O Cumbe é uma das localidades mais aprazíveis do município de Aracati. Entre dunas alvas, manguezais, coqueiros inclinados pelo vento e braços do Rio Jaguaribe, a natureza parece ter escolhido aquele pedaço de terra para descansar.
Foi ali que nasceu e se criou Joãozito Bernardo.
Não possuía profissão definida. Fazia aqui e acolá algum serviço, suficiente para ir levando a vida. Gostava mesmo era de jogar futebol e dançar nos “sambas” realizados no Cumbe e nas localidades próximas. Onde houvesse uma bola correndo ou uma sanfona tocando, era provável que Joãozito aparecesse.
Apesar da força física e da habilidade que diziam possuir no manejo de um punhal, era um rapaz pacato. Não procurava desavenças nem provocava ninguém. Segundo ele próprio dizia, tinha medo de quase tudo: da polícia, das autoridades, das brigas e até das assombrações que surgiam nas estradas escuras e nas histórias dos mais velhos.
O medo o acompanhava como uma segunda sombra.
Não era propriamente covardia, mas o instinto de um homem simples que desejava atravessar a vida sem ferir nem ser ferido. Há pessoas que enfrentam o mundo mostrando os dentes. Joãozito preferia baixar os olhos, mudar de caminho e deixar a valentia passar.
Foi nesse tempo que começou a olhar de maneira diferente para uma prima, familiarmente chamada Cacheada.
Talvez tudo tenha começado num samba, ou num olhar demorado. Ninguém sabe ao certo. Sabe-se apenas que se apaixonaram e passaram a namorar escondidos, porque o pai da moça, tio de Joãozito, não aprovava o relacionamento.
O amor dos dois precisou aprender a andar na ponta dos pés.
Encontravam-se geralmente à noite, entre as dunas e os matos do Cumbe, protegidos pela escuridão e por algum cupido moreno, habitante daqueles areais. Enquanto as casas silenciavam e os coqueiros conversavam com o vento, Joãozito seguia para os encontros com o coração dividido: metade amor, metade medo.
Temia ser visto, enfrentar o tio e perder a formosa prima. Mas continuava indo. Há medos que fazem o homem fugir. O amor, entretanto, costuma ensinar-lhe justamente o caminho contrário.
O namoro prosseguiu até que a moça engravidou. Quando a verdade apareceu, provocou profunda desavença entre os irmãos: o pai de Joãozito e o pai de Cacheada. O que poderia ter sido resolvido com entendimento transformou-se em questão de honra e vergonha familiar.
Joãozito não abandonou a moça. Queria casar-se, assumir o filho e formar uma família. Os pais dela, porém, não consentiram e preferiram denunciá-lo à autoridade policial.
Naquela época, a legislação permitia criminalizar o homem que mantivesse relações com uma jovem mediante promessa de casamento ou abuso de sua inexperiência. Com fundamento numa acusação dessa natureza, Joãozito terminou preso.
Era uma sexta-feira de carnaval.
O delegado de Aracati era o sargento Amadeu. Joãozito passou o dia recolhido à prisão, pensando em Cacheada, no filho que estava para nascer, no casamento que lhe negavam e, certamente, no baile carnavalesco que estava perdendo.
À noite, por volta das nove horas, ouviu ao longe as músicas tocadas no Aracati Clube. Apaixonado pelo carnaval, sentiu cada nota atravessar as paredes da cadeia como um chamado. A vida continuava do lado de fora, enquanto ele permanecia preso por desejar casar-se com a mulher que amava.
Não resistiu. Conseguiu fugir e tomou o rumo do Cumbe. Poderia ter procurado um esconderijo distante ou seguido para outra cidade. Preferiu ir ao baile, como se não tivesse escapado da prisão e ninguém estivesse à sua procura. Foi uma decisão de apaixonado, de folião e de homem ingênuo.
Talvez acreditasse que, durante o carnaval, até a Justiça suspendesse o expediente e deixasse as perseguições para depois da Quarta-Feira de Cinzas.
Ao perceberem a fuga, seis soldados partiram a pé para o Cumbe. A polícia não dispunha de veículo. Mesmo que dispusesse, pouca serventia teria, pois não havia ponte para atravessar um dos braços do Jaguaribe, na Canavieira. A antiga ponte de madeira foi levada pelas águas de uma enchente por volta de 1930.
Enquanto os policiais avançavam pela noite, o baile continuava.
No Cumbe não havia energia elétrica. A iluminação precária fazia as sombras dos foliões crescerem e se confundirem diante da porta. Ao se aproximarem, os soldados avistaram um homem de costas.
— É ele! — gritou um deles.
Não perguntaram seu nome nem lhe deram tempo para virar o rosto. Um policial apontou o fuzil e atirou. O homem caiu imediatamente. Não era Joãozito. Era Zé Manuel, seu irmão.
A bala destinada ao fugitivo matou um inocente. Num instante, o trombone perdeu a voz, os passos pararam e o carnaval vestiu luto. Onde havia música, surgiram gritos. Onde havia dança, ficou um corpo estendido no chão.
Foi ali que alguma coisa começou a morrer dentro de Joãozito.
