Quando estudante, a aspiração de Eduardo Dias era ser oficial da Marinha. Alguns colegas de estudos tinham seguido para a Escola Naval. Falou com seus pais. Sua mãe queria ele fosse médico. Sugeriu: “Tu vais estudar medicina, que é aqui mesmo. Depois de formado, faz concurso e entra para a Marinha”. De acordo.

Depois de formado, em 24 de dezembro de 1908, casou-se. O primeiro emprego que arranjou foi na Marinha: médico de bordo da Companhia Baiana de Navegação e Vapor. Foram quatro anos: 1906 a 1910. Foi quando sentiu o providencial conselho materno. Não suportava mais a vida de bordo, para a qual, decididamente não fora talhado. Até que numa manhã de chuva, em 1910, desembarcou na cidade riograndense de Macau, com armas e bagagens. Não sabe bem por que ficou ali. Talvez por ser escala obrigatória dos navios meeiros, em pleno fastígio da indústria salineira. Antes, tivera o convite do Juiz de Direito de Viçosa, para ir morar naquela cidade cearense. Mas não aceitou: ficava longe do mar. Pensou também em Minas Gerais e no sul da Bahia. Mas também não deu pé. Preferiu Macau. O mar era o único meio de comunicação entre o filho ausente e a família distante. Mais fácil voltar, se o fracasso lhe batesse à porta. 

Foi a Salvador, botou a esposa e a filha dentro do navio e voltou em seguida. E ali ficou, já como obstetra, ajudando aquele mundo desigual, os operários das salinas de Macau. Desde o seu tempo de aluno, no 5º ano de medicina, tinha interesse especial pela obstetrícia. Foi assíduo e estudioso estudante da matéria, na Faculdade e como interno, durante três anos seguidos, na Santa Casa de Misericórdia de Salvador, até se formar: “Quando em 1910, fui para Macau, já levava comigo alguma coisa que me pudesse servir em caso de parto. Lá comecei a me dedicar e a aprender”. Sempre teve predileção por gente simples do povo. Por isso, suportou aquilo durante três anos – de 1910 a 1913 – até que financeiramente arruinado e com a família crescendo ao seu lado, decidiu aceitar o convite de seu colega Audálio Costa, a esse tempo já conceituado médico em Aracati, depois pioneiro da eletrificação no interior cearense.

 

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FERNANDES, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Rio-São Paulo - Fortaleza: ABC Editora, 2006. p. 183-184.