A J. M. Brígido

I

Havia seguramente um ano que Juan Herrera desembarcara na pequena ilha da Sereia, quinze graus distante do continente americano, na costa sul oriental da Patagônia, uma ilhota deserta, inacessível quase, confinando em broncos rochedos pontiagudos, em luta perpétua com os elementos que ameaçavam por vezes sepultá-la para sempre no abismo tenebroso do oceano.

Vista à distância, aquela nesga de terra perdida no mar alto dir-se-ia o dorso escabroso e negro d’algum cetáceo monstruoso flutuando n’água.

Era ali que Juan Herrera vivia depois que o governo de sua pátria condenara-o a exílio perpétuo e solitário por causa de não sei que insurreição política contra os poderes constituídos do país.

E ali estava, e ali arrastava a existência rudemente, estupidamente, em companhia de Pampero, soberbo cão de raça, negro como ébano da Índia, grandes olhos cintilantes e inteligentes. Era o único amigo que restava ao exilado naquela existência amargurada de Prometeu roído pelo abutre do tédio que não tem cura. Assim mesmo, só, alimentando-se de caça e pesca, roubando os filhos às aves marinhas que escolhiam para ninho o píncaro das rochas, e introduzindo-se nas locas com risco da própria vida, ainda assim tinha forças para lutar contra a cegueira implacável do destino. Água, bebia-a ele cristalina numa piscina próxima.

Pampero amava-o, Pampero havia de morrer com ele – eis seu derradeiro consolo.

II

À tarde, quando o vento esfuziava com força e o mar sacudia alto a espuma de suas vagas; quando a pouco e pouco cerravam-se de sombra os horizontes, e o condor marinho descia das alturas para repousar nos granitos, Juan, em companhia de Pampero, alçava-se ao cume dos rochedos como para contemplar melhor a grandeza imponente que os cercava.

Chegados em cima Juan sentava-se, pairava o olhar sobre as águas seguindo o voo das gaivotas ou interrogava as nuvens que cortavam o azul, vertiginosas e negras às vezes como rebanhos de búfalos selvagens. Depois volvia para Pampero os olhos rasos de lágrimas...

Vinha a noite, o frio intenso, a neve, e ambos desciam para o albergue, taciturnos e sonolentos.

III

Desde que ali se achava Juan Herrera contara apenas duas velinhas brancas que passaram no horizonte, ao largo, muito ao largo, como se temessem aproximar-se da ilha.

Efetivamente os navegantes receavam tais regiões.

A propósito da ilha da Sereia corriam muitas lendas fantásticas entre as quais sobressaía, por mais curiosa, a que dera nome à ilha.

Narravam os marinheiros do Pacífico, gente ousada, mas supersticiosa, que naquela latitude tinham submergido muitas embarcações atraídas por não sei que voz misteriosa e irresistível saída do fundo do mar; os navios eram arremessados sobre dunas e alcantis.

E acrescentavam que, à noite, via-se uma espécie de farol de luz muito branca e cintilante, como luz elétrica, que iluminava o semblante lindíssimo d’uma mulher cujo olhar alucinava.

É a Sereia, afirmavam os marinheiros do Pacífico, e a ilha ficou se chamando da Sereia.

IV

Consentiram a Juan Herrera levar para o exílio provisões em abundância, roupa, utensílios domésticos e Pampero, o belo cão inglês que não o abandonava nunca.

Se ao menos algum navio desnorteado aportasse à ilha... Mas, não. Passou um ano inteiro e passaria outro e outro sem que ele visse viv’alma!

A essa lembrança um desconsolo pungente apoderava-se do espanhol. Vinham-lhe os desejos, sofreados a custo, de morrer, de acabar com aquela existência inútil, fosse como fosse, atirando-se das rochas ou estrangulando-se...

Ao mesmo tempo pensava em Pampero. Que seria dele, do seu maior, do seu mais leal, do seu único amigo? Matá-lo seria uma injustiça indigna dele Juan. Um cão vale mais às vezes do que um homem, e mais, não se mata brutalmente, a sangue-frio, um animal inofensivo, um amigo como Pampero.

