Depois que acabou o serviço funerário prestado pelo Círculo Operário São José aos seus associados, a preocupação de Dª. Tereza Papel passou a ser o seu velório. Enquanto existiu o Círculo Operário, ela tinha a certeza de que teria um sepultamento satisfatório, pois contribuíra durante vários anos, todos os meses, para que, quando chegasse sua hora, pudesse realmente ter uma cerimônia adequada; humilde e simples, ela sabia, mas ainda assim decente.

Esse era o tema que Dª. Tereza Papel puxava sempre que recebia notícia da morte de alguém conhecido e tinha ciência da dificuldade da família do falecido em lhe proporcionar um enterro com um pouco de dignidade.
— Meu maior medo é morrer e não saber como vão me enterrar. Se eu pudesse, arranjava uma maneira de deixar tudo determinado.
— Acabe com isso, mamãe, a senhora não morre tão cedo; além do mais, agora abriram uma funerária nova que facilita as despesas do sepultamento de quem parte.
— Onde é isso?
— Uma tal do AGRADO. Quem comentou foi Chico da Goma, que sabe de tudo que acontece no Aracati.
— Traga Chico da Goma aqui, que quero conversar com ele a respeito desse assunto.
Na noite seguinte, Chico da Goma apareceu na hora do jantar na casa de Dª. Tereza Papel; aceitou a refeição que lhe foi oferecida, assistiu à novela das oito, “Páginas da Vida”, que estava começando a passar, e, quando já se preparava para sair, Dª. Tereza Papel, segurando Chico pelo braço, falou:
— Chico, eu te chamei aqui não foi pra tu comer nem assistir novela, não; te chamei pra tu me explicar esse plano funerário duma tal de Agrado que tem agora no Aracati.
— É, Dª. Tereza, realmente existe esse plano de auxílio funerário, mas parece que eles exigem que a pessoa tenha um certo rendimento, alguma condição. Minha tia, Maria Barcaça, que a senhora conhece, não conhece? Pois bem, me pediu e eu fiz esse plano da Agrado pra ela. Tá morta de satisfeita...
— Chico, tu pode fazer um plano desse pra mim?
— Posso, Dª. Tereza. Faço até melhor: faço no meu nome beneficiando a senhora; aliás, eu faço no seu nome, mas assumindo a responsabilidade.
— Chico, tu faz mesmo? Chico, tu faz o plano que todos os meses eu te dou o dinheiro para tu pagar.
“Assim se passaram dez anos sem eu ver teus olhos, sem eu ver teu rosto, sem escutar tua voz”, como dizia a música da Emilinha Borba que tocava na irradiadora do Aluízio Marques, a Voz do Aracati.
Dª. Tereza tinha um calibre bom, não era morredoura. Durante muito tempo pagou religiosamente a mensalidade do auxílio funerário, quantia que Chico da Goma, todo dia 5 de cada mês, mandava apanhar das mãos de Dª. Tereza Papel e que, desonestamente, não repassava para a funerária Agrado como havia prometido.
Chico da Goma ainda dormia quando foi despertado com os gritos e as fortes pancadas na porta de sua casa:
— Chico... Chico... Chico...
Era a filha de Dª. Tereza Papel, aflita, avisando que a mãe havia falecido naquela madrugada e que ele fosse providenciar o velório, pois o corpo ainda tava na rede aguardando os preparativos. “Dª. Tereza morreu? Morreu como?”, pasmo, Chico se perguntava, tomado pelo desespero de ter que explicar que não haveria cerimônia porque não tinha plano nem auxílio funerário coisa nenhuma na Agrado. De dentro de casa mesmo, respondeu:
— Vai lá na Agrado e fala lá com as pessoas encarregadas que eu chego lá, já, já também.
A filha de Dª. Tereza Papel se dirigiu então à sede da Agrado para providenciar a documentação do velório da mãe. Qual não foi sua surpresa ao constatar, pela boca de um funcionário, que na Agrado não havia nenhum plano funerário nem auxílio em nome de Dª. Tereza Papel.
— Mas como pode ser isso?! Chico da Goma garantiu que tinha feito esse plano. Mamãe esses anos todos dando dinheiro para ele pagar esse plano!!!
— Chico da Goma tem plano aqui; mas Dª. Tereza Papel, essa não tem nenhum registro, não. Chico da Goma tem até túmulo comprado, sepultura com tampa de granito, toda em granito.
A filha de Dª. Tereza Papel voltou em cima do rastro para a casa de Chico da Goma, que ainda não tinha saído de casa, escondido com medo da reação da família da defunta. Do lado de fora mesmo, ela falou aos gritos:
— Chico, fiquei sabendo de tudo lá na Agrado. Não existe plano nenhum em nome de mamãe; existe sim um no teu nome, portanto quem vai ter que morrer és tu!!!
