Havia algo de errado com o Montenegro. Zagueiro vigoroso do Peñarol, time universitário preto e amarelo, como as cores do clube original uruguaio, encontrava-se bem mais violento em campo do que em jogos anteriores. Fora, estava cabisbaixo, corcunda, irritadiço, calado. Não contava mais causos, não falava mais de amor, evitava até a roda de samba pós-jogo, preferindo a reclusão de uma mesa de canto, quente, escura e suja, bebendo rum com coca, cuba libre, sozinho. Parecia querer matar os adversários em campo e morrer fora dele.
Seu companheiro de zaga, o Fonseca, de forma diversa, era um homem livre, não se apegando a amores e paixões fugazes. Enquanto o camisa três andava taciturno, o camisa quatro era do samba, da noite, das mulheres em excesso, vítima de plateias fiéis na arquibancada que suspiravam a cada lançamento ou desarme que o atleta exibia nos jogos, não sem um pouco de exagero para chamar a atenção das moçoilas. Chegava até a simular contusões, após a partida, que sempre era motivo para um carinho ou um chamego das fãs que o aguardavam com olhos fixados em suas coxas grossas.
Incomodado com o comportamento do companheiro, Fonseca chamou-o para uma conversa. Franca, como nunca antes. Era até uma questão de caridade. Antes do diálogo, pensava em indicar uma amiga psicóloga que por certo não se recusaria até a atendê-lo com algum desconto. Mas pensou em usar seus já conhecidos métodos de trabalhar a autoestima e levantar o moral dos amigos: apresentá-los à vida.
— “O que houve, rapaz?” Pensava até que tinha alguma coisa a ver com as duas cabeçadas certeiras de Zidane na final da Copa ocorrida na semana anterior.
Mal perguntara, um destruído Montenegro, embebecido de rum com coca, desabara num choro mais do que compulsivo, um pouco até constrangedor para um homenzarrão barbado daquele que mais parecia uma criança carente e indefesa. Fonseca entendera que se tratava de chifre, de dor nos córnios, de traição.
— “Acabou...” murmurava recorrentemente o Montenegro.
— “Como acabou? Na verdade, começou agora. Vá tomar banho, vista uma roupa, arrume-se, vamos para Natal”.
— “Natal?”
— “Sim, Natal. Rio Grande do Norte. Estão aqui suas credenciais para um congresso de fisioterapia. Seu nome agora será Marcos Paulo, com boa vontade esse da foto aí é você. Corre homem, vamos. Você precisa conhecer Janice, amiga da Carla”...
Na estrada, inseriu uma velha fita Basf no toca-fitas do Voyage branco 91, que ecoava uma suave composição do Toquinho e, enquanto Montenegro concentrava-se ao volante, Fonseca dedilhava algo no violão:
“Voa, coração. A minha força te conduz. Que o sol de um novo amor em breve vai brilhar. Vara a escuridão, vai onde a noite esconde a luz. Clareia seu caminho e acende seu olhar. Vai onde a aurora mora e acorda um lindo dia. Colhe a mais bela flor que alguém já viu nascer. E não esqueça de trazer força e magia, o sonho e a fantasia, e a alegria de viver.”[4]
Aquilo foi repetido dezenas de vezes até quando chegaram à capital potiguar. Desceram no centro histórico, pegaram uma espécie de trem do forró e, mal desceram no vagão, Carla agarrou-se a Fonseca. Janice e Montenegro se entreolharam. Apresentados, conversaram, riram, dançaram. Empolgado, Montenegro arriscava cantar um velho samba ao microfone no palco, descia, beijava a moça, para, em seguida, falar algo ao pé de ouvido. Contou-lhe piadas, inventou histórias e beijou-lhe novamente. Grudaram-se e amaram-se.
Meses depois, Fonseca andava pela Praia de Iracema dos anos noventa, em Fortaleza, com um violão a tiracolo. Um garçom do antigo Restaurante Sobre o Mar aponta para o andar de cima. Montenegro, abraçado a Janice, acenava, chamando-o para subir.
— “Amigo, eu e Janice estamos nos noivando hoje. Preciso muito te agradecer e brindar contigo por ter me dado muita força naquela época.”
— “Brinde? Rum com coca?”
— “Não, rum com coca jamais. Brilhou em mim o sol de um novo amor”.
MEIRELES, Lucio Telmo. Quando o olho brilhou – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 27-29


