O cabelo desgrenhado, a barba fina, rala, praticamente imperceptível diante do bigodão espesso, junto com o nariz adunco, compunham o rosto acentuado daquele esquelético jovem estudante de medicina.
Antônio Carlos fugia à regra de comportamento e vestimenta dos demais alunos do Campus do Porangabuçu. Nem a velha bata branca se dignava a usá-la, preferiria isso sim, os blues jeans, meio que rasgados, a bolsa hippie e o violão, eterno companheiro, a balbuciar palavras com a voz marcante e grave.
Vez por outra deixava o instrumento de lado e concentrava-se na poesia do Pessoa, que recitava empolgado ou carregava para cima e baixo alguns discos dos Beatles, fenômeno ainda em plena ebullição naqueles anos.
Queria, de fato, ser músico, mas reclamava da falta de oportunidade para a juventude, ainda mais vinda do Norte, porém, aproveitava as infindáveis aulas em laboratórios, para fugir daquele enfado e, sentava nos corredores com as pernas magras cruzadas, ao passo que dedilhava o violão, exercitando seu outro lado, o de poeta e músico, sempre reunido com muita gente jovem, cabelos ao vento, dedos em vê, amor em flor. Geralmente terminava suas noites na Praia de Iracema, ou no Bar do Anísio na Enseada do Mucuripe.
E, por óbvio, muitos se concentravam ao seu redor o que incomodava o culto, erudito e alinhado Professor Otho que, ao longo de sua experiência de catedrático, não conseguia vislumbrar no jovem poeta - nem de longe - a imagem que se esperava de um médico bem sucedido. Para o mestre, Antônio Carlos era um aluno medíocre, tanto que lhe tascara um zero daqueles bem significativos na avaliação bimestral.
Ao receber a prova com a nota desmoralizante, Antônio Carlos se exasperou. Olhos marejados, mirou forte com o dedo em riste para o miúdo docente.
— “O que significa isso?”
— “Ora, a sua nota”, respondeu serenamente o nobre professor.
Irritadíssimo, o rapaz amassa com rispidez as folhas de papel, olha para a turma incrédula, bate no peito e praticamente grita:
“Eu não preciso disso!”
Volta à mesa do professor, devolve-lhe a prova e aponta para o nome escrito na prova:
“Anote meu nome. Veja o meu rosto. O senhor ainda vai ouvir muito falar de mim!”
E saiu batendo a porta para nunca mais voltar para a Faculdade de Medicina.
Curioso, Otho rabiscou o nome do aluno num papel, guardou-o numa pasta com a prova amassada, junto a documentos da faculdade, com a certeza de que jamais ouviria falar novamente do rebelde e boêmio aluno.
Tempos depois, a cantora Elis Regina lançou o emblemático disco “Falso Brilhante”. Ao analisar a capa do long player, o professor acha o nome de um dos compositores familiar, exatamente o autor das duas primeiras canções: “Como nossos pais” e “Velha Roupa Colorida”.
Meio que na intuição, remexe nuns documentos antigos e localiza um nome com uma prova amassada: “Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes”. Era o mesmo aluno, que se tornaria um dos maiores compositores de todos os tempos, utilizando apenas o nome Belchior.
MEIRELES, Lucio Telmo. Quando o olho brilhou – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 21-23