Mesmo após constatarem o engano, os soldados não recuaram. Prenderam-no, açoitaram-no, cobriram-no de murros e amarraram suas mãos para trás. Em seguida, iniciaram a caminhada de volta a Aracati.
Joãozito partiu, deixando no chão o corpo do irmão assassinado.
Até aquela noite, sua maior preocupação fora evitar conflitos. Agora levava consigo a imagem de Zé Manuel caído à porta do baile e a certeza de que a submissão não salvara ninguém.
Ao chegarem à Canavieira, os soldados colocaram o preso numa canoa para atravessar o rio. Joãozito foi sentado no meio do banco do remo, com as mãos amarradas para trás. Os seis policiais acomodaram-se nas bordas da embarcação, três de cada lado. A canoa avançou sobre as águas escuras.
No meio do rio, longe das margens e protegidos pelas trevas, um dos soldados desfechou-lhe outro murro. Em seguida, um policial apontou a arma e atirou à queima-roupa. O projétil passou raspando, queimando sua testa. Por muito pouco, não o matou.
Naquele instante, o homem que passara a vida com medo compreendeu que o medo já não poderia salvá-lo. Se continuasse imóvel, seria assassinado e lançado nas águas do Jaguaribe.
Talvez tenha visto novamente o irmão caído. Talvez tenha pensado em Cacheada e no filho que ainda não conhecia. Talvez tenha compreendido que aqueles homens não o estavam conduzindo à cadeia, mas à morte.
Então, o medo mudou de lado.
Não se sabe como, Joãozito conseguiu libertar-se das cordas. Levantou os braços e, num movimento de força quase inacreditável, lançou os seis soldados no rio. Os homens debateram-se nas águas e por pouco não se afogaram, salvos pela intervenção do timoneiro.
O homem que tinha medo de assombração transformara-se, naquela noite, na maior assombração de seus perseguidores.
Foi então que, assustado não com os soldados nem com a escuridão, mas consigo próprio, Joãozito teria pronunciado a frase que atravessou os anos:
— ESTOU COM MEDO DE NÃO TER MAIS MEDO!
Não era bravata nem proclamação de valentia. Era o espanto de um homem pacato ao descobrir a violência de que era capaz quando encurralado pela injustiça.
Joãozito não comemorou a coragem recém-descoberta. Teve medo dela. Talvez pressentisse que certas portas, após abertas dentro de um homem, nunca mais se fecham completamente.
Capturado algumas semanas depois e posteriormente posto em liberdade, mudou-se para Fortaleza e começou a trabalhar numa empresa de navegação costeira.
Certo dia, presenciou seu patrão sendo agredido por um empregado. O antigo Joãozito talvez tivesse recuado ou chamado alguém. Aquele que emergira das águas do Jaguaribe, porém, partiu para cima do agressor e o feriu mortalmente.
Não acredito que tenha agido por maldade. Reagiu como aprendera naquela travessia: com a força inteira, sem medir o limite entre defender e destruir. A injustiça não o transformara num homem perverso, mas lhe retirara o medo que antes continha seus impulsos.
Protegido pelo proprietário da empresa, desapareceu escondido no porão de um navio. Levava pouca coisa consigo, mas carregava dois mortos: o irmão assassinado e o rapaz pacato que ele próprio fora um dia.
Durante mais de cinquenta anos, não se teve notícia de Joãozito Bernardo.
Em janeiro de 2020, entretanto, encontrei-o em Jardim de São Lourenço, no município de Fortim.
Depois de mais de meio século, o homem que desaparecera no porão de um navio estava novamente diante de mim.
Fomos à sua casa e combinamos que eu voltaria para entrevistá-lo. Joãozito desejava contar suas aventuras e tudo o que vivera durante os longos anos em que ninguém soube de seu paradeiro. Chegou a viver clandestinamente na Argentina.
Eu pretendia escrever um livro sobre suas peripécias.
Não houve tempo.
Joãozito morreu na semana seguinte, levando consigo a maior parte de sua história.
Restou-me aquilo que ouvi, o que pude reconstruir e a lembrança daquele homem que, na juventude, tivera medo de quase tudo. Um homem que não nasceu mau, não procurava brigas nem desejava tornar-se fugitivo. Quis apenas amar uma mulher, casar-se com ela, reconhecer o filho e dançar numa noite de carnaval.
Mas a intolerância familiar o levou à prisão. A imprudência policial matou seu irmão. A brutalidade cobriu-lhe o corpo de pancadas. E uma bala disparada à queima-roupa ensinou-lhe que o medo, às vezes, já não basta para conservar a vida.
Há pessoas que passam a existência tentando vencer o medo.
Joãozito experimentou um destino diferente.
Quando finalmente o venceu, não encontrou dentro de si um herói nem um criminoso. Encontrou um homem acuado, capaz de uma força terrível, moldado por tudo aquilo que sofrera. E passou a carregar o mais estranho de todos os temores: O MEDO DE NÃO TER MAIS MEDO.
Fortaleza, 22 de agosto de 2026
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História verdadeira ocorrida em Aracati na década de 1950.


