Chico Cesar, compositor paraibano, criou uma linda música de nome “À Primeira Vista”, que fez muito sucesso na década de noventa na voz de grandes cantoras como Daniela Mercury e Elba Ramalho.

Em determinado trecho da composição, é dito o seguinte: “...quando o olho brilhou, entendi...”. E eu, ao ouvi-la, sempre meditava: o que entendia o poeta quando o olho brilhava? Qual olho que brilhava? O dele, poeta, ou o olho da musa?

Se o compositor se referisse ao olho dele próprio, se chegaria à conclusão de que nada na vida teria sentido sem que se tenha sentimento, já que a emoção, no mais das vezes, se reflete no olhar. No brilho dos olhos. Seria uma clara evidência de que, nas nossas atividades corriqueiras, deveríamos sempre buscar o tão sonhado “brilho” nos nossos próprios olhos, sob pena de sofrermos grandes e profundas frustrações. Contudo, sempre acreditava que, na música, o poeta se referia realmente ao brilho nos olhos da amada.

Chico César ensina que, para saber se somos ou não correspondidos no nosso amor, seria imprescindível que observássemos se os olhos da amada brilhavam com a nossa presença. Se sim, era um forte indício de que ela nos amava também.

E, desde aquela época, 1996, resolvi perquirir sobre a importância do olhar como elemento de interpretação dos sentimentos, sempre utilizando essa sábia lição na minha vida, em todos os aspectos.

Passei a buscar mirar os olhos dos meus interlocutores para perceber o que se passava por suas cabeças e descobri que sempre há uma margem de segurança maior caso se observe o que diz o olhar: empolgação, felicidade, tristeza, depressão, verdade, mentira, indiferença, e até ódio, aprendi a desvendar através do olhar da pessoa com que conversava.

É uma tática quase infalível, mas é preciso de muita prática para entender o significado de alguns olhares, já que uns, por vezes, são indecifráveis.

Uso muito desse expediente. Busco encarar, olho no olho, as pessoas com as quais devo expor qualquer assunto. Se o meu falar agrada ou não, percebo pelo olhar de quem me ouve. Faço sempre isso, em palestras, em sala de aula, em audiências, em conversas corriqueiras e informais.

Levo isso tão a sério que não gosto de conversar com pessoas que usem óculos escuros, pois se torna evidentemente mais difícil decifrar o que pensam. Do mesmo modo, não confio em que me cumprimenta sem olhar nos olhos. É certo que o movimento de baixar a vista pode ser consequência de uma excessiva timidez, mas pelo sim pelo não, prefiro não confiar em que promete algo sem fixar o olhar.

Nas minhas atividades profissionais a tese “chicocesiana” sempre surtiu efeito, tanto no magistério como na atividade de advocatícia.

Percebo se a aula agrada e se os alunos têm interesse na matéria se os olhos deles estão fixos e brilhantes. Acaso estejam opacos e sem vivacidade é sinal de que alguma coisa não os está agradando, e se torna imperioso mudar o roteiro da aula para torná-la mais atraente.

Na advocacia, é pelo olhar do magistrado, nas infindáveis audiências, que percebo se a minha tese jurídica será procedente ou não. Quando o olho do juiz brilha, é sinal de que obterei êxito.

Por falar em audiências, numa quente tarde em Limoeiro do Norte, extenuado por três estressantes audiências na Justiça Federal, que me consumiram muitas horas de debates, além de uma viagem de cerca de cem quilômetros, encontrei-me desiludido, achando tudo sem sentido. Naquele momento, estava cansado, suado, faminto e bastante irritado, quando uma das clientes daquele dia, que se tratava de uma senhora bastante idosa, viúva, se aproximou de mim, tocando na minha mão, e falou: “Obrigado, Doutor. Sem esse dinheiro não teria como me manter e fatalmente passaria fome”.

Comovido pelo êxito na lide e pela gratidão da humilde cliente, olhei bem nos olhos dela: eles brilhavam.

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MEIRELES, Lucio Telmo. Quando o olho brilhou – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 52-54