Quando descobri em uma edição do jornal O Povo de 1973 uma reportagem feita pelo jornalista Fenelon de Almeida sobre o Dr. Eduardo Alves Dias, a crônica [...] (Médico, Poeta e Teatrólogo) já estava escrita há meses, mas, dada a importância do personagem e ao completo relato de parte da vida daquele homem simples, porém de uma grandeza fora do comum, resolvi reproduzi-la, para meu deleite e daqueles que a lerem. Também para os jovens que precisam de parâmetros e exemplos concretos de pessoas altruístas, de profundo amor ao próximo e modos de vida reais, onde se espelharem. Dessa maneira, estamos ajudando a continuar a obra do Dr. Eduardo, com mensagens positivas aos jovens. 

Sei que muitas pessoas leram a reportagem do Fenelon, mas raríssimas têm disposição para manusear, como eu, microfilmes na Biblioteca Pública, buscando fatos interessantes registrados nos jornais para resgatá-los, passando-os para livros, a fim de que os jovens tomem conhecimento e valorizem as pessoas por seu comportamento ético e honrado. Assim, pensando nos jovens de hoje, transcrevo o escrito de Fenelon Almeida, publicado no 2º Caderno de O Povo, três anos antes de seu falecimento:

QUANDO UMA AVE-MARIA PAGA UMA CIRURGIA

A última vez que o vi, ele já era um homem maduro, beirando os seus 60 anos. Um tipo físico que os antropólogos classificariam de longilíneo e estênico, quase alto, magro, esguio. Alvo, corado, tinha os cabelos castanhos sempre penteados, quando não protegidos por um gorro de cor clara. Tinha o passo miúdo e um olhar perdido na distância, como se estivesse pensando em algo muito longe ou olhando para dentro de si. Quem quisesse acertar o relógio, podia esperar ali: faltando quinze para as oito da manhã, ele saía de casa, na rua Coronel Alexanzito, nº 919. Ia até a farmácia ao lado, dizia ou perguntava qualquer coisa à farmacêutica e atravessava a rua, no seu passo ligeiro, levando na mão enorme bolsa de couro contendo preciosos instrumentos. E desaparecia numa das salas na casa defronte. Ao meio-dia ele voltava à casa 919, para, de novo, sair. Quando não fazia o mesmo percurso ida-e-volta, ele reservava as tardes para excursões mais longas. A pé, de charrete ou Ford-de-bigode, enveredava por outras ruas da cidade, sempre carregando sua inseparável bolsa de couro. Era costume, também, ausentar-se da cidade, subindo ou descendo o rio, em embarcações de madeira, ou, cavalos chotões, subindo ou descendo as dunas, ao longo das praias arenosas do Aracati, ou pelas várzeas enlameadas da região, na estação das chuvas.”

O leitor já deve estar desconfiado que estou falando de um médico. Acertou. Falo de Eduardo Alves Dias, ainda hoje o mesmo homem alvo e esguio, cara de filósofo, com 91 anos. É o mais antigo médico do Ceará e o não menos lúcido dos obstetras.

Aquele vai-e-vem de médico do interior quando não havia hospitais nem mesmo na capital, começou no distante mês de outubro de 1913. Hoje, agosto de 1973, o itinerário já não é o mesmo e o ritmo do vai-e-vem também arrefeceu. Mas não interrompeu de todo. Dr. Eduardo Dias, com 91 anos de idade, ainda exerce a profissão. É médico credenciado do INPS[1] na terra do Dragão do Mar.

 

________________________________

FERNANDES, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Rio-São Paulo - Fortaleza: ABC Editora, 2006. p. 180-182.



[1] Atual Instituto Nacional do Seguro Social- INSS