Experimente, qualquer dia, fazer uma visita sem compromisso a um cemitério. Não espere o Dia de Finados. Não leve flores, velas nem a obrigação dolorosa de visitar um parente. Vá apenas como observador. Como quem visita uma cidade silenciosa, habitada por pessoas que já não podem reclamar de nossa curiosidade. Entre devagar, escolha um lugar onde possa sentar-se e deixe os olhos percorrerem as alamedas, as cruzes, os mausoléus e os monumentos.

O cemitério é uma espécie de livro escrito em pedra. Nele estão registrados nomes, datas, famílias, títulos, profissões e algumas frases cuidadosamente escolhidas para resumir existências inteiras. Há quem tenha vivido oitenta anos e seja recordado em apenas duas linhas. Há também quem não possua sequer uma palavra que diga ao visitante quem foi.

Nos cemitérios, os homens trataram de reconstruir a sociedade dos vivos. Os ricos ergueram mausoléus de mármore, encomendaram esculturas, instalaram anjos, colunas, vitrais e grades de ferro. Os pobres continuaram debaixo de pequenas cruzes de madeira, muitas vezes fincadas diretamente na terra. A morte igualava os corpos, mas o dinheiro separava os túmulos.

É isso que o visitante percebe quando se senta e observa. Sem notar, seu olhar será atraído pelos monumentos mais imponentes. Diante deles, terá vontade de saber quem está sepultado ali. Talvez seja um político, um comerciante poderoso, um militar, um escritor ou alguém pertencente a uma família tradicional. A imponência do sepulcro parece dizer: — Aqui repousa alguém que não pode ser esquecido.

As pequenas cruzes, porém, quase nunca despertam a mesma curiosidade. Muitas estão tortas, quebradas ou consumidas pelo tempo. Algumas já perderam a placa com o nome. Outras permanecem sobre sepulturas que praticamente desapareceram sob o mato. Se perguntarmos quem repousa debaixo delas, ninguém saberá responder.

Talvez esteja ali uma mulher que criou sozinha uma numerosa família. Talvez um trabalhador que passou a vida levantando as casas onde outros moraram.

Talvez uma parteira que ajudou centenas de crianças a chegar ao mundo. Talvez um homem simples que dividiu o pouco que possuía com quem tinha ainda menos. Foram importantes, mas não tiveram dinheiro para contratar o mármore que prolonga a memória.

Os monumentos funerários dão a impressão de que somente os poderosos construíram cidades, atravessaram dificuldades e praticaram boas ações. Suas biografias são contadas em linguagem quase épica. Todos parecem ter sido honrados, exemplares e grandes benfeitores da humanidade. A pedra costuma ser generosa com aqueles que puderam pagá-la.
Não estou afirmando que as pessoas homenageadas não sejam merecedoras. Muitas certamente são. O que me causa estranheza é o silêncio absoluto em torno das demais. A segregação atravessa o portão do cemitério. Ali permanecem separados o mármore e a madeira, o jazigo perpétuo e a sepultura rasa, o nome gravado em ouro e o nome apagado pela chuva. É como se até o pó do homem poderoso devesse permanecer distinto do pó do povo simples.

Mas a natureza, felizmente, não respeita essas distinções. Foi essa verdade que o repentista piauiense Domingos Martins da Fonseca transformou numa resposta extraordinária. Nascido em Miguel Alves/PI, em 1913, Domingos Fonseca tornou-se um dos grandes nomes da cantoria nordestina. Era conhecido como o “Armazém do Improviso”, tamanha a facilidade com que construía versos e respostas durante as pelejas.

Em certa cantoria, um adversário tentou humilhá-lo, atacando sua pobreza e a cor de sua pele: — Domingos, além de pobre, pertence à triste cor. Era uma provocação cruel e preconceituosa. Em vez de responder com outra ofensa, Domingos produziu uma das mais belas lições de dignidade da poesia popular nordestina: 

“Falar em pobreza e cor 
É um grande orgulho teu. 
Morra eu e morra o branco
Enterre-se o nobre e eu,
Que depois ninguém separa.
O pó do branco do meu.”

Não precisou gritar. Não precisou ameaçar. Com seis versos, reduziu a arrogância do adversário à insignificância e colocou todos os homens diante de seu destino comum.

Anos depois, a mesma imagem reapareceria na música “Roda”, de Gilberto Gil e João Augusto: 

“Se morre o rico e o pobre, 
Enterre o rico e eu; 
Quero ver quem que separa 
O pó do rico do meu.” 

Não sei se Gilberto Gil conhecia diretamente a resposta de Domingos Fonseca ou se ambos beberam numa fonte mais antiga da sabedoria popular. A semelhança, entretanto, é impressionante. Nos dois casos, a terra aparece como a grande destruidora das hierarquias humanas.

Talvez seja essa a maior lição escondida nos cemitérios. Podemos levantar monumentos, separar quadras, comprar jazigos perpétuos e gravar nomes em letras douradas. Podemos colocar títulos diante dos nomes e enumerar cargos, condecorações e propriedades. Nada disso modifica o conteúdo das sepulturas.

Debaixo do mármore e debaixo da cruz torta ocorre o mesmo lento retorno à natureza. O homem rico pode adquirir o terreno, o jazigo, a estátua e até a aparência de eternidade. Só não consegue comprar um pó diferente.

Por isso, quando visitar um cemitério, não concentre sua atenção apenas nos grandes monumentos. Reserve alguns minutos para contemplar também as sepulturas humildes. Ali podem estar pessoas que realizaram grandes coisas sem que nenhum historiador as registrasse. Pessoas que não deixaram estátuas, ruas com seus nomes ou retratos pendurados em repartições públicas. Deixaram apenas filhos, amizades, gestos de bondade e lembranças que desapareceram com aqueles que as conheceram.

No cemitério, os homens ainda tentam conservar as diferenças que inventaram em vida. Mas basta cavar um pouco mais fundo para descobrir a verdade que Domingos Fonseca proclamou: A vaidade ergue os monumentos; a terra mistura os homens.

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Fortaleza, 10 de agosto de 2026