Em meados de 1997, minha irmã Juliana me ligou diretamente do Rio de Janeiro, perguntando-me se queria alguma lembrança. Encomendei uma camisa da Mangueira que fizesse referência ao samba enredo do ano seguinte, “Chico Buarque da Mangueira” que viria a ser campeã do carnaval carioca de 1998.
Aquela camisa era o meu xodó. Valia mais do que qualquer camisa do Fortaleza ou do Flamengo. Era exatamente a camisa promocional que a Mangueira havia lançado. Sei do esforço e do carinho que minha irmã teve ao comprá-la para mim, mas eu cismei que iria entregá-la no palco para Chico Buarque. Coisa de fã tresloucado.
Chegamos bem cedo na Casa de Engenho, já com uma garrafa de vinho na cabeça. Fizemos amizade com o garçom, de nome “Cavalcante”, e mandamos descer logo uma garrafa de red label com muito gelo. Seria um momento único.
Envolvo a mesa com a camisa “Chico Buarque da Mangueira”, como se fosse uma bandeira ou um manto. Olho para mesa ao lado. Lá estava Silvia Buarque que ria sem parar quando mencionei que estava aguardando o show do meu futuro sogro.
As cortinas se abrem e ele entra com “Paratodos”.
Em “Cotidiano”, erra a letra e mesmo sem ninguém notar, pede desculpas e recomeça a canção mediante aplausos efusivos da plateia encantada. Perfeccionista, repete a letra sem nenhum erro.
Na sequência do show, um momento épico. Como estávamos bem na frente do palco, em posição centralizada, e sabíamos decoradas todas as letras das músicas, chamávamos a atenção de todos e do próprio Chico, que começa a cantar “Quem te viu quem te vê”, olhando em nossa direção.
— “Você era a mais bonita...”, olha para gente e espera nossa resposta em dueto, que vem de imediato:
— “Das cabrochas dessa ala...”. Em êxtase, quase gritávamos...
— “Você era a favorita...” Chico olha novamente em nossa direção, aguardando que continuássemos:
“Onde eu era o mestre-salas...”
E assim continuamos, num inesquecível dueto até o final da canção.
Ainda durante a apresentação das outras músicas, nos entreolhávamos, como se não acreditássemos no que estávamos vivenciando:
“Havíamos feito um dueto com Chico Buarque!”
Ao final da apresentação, eu, Murilo e Rodrigo nos levantamos, ao som de “Chão de Esmeraldas”, nos dirigimos ao palco e entregamos pessoalmente a camisa de presente que ele recebe agradecido, exatamente da forma como havia planejado.
Quando já estávamos de frente para o palco, ele retorna para o bis com “Samba do Grande Amor”, que acabou não entrando no disco ao vivo, “João e Maria” e “Vai Passar”, para concluir a inesquecível apresentação.
Ao final nos cumprimenta em forma de reverência, com os dois braços, e sai com seu passo buarqueano. Entreolhávamo-nos mais uma vez como se não acreditássemos se aquilo tudo era verdade.
Naquele momento, eu já estava abraçado com duas meninas que não sei nem quem eram, totalmente inebriado, quando noto a presença de uma amiga que vem me cumprimentar e diz:
“Lúcio, fiquei emocionada por você”.
Dali, fui direto para a Praia de Iracema, de onde sairia somente depois de contemplar o nascer do sol.
Nunca mais seria o mesmo, afinal, havia feito um dueto com Chico Buarque.
__________________________
MEIRELES, Lucio Telmo. Quando o olho brilhou – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 17-20

