Hermeta de Castro Ozório foi uma mulher extraordinária e, como enfermeira diplomada, especializou-se em partos, tendo realizado mais de 6.500 partos durante sua vida profissional.

Hermeta foi funcionária do Serviço Social da Indústria - SESI e da Liga Brasileira de Assistência - LBA, órgãos públicos que atendiam aos operários e suas famílias, alguns na linha de extrema pobreza. Muitas vezes, Hermeta mandou bilhetes para sua casa autorizando entregar ao portador um lençol ou tal peça de seu vestuário, a fim de atender a uma parturiente extremamente necessitada.

O coração da Hermeta era conhecido como tão grande que, diziam, caberia todos os pobres dentro dele.

Certa vez, mandou buscar o colchão da cama de seu filho Pedro. Quando o filho chegou e soube o que acontecera com o seu colchão, falou aborrecido para a doméstica: “Fulana, se a mamãe mandar buscar a escritura da casa e você a atender, eu te mato!”

Visitando uma gestante, diagnosticou um seríssimo caso de feto morto e em processo de decomposição, o que estava deixando a gestante acamada e em perigo. Correu à procura dos dois médicos locais. Um estava comprometido e sem poder atender e o outro, ao saber que a mulher já estava com o “pé na cova” alegou a impossibilidade de ir. No seu desespero, Hermeta entrou na Igreja do Senhor do Bonfim e rezou pedindo a Deus que fizesse dela o seu instrumento para salvar aquela mulher que já tinha 10 filhos e que, se morresse, iria deixá-los sem ninguém para cuidá-los. Rezou com tanta fé que criou coragem e foi realizar o trabalho que era da competência dos médicos e não de uma enfermeira, conseguindo retirar o pequeno cadáver que estava em posição quase impossível de ser retirado. O esforço e o estresse foram tão grandes que Hermeta adoeceu, ficando acamada alguns dias.

Vários dias depois, recebeu a visita da mulher que salvara da morte certa. Foi agradecer a dedicação com que a tratara e resolvera seu problema, ao que a humilde enfermeira disse: “Querida, eu apenas fui instrumento de Deus quando te atendi”.

Hermeta teve vários filhos e em seu quarto parto, em 1921, nasceu uma criança, registrada com o nome Maria de Castro Ozório que, neste ano de 2006, completa 85 anos com muita saúde, a cabeça límpida, memória de jovem e uma conversa agradável. É idosa, mas não velha. Melhor seria defini-la como pessoa jovem com muita experiência.

A Maria, já mocinha, estudava no Colégio das Salesianas no Aracati e, lá pras tantas, começou a ter problemas com a professora de pintura, a Irmã Margarida, porque a mestra colocava um modelo a ser pintado e a Maria o pintava diferente, dizendo que era daquela forma que ela “via” o modelo.

Era um problema enorme que irritava a professora e também a Maria, que não mudava seu ponto de vista e continuava fazendo sua obra diferente do modelo exposto. Eram duas teimosas. Chegou o dia da Exposição Anual e a irmã Margarida não expôs as telas da Maria por serem “distorções” e não eram bonitinhas como as das demais alunas.

Aconteceu que o Colégio convidara um artista de Fortaleza para abrilhantar a Exposição Anual de Pinturas. O cidadão convidado, após olhar bastante os quadros expostos, perguntou se não havia mais alguns que não estavam ali por falta de espaço, ao que a irmã Margarida respondeu que sim, tinha alguns de uma aluna, a Maria, que fazia sua pintura meio borrada. O artista desejou vê-los.

Disse-me a Maria: “Quando a irmã mandou buscar os meus quadros, eu corri para casa com vergonha das minhas pinturas”. Ao analisar os quadros que estavam fora da exposição, o artista afirmou: “Irmã, esta é a única artista de seu colégio. As outras são copistas.”

No dia seguinte, quando a Maria soube do ocorrido e que as suas pinturas tinham valor, sentiu despertar o seu ideal artístico e passou a sonhar em ir morar na Capital, onde estudaria pintura e cresceria como artista.

Logo que pôde, Maria mudou-se para Fortaleza, onde se matriculou em um curso de desenho e pintura na Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), em 1950. Mudou de nome, daí em diante passou a ser conhecida pelo nome artístico Nice.

Nice conheceu, na SCAP, o artista plástico Estrigas (Nilo de Brito Firmeza), com quem se casou, sendo ele mais velho que ela dois anos. Foram morar em um sítio do Estrigas e lá montaram um museu de artes plásticas denominado Minimuseu Firmeza. O museu está localizado onde ainda reside o casal[1]: no Distrito Mondubim, em Fortaleza, e é ali que artistas plásticos vão se alimentar culturalmente e trocar ideias.

As qualidades da Nice não estão somente nas telas que pinta, mas chegam também à cozinha, onde suas iguarias fazem sombra às de muitos “chefs”. É também bordadeira de mão-cheia, até faz tapeçaria artística. Educadora que sabe despertar as potencialidades das crianças, como praticou essa arte por muitos anos, quando professora do ensino fundamental.

Hoje, o nome Nice é conhecido nacionalmente como uma artista de personalidade e características próprias, como pode ser constatado pelas pinturas que vemos nas capas deste modesto livro.

Quanto ao Minimuseu Firmeza, é mantido pelo casal de artistas, Nice e Estrigas. Nada de dinheiro público nessa empreitada. Só amor à arte.

 

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FERNANDES, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Rio-São Paulo - Fortaleza: ABC Editora, 2006. p. 175-178.

 


[1] Este artigo foi publicado no ano de 2006. Nice Firmeza faleceu no dia 13 de abril de 2013 e Estrigas no ano seguinte, no dia 2 de outubro de 2014.