Diante da situação sem saída, foi então combinado entre as partes que dariam um golpe na funerária: trocariam de defunto. Já que Dª. Tereza Papel não possuía plano funerário e Chico da Goma tinha, então quem teria morrido naquela ocasião seria Chico da Goma...
Assim combinado, assim feito. Embrulharam o corpo de Dª. Tereza Papel na mesma rede na qual havia falecido e levaram às escondidas para a casa de Chico da Goma. Mandaram anunciar pelos rádios o falecimento de Chico da Goma e o sepultamento para aquele mesmo dia.
A notícia se espalhou por toda a cidade e, de repente, a casa de Chico da Goma se encheu de gente para ver a cara do defunto. A fila que se formou na porta parecia fila do INSS em dia de pagamento, tudo para se certificarem de sua morte.
O que tinha de velho nesse velório!!! Nem dá pra imaginar!
O serviço funerário foi digno de um falecido bafejado pelo dinheiro: caixão de primeira, candelabros grandes com velas enormes que não apagavam nunca, coroas de todos os modelos, fora todos os apetrechos para essa ocasião, que quase não cabiam na sala da frente da pequena casa de Chico da Goma.
O grande desejo de Dª. Tereza Papel estava sendo finalmente realizado; mesmo sendo por entremeio, sua vontade estava sendo efetivada. Seu velório foi digno e grandioso, muito além daquilo que ela imaginou.
— Por que não abriu o caixão? 
— Porque ele ficou muito esquisito.
— Mas inda ontem eu vi Chico e ele tava tão bem!! 
— Pois é, tem doença que é assim mesmo, de repente.
A filha de Dª. Tereza Papel tinha as respostas na ponta da língua para todas as indagações.
Não houve choro no velório. A preocupação dos parentes do defunto — ou melhor, da defunta — era que tudo terminasse o mais rápido possível, sem haver desconfiança de nada. A chegada do carro da funerária, com a sirene estridente ligada, anunciava que a saída do féretro estava para acontecer.
Colocado o caixão no carro fúnebre, uma multidão acompanhou o cortejo caminhando até o cemitério, onde os coveiros aguardavam com a tampa do túmulo aberta à espera do seu eterno morador. Depois de passar a última massa de cimento e cal na lateral da tampa da sepultura, o pedreiro limpou com um pedaço de esponja molhada o nome onde se lia, em letras douradas, no centro da tampa de granito: Jazigo Perpétuo de Chico da Goma.
Na noite seguinte ao sepultamento de Dª. Tereza Papel, a casa de Chico da Goma foi arrombada e totalmente saqueada, como se um tsunami tivesse atingido espetacularmente todas as dependências da humilde residência.
Chico da Goma, escondido no Cumbe para onde fugira, soube da notícia do que sucedeu à sua casa e, ao cair da madrugada, na escuridão da noite, veio até o Aracati para ver o que tinha acontecido. Ao ver a desolação, tudo destruído, não se conteve e, aos prantos, começou a gritar em desespero no meio da madrugada:
— Malditos aposentados, miseráveis pensionistas, vocês me roubaram, eu quero os meus carnês, eles são meus... são meus... são meus... meus... meus...
A vizinhança, apavorada com os gritos, saiu de porta afora em desesperado pavor, acreditando que a alma de Chico da Goma estava aparecendo e vindo para assombrar a todos. Foi uma noite alucinada: ninguém dormiu de medo e de pavor com os gritos da alma de Chico da Goma. Ao amanhecer, os gritos cessaram e um silêncio tumular tomou conta da multidão postada a certa distância da casa. De repente, escutaram um ruído de porta se abrindo e perceberam que vinha da porta de trás. Todos correram para lá e, sem acreditar no que viam, surgiu a figura de Chico da Goma totalmente despido e sujo. Ao se deparar com a multidão, fez menção de correr, o que fez todos se debelarem em desenfreada carreira, uns pisando os outros para escapar da alma de Chico da Goma. Aterrorizado, Chico recuou e se trancou dentro de casa...
Foi então convocado o pai de santo local e o delegado de polícia: o pai de santo para provar à multidão que aquilo que estava dentro da casa não era alma do outro mundo, e sim espírito desse nosso mundo; e o delegado para garantir a integridade física do assombroso meliante, diante da multidão enfurecida formada principalmente de idosos, que entoavam um ensurdecedor coro macabro: Morre... morre... morre! Morre... morre... morre... morre!