O espanhol conversava com o cão como se este compreendesse-lhe todas as palavras.

— Não é assim, Pampero? Seria uma ingratidão sem nome...

E afagava o animal que se punha vertical, sobre as patas traseiras, as outras sobre os joelhos do exilado, num bolir expressivo de orelhas, grunhindo feliz, como se na verdade também quisesse falar.

O outro beijava-o, suspendia-o ao colo, alisava-lhe o pelo, e Pampero tinha movimentos de reconhecimento ao contato das barbas longas e grisalhas do amigo.

— Não é verdade que tu és meu amigo? continuava Juan; e que nunca, nunca te separarás de mim?

Distraía-se às vezes e dizia: — Fala!...

O cão grunhia lambendo-lhe as mãos, aquelas grandes mãos grossas e sulcadas, mãos de operário, ásperas de labor.

— Vem cá... upa!

Juan suspendia-o ainda mais, rosto a rosto, Pampero inchava de satisfação e lambia, lambia sempre, aceleradamente, as mãos, as orelhas, a venta, os olhos e a testa do outro.

Era assim que as ideias más, aves negras do pensamento, abandonavam em debandada o cérebro d’aquele gigante que se fazia criança.

V

Juan Herrera, se bem que de raça latina, era com efeito um gigante. Alto, muito alto mesmo, espadaúdo como um cafre, braços grossos e musculosos; a camisa aberta na frente, em ângulo de vértice para baixo, descobria-lhe o tórax robusto e cabeludo. Tinha o rosto largo e cheio. Os olhos castanho-escuros, meio injetados, exprimiam doçura e bondade; mal se lhe via a boca oculta pela barba cerrada que ia-lhe pelo pescoço até ao pé das orelhas. Um verdadeiro gigante asselvajado por trezentos e sessenta e cinco dias de solidão e tédio entre o mar, o céu e colossos de granito.

Era assim Juan Herrera, o exilado espanhol.

VI

Um dia Pampero amanheceu triste, mas de uma tristeza que fazia mal a Juan, tristeza de quem vai morrer.

— Que é isso, Pampero? Queres porventura deixar-me só aqui, no meio do mar?

A um canto do albergue, cosido ao chão, todo encolhido, olhar profundo e penetrante como o olhar humano quando está para extinguir-se, o cão deixava-se ficar sossegado, imóvel, numa quietação que chegava a meter medo.

— Que terá sucedido? pensou Juan.

Nisso que se abaixa para acariciar o animal este mostra-lhe os dentes, espumando ameaçadoramente.

O espanhol recuou espantado.

— Era o que faltava! Os homens roubam-me a liberdade; Deus tira-me Pampero!...

E uma luz estranha fulgurou no olhar melancólico do exilado. Transfigurara-se-lhe o semblante.

VII

Fora-se a última esperança.

Pampero agonizava.

Juan quis afagá-lo ainda uma vez, quis acariciar o dorso luzidio do cão, do seu animal querido, mas desta vez Pampero conservou-se quieto, imóvel, olhos vidrados, dentes cerrados, frio; Pampero estava morto.

Pela primeira vez durante um ano de exílio Juan Herrera teve um sorriso, que não era bem sorriso, de satisfação. Quedou-se a olhar fixamente o cão com um gesto aparvalhado na boca entreaberta, braços em cruz, cabeça para o lado. Olhou muito e murmurou depois n'um tom pausado e lúgubre:

— Adeus Pampero, adeus meu amigo!.......

Em seguida saiu e as aves do mar viram-no desaparecer em silêncio, como uma sombra que se esvai, entre as penedias da ilha.

O sol fazia explosão no alto.

Os menores contornos da ilhota destacavam-se nitidamente à luz vibrante que enchia o espaço. Um dia tropical, sem nuvens no azul, sem sombra nas montanhas.

Branquejava no horizonte a vela d'uma embarcação que passava ao largo, muito ao largo, imperceptível quase...

1891

 

FONTE: Contos. Adolfo Caminha. – Fortaleza: Editora UFC, 2002. p.37-42