Não é muito comum noites com vento forte no sítio em que a família da minha esposa reside. Menos nesta noite de São João. Noite junina, de festa no Nordeste, mas de onde estou não avisto mais fogueiras, quadrilhas, bandeiras nem crianças brincando. A minha realidade é bem mais dura. E as noites me são sempre intranquilas.
Confesso que me assustei com a força do vento batendo a porta com violência às quatro da manhã. Parecia me acordar para a lida, ou melhor, parecia me acordar para a vida.
Confesso também que temi enfrentar a esburacada estrada rumo a Mossoró em virtude do temporal, ainda mais nesse breu. Rezei, benzei-me, despedi-me da mulher amada e resolvi seguir viagem. Não sem antes acariciar minha pequena filha que dormia um sono lindo.
Na escuridão, meu velho carro enfrentou um aguaceiro imenso, mas mesmo sem ter tração nas quatro rodas, conseguiu chegar incólume à estrada principal, onde a chuva fina alternando para momentos de chuva forte, convidava-me a desistir da viagem.
Prossegui, no entanto. Com medo, chorando e temendo o pior. Chegando a Icapuí, caiu-me a última lágrima ante a dadivosa visão do sol nascendo para um novo dia, que poderia ser belo, mas não foi. Um pouco de sorriso não me faria mal, é evidente.
Sobrevivi a algumas intempéries daquela estrada. Mais difícil foi enfrentar uma pilha de processos e o mau humor de alguns colegas de trabalho. Os raios e trovões acinzentaram o resto do meu dia.
A preocupação recorrente com a filha gripada e a distância, tiraram-me qualquer chance de sossego. Festa junina nunca me atraiu mesmo.
À noite, lamento a morte do Michael Jackson e penso na falibilidade da vida. Discuto mais uma vez ao telefone, e penso em desistir de tudo.
A gripe persistente e as muriçocas motivam-me a querer fugir para uma beira de praia ou para uma sombra frondosa. Queria chupar um caju embaixo do cajueiro. Sinto-me aprisionado. Sinto-me sufocado. Será que todo esse esforço vale realmente à pena?
Um gole de café frio e o doce, acompanhado de pão carteira com o típico creme do sertão mossoroense, afagam um pouco a minha ansiedade. O jornal com alguma notícia da terra natal me dá também um pouco de alento. O clima frio em pleno oeste do Rio Grande do Norte rememora-me algo da infância.
Nessa hora, dois amigos estagiários, Thales e Daniel, fazem-me rir com os causos típicos dos potiguares. Coisa de jovens e solteiros.
Há alguma esperança, e dois outros grandes amigos me ajudam.
Chico Buarque me diz: “amanhã vai ser outro dia”[6].
E Belchior: “vida, vento, vela, leva-me daqui”[7].
MEIRELES, Lucio Telmo. Quando o olho brilhou – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 49-51

