por promover vários casos de amor. O recado verbal, recurso utilizado pelos mais tímidos para fazerem suas declarações através dos locutores, ecoava nos vários recantos de um Aracati ainda tão encantado no seu provincianismo.
“Esta mensagem segue de um alguém para outro alguém. Não diz o nome para não fazer confusão.” “Esta mensagem musical é para um alguém que está de vestido amarelo na Praça Dr. Leite. Quem oferece é seu simpatizante.”
Enquanto isso, a voz aveludada da cantora Carmem Costa ressoava pelos alto-falantes espalhados nos quatro cantos de Aracati: “Quase que eu digo agora o seu nome sem querer... Não quero que zombem de nós toda essa gente[1]”.
Somente quem decifrava as mensagens em códigos transmitidas pelas radiadoras era um certo “Rapaz Velho”, que sabia de todos os namoros de Aracati e conhecia os subterfúgios das mensagens.
As radiadoras tinham uma audiência absoluta em toda a cidade. Iniciavam suas atividades sempre às 19h, ao som de uma música como prefixo, e encerravam suas operações às 21h, ao som do sufixo, despedindo-se do seu fiel público. Aí então as calçadas se desfaziam e as praças esvaziavam. A Usina da Luz elétrica dava o primeiro sinal apagando e acendendo as luzes, avisando que às 22h a iluminação pública seria desligada e a cidade ficaria às escuras.
Era então quando os guardiões das radiadoras, como Felícia, moradora da Rua Duque de Caxias e partidária da UDN, e Chico da Croa, do PSD, recolhiam suas cadeiras e se retraíam ao aconchego do lar.


