Havia, na Aracati do meu tempo, alguns sapateiros renomados. Contudo, para ser sincero, nenhum ostentava a maestria de Ananias Bernardo.

Sua oficina funcionava na própria residência, na Rua Santos Dumont. Não havia placa na fachada informando que ali trabalhava um sapateiro. Nem precisava. O toc-toc do martelo atravessava a calçada e anunciava à vizinhança que naquela casa se dava jeito em qualquer sapato.

E Ananias fazia de tudo. Fabricava calçados sob medida, consertava, pregava meia-sola, engraxava, afrouxava, acochava, remodelava. Enfim, fazia o que fosse necessário para atender à vontade do freguês.

Tudo era feito à mão. A luz elétrica somente se tornava necessária quando algum serviço mais urgente o obrigava a trabalhar noite adentro.

Ananias era homem de poucas palavras. Enquanto trabalhava, não conversava nem interrompia o serviço para merendar. O silêncio da oficina era profundo, quebrado apenas pelo toc-toc do martelo e, na hora certa, pela voz de sua mulher, dona Beatriz:

— Ananias, venha almoçar!

Sentado à banca, permanecia cercado por uma parafernália de ferramentas e materiais, alguns hoje quase desaparecidos: sovelas, formas de madeira, pedaços de couro, solas, palmilhas, tacões, tachinhas, linhas enceradas, martelos, latas de graxa e escovas. Tudo espalhado numa arrumação que somente ele compreendia, formando um mosaico mais desordenado que ninho de casaca-de-couro.

Tudo ficava à vista do freguês. A única coisa que Ananias não precisava mostrar era sua inteligência. Tampouco sua criatividade. Ambas se revelavam na qualidade do que saía de suas mãos.

Num canto da parede, amontoava-se uma ruma de objetos à espera de conserto: sapatos, chinelas, sandálias, botas, bolsas de couro, cintos e tudo mais que pudesse ganhar sobrevida pelas mãos do mestre.

Chegava um freguês trazendo um sapato quase vencido pelo tempo:

— Seu Ananias, queria que o senhor desse um jeito nisso. É para eu ir à festa de São Sebastião.

— Quando está pronto?

Ele examinava o sapato, levantava os olhos e, com aquele sorriso de pureza e bondade, respondia:

— Antes da festa.

— E quanto vou pagar?

— Só quando terminar. Ainda não sei o estado da peça.

Era assim, Ananias Bernardo.

Sua oficina exalava o cheiro do couro misturado ao odor forte da cola, enquanto o martelo marcava o compasso das manhãs e tardes aracatienses.

Mas havia naquele homem uma habilidade ainda mais extraordinária do que consertar sapatos.

Ananias conhecia o dono pelo calçado.

Não precisava de nome, endereço nem qualquer explicação. Bastava alguém colocar sobre sua banca um par deixado para conserto. Ele examinava a sola, observava o salto, apertava o couro entre os dedos e sentenciava:

— Este aqui é de Fulano.

E era. Os sapatos lhe contavam coisas.

Pelo desgaste da sola, Ananias sabia quem caminhava muito. Pela inclinação do salto, descobria quem pisava de lado. Percebia quem arrastava um dos pés, quem precisava de um remendo mais frequente e até quem, após anos mandando colocar meia-sola, aparecia finalmente com um par de sapatos novos.

Talvez descobrisse até quem estava melhorando de vida.

Cada freguês deixava no próprio calçado uma espécie de assinatura. E Ananias sabia lê-la.

Hoje, profissionais e serviços dessa espécie praticamente desapareceram do cotidiano das cidades. Quando um sapato se estraga, muitas vezes não se procura quem o salve: compra-se outro. Naquele tempo, porém, um bom sapato atravessava anos, festas, missas, casamentos, enterros e domingos na praça. E, quando fraquejava, ia parar nas mãos de Ananias.

Ele não consertava apenas couro, sola e salto. Prolongava histórias.

Ananias Bernardo não está mais entre nós. Sua banca silenciou, as ferramentas descansaram e os sapatos já não se amontoam naquele canto da casa.

Mas, quando retorno em pensamento à velha Rua Santos Dumont, parece-me que ainda escuto o toc-toc de seu martelo. Às vezes o som atravessa a calçada; outras vezes, volteia pela rua e retorna à casa de onde partiu, como se o tempo também tivesse um sapato precisando de reparo.

Talvez Ananias Bernardo tenha sido o único homem que conheci capaz de reconhecer uma pessoa sem lhe olhar o rosto.

Bastava olhar para os seus pés.

Ou melhor: Para os seus sapatos.