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A Poética
O tempo tece o tempo. Como no labirinto mítico grego a Renda Labirinto é um entrecruzamento de linhas misteriosas. Desfeitas e retrabalhadas. Primeiro é o pano que é riscado, sulcado e desfiado, retesado por grossos fios na grade rude. Mãos calejadas, no mais duro contraste com a finura do ofício, sombreiam o risco no “enchimento” da trama. É essa a renda que da antiguidade chega ao nosso tempo sutil e intacta. Soberba símile do nome: labirinto. Tudo nela é encantamento e precisão. “Risco de olho”, direto no pano, como fazem as irmãs (Marias) Pereira da Costa que na maior sem cerimônia, dizem: “quem risca é o olho”.
As divinas mestras sabem que o pensamento comanda a ação. O ofício exige: lâmina em punho para cortar o risco. Esse é o início da aventura do desfazer para refazer, do retirar para preencher vazios e construir meandros para perder-se em fios, para encontrar a linha que leve ao ponto que desaprisione, que liberta o desejo do pensamento, chegando-se a outros pontos. Pontos exatos, de nomes precisos, como o “torcido”, que meninas em idade de sete anos, aprendendo, cantam: “pega cinco pauzinhos e deixa quatro, volta quatro e deixa cinco” continuando com o “enchido”, o “caseado” ou “perfilado” e o “paletão”, bordado com linha grossa para realçar o desenho, ou “pintar”, como dizem as labirinteiras do Cumbe, onde é feito com mais perfeição.
E nesse entrecruzamento de linhas, perpetua-se o Labirinto, de mãe pra filha, de filha pra mães, “de noite e de dia/padre nosso, ave-maria” Tudo sendo feito como se para a noite se desmanchar em dia, e o dia se desmanchar em noite, tudo a um só tempo: sem fim nem começo.
Perspicácia
Experiente, o labirinteiro e comerciante Gerardo de Freitas, mais conhecido por Gerardo Tiralíngua, diz que são 15 as "mãos-de-obra" no processo da Renda Labirinto, apoiando-se na autoridade de quem, segundo o próprio, "já foi o maior revendedor de labirinto do país", com uma rede de distribuição estendida pelo Brasil, Canadá, Europa e China. Únicas mãos masculinas do labirinto cearense , ressalta, enfático e orgulhoso, que não tem conhecimento de nenhum outro homem no exercício de tal atividade. Conta ter tido, entre as décadas de 1960-1980, cerca de 1000 (mil) "feiteiras" trabalhando direto "para dar conta das encomendas". Dos áureos tempos, guarda muitas estórias e um estoque de peças representativo da produção regional, prosaicamente etiquetadas com preços e datas manuscritos , acumulado em armários de ferro e madeira, além de peças pendentes do teto. O comércio situa-se à Rua Grande, identificado pela placa verde-amarelo "Dormitório Central Geraldo Tiralíngua Vende-se Labirinto".
Num dos meandros de sua casa labiríntica, de muitos e surpreendentes compartimentos, encontramos a maior grade de secar e engomar já vista, com 10 metros de comprimento, na qual, conta, esticou a toalha de banquete presenteada ao papa João Paulo II, quando de sua visita ao Ceará, em 1980. Enquanto desfia seu rosário de lembranças, em meio ao curioso estoque cheirando a guardado, Geraldo Tiralíngua (apelido herdado do irmão que no folguedo do Bumba-meu-Boi era o "tira-língua") passa as etapas do processo do labirinto, ou conforme seu linguajar:
As 15 mãos-de-obra do labirinto
- Escolher o tecido;
- Riscar o desenho em papel quadriculado;
- Transferir o risco do papel para o tecido com ajuda de papel carbono;
- Cortar o desenho no tecido segundo o risco;
- Desfiar;
- Prender o tecido à grade ou bastidor, por fio grosso, esticando-o de modo a facilitar o trabalho;
- Encher a parte desfiada conforme o desenho, fazendo o tecido com linha mais fina;
- Torcer, prendendo os "pauzinhos" do tecido desfiado, destacando-os do tecido;
- Casear ou perfilar, isto é: o acabamento do tecido e do recorte;
- Paletão a "PINTA" OU "PINTURA" DO DESENHO, bordado com linha mais grossa para o realce do desenho;
- Retirar a peça da grade;
- Lavar e engomar;
- Esticar a peça na grade para secar;
- Passar o ferro (esta etapa exige técnica, devendo-se começar do meio para as bordas, para não deformar a peça);
- Recortar as bordas (etapa geralmente feita na hora da venda, na frente do comprador).
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GUIMARÃES, Dodora. Labirinto: história e estórias. In: GALVÃO, Roberto. Aracati: Labirintos de sonho e luz. Fortaleza: Tiprogresso, 2006. p. 82-86.

