Não via o antigo colega desde os tempos da boa e velha Unifor. Éramos companheiros de copo. Entretínhamo-nos no antigo bar do Bigode, ponto de encontro estudantil que ficava encravado nos fundos do Centro de Convenções, enquanto ele mostrava todo o seu conhecimento filosófico sobre a vida, discorrendo entre um cigarro e outro. Era um jovem culto que se destacava dentre os demais — alunos medíocres. Parecia ter um futuro brilhante.
Naqueles tempos, era costumeiro reunir-se numa roda para ouvi-lo. Era uma liderança nata, entendia de filosofia existencial, rock progressivo, ciência política e direito internacional, além de leitor ávido de Kant. Na psicologia, preferia Jung a Freud. Do futebol, como todo revolucionário, dizia torcer pelo Ferroviário e nada mais.
Às vezes, levantava-se e criticava a política neoliberal então vigente. Quando se irritava, falava mal das colegas, julgando-as fúteis com suas bolsas Louis Vuitton. Estas, por sua vez, deliravam entre gostosas gargalhadas com os arroubos e a eloquência do meu amigo, que já cursara Medicina, Fisioterapia, Administração e História, sem concluir nenhum desses cursos.
Era, de fato, uma dificuldade. Não se inseria no que esperavam dele, de um emprego e um curso regular. Era um livre pensador, tanto que não suportara o formalismo do curso de Direito, largara a faculdade e se tornara, posteriormente, professor de Sociologia. Nunca o veria de paletó e gravata. Nem acredito que tenha passado pela cabeça dele um dia usá-los. Deveria sentir-se, por certo, enforcado e preso. Era uma alma independente, o meu amigo.
Dez, onze anos depois, postava-se ali, na minha frente, o velho colega do Curso de Direito. Aproximei-me e, envergonhado, percebi que mal se lembrava de mim. Encontrava-se quase meditativo, em lótus, sentado num banco como se estivesse a contemplar o espetáculo do tempo. Bem mais magro, a barba espessa, um pouco mais calvo do que eu, portava uma mochila à moda carteiro, bermuda jeans surrada, camisa branca com a capa do disco “The Wall”, além de um chinelo de dedos.
No mais, aparentava certa simplicidade e serenidade, bem diferente do militante revolucionário de outrora, que irradiava a todos com o discurso de um mundo melhor e utópico, mas sempre com um estilo agressivo e rancoroso, pregando uma revolução através da luta de classes.
O amigo, agora homem maduro, dizia ter deixado alguns vícios que lhe entorpeciam o espírito. Cigarro e bebida dentre eles. Errara como tantos. Juntara-se a uma qualquer, sem deixar descendentes e, novamente solteiro, aproveitava o tempo livre para escrever um romance que jurava jamais concluir.
Ainda com um aspecto de serenidade, mas já demonstrando uma dor inerente à sua alma sofrida, o antigo colega de boemia desabafou:
Do turbilhão que é a minha cabeça, posso dizer que estou mais calmo, um pouco mais sereno e esperançoso em relação ao dia de amanhã. Estou, aos poucos, aprendendo a desapegar-me das coisas, dos títulos e de algumas pessoas que me fizeram sofrer. A consciência de que a marcha da vida segue em linha sinuosa, mas sempre em frente, traz-me o conforto que dantes sempre me faltou.
Lamento e, por que não, sinto muito a falta de amor na minha família. Isso é fato. Em minha casa, cada um tomou o seu rumo e pronto. Não há maiores interações. E, sem dúvida, tenho minha parcela de culpa nisso, mas para que insistir nesse pensamento, se tenho toda uma nova vida pela frente?
Sei que não fui um bom filho para a minha mãe, principalmente na adolescência, mas espero tornar-me um excelente filho em sua velhice.
Sei que o meu pai queria que eu fosse um juiz ou um advogado rico e bem-sucedido, mas, para ele, meu querido pai, só posso dizer que sou feliz.
E saiu, como se pedisse que eu desse esse recado a alguém, sem antes me dar um demorado abraço de despedida, tendo por plateia o pôr do sol na decadente Praia de Iracema.
O amigo seguia seu passo lento. Nunca mais o vi ou dele tive notícias, mas lembro, vírgula por vírgula, de tudo que me disse.
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MEIRELES, Lucio Telmo. Quando o olho brilhou – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 42-44


