A música popular brasileira possui uma dimensão em que o apuro técnico e a sensibilidade melódica se encontram de forma tão natural que a complexidade se dissolve na própria beleza do som. Foi exatamente nesse território de fluidez e sofisticação que o cearense Luizinho Duarte (1954–2022) ergueu sua trajetória de cinco décadas. Autodidata, baterista de pulsação singular, arranjador, professor e autor de uma obra copiosa, Luizinho deixou impresso na história da música instrumental brasileira um vocabulário próprio — profundo em suas raízes nordestinas e absolutamente universal em seu alcance harmônico e poético.

Para resgatar, sistematizar e colocar essa criação ao alcance de novas gerações, no dia 15 de julho, às 18 horas, a Escola Pública de Música Cristiano Pinho da Vila das Artes, em Fortaleza, será palco do lançamento oficial do primeiro Songbook de Luizinho Duarte. O evento contará com um concerto especial do quarteto Marimbanda, grupo fundado por Luizinho e pelo flautista Heriberto Porto em 1999, que serviu como o principal laboratório e veículo de expressão do compositor ao longo de mais de duas décadas.


Um Registro Histórico para a Música Instrumental Brasileira


Idealizado por Heriberto Porto e pela produtora Rosina Popp, o projeto do songbook surge como uma iniciativa pioneira de salvaguarda do patrimônio imaterial. Até então dispersas ou preservadas em manuscritos e gravações de referência, parte fundamental das composições de Luizinho Duarte ganha agora edição impressa definitiva, franqueando o acesso a instrumentistas, docentes, estudantes e pesquisadores de todo o Brasil.

Marimbanda. Foto: Divulgação.

A publicação reúne 20 obras selecionadas a partir da discografia da Marimbanda — que contempla os álbuns Marimbanda (2001), Tente Descobrir (2005), Caminhar (2020) e o recente Lindo Sol (2024). Nos três primeiros trabalhos, Luizinho esteve diretamente presente como pilar rítmico, arranjador e compositor central. Além do esmero na transcrição musical, o livro conta com apresentação do jornalista e músico Dalwton Moura, textos analíticos de Heriberto Porto e recursos multimídia via QR Codes, permitindo o cotejamento direto das partituras com as interpretações originais do grupo. Reafirmando o compromisso com a democratização do conhecimento, a edição prevê a distribuição gratuita de exemplares em braile para instituições e músicos com deficiência visual.

Versatilidade sem Fronteiras: O Universo Composicional

Analisar o catálogo de Luizinho Duarte é adentrar um ecossistema rítmico vibrante. Embora profundamente ligado aos gêneros matrizes da música brasileira — como o samba, o choro, o baião, o frevo, o forró e a bossa nova —, o compositor recusava qualquer tipo de limitação estilística. Sua escrita transitava com surpreendente desenvoltura por formas internacionais e híbridas: da cadência dramática do tango à riqueza afro-caribenha registrada na faixa-título Tente Descobrir; do lirismo da valsa-jazz em Num Domingo de Valsa às contemporâneas sonoridades dos funks Feito Assim e Lindo Sol.

Essa amplitude criativa foi documentada em rigorosa pesquisa acadêmica conduzida por Karine Teles na Universidade Estadual do Ceará (UECE). O levantamento catalogou, até 2016, a impressionante marca de 596 peças musicais. O estudo revelou como a produção de Luizinho dialogava diretamente com os ciclos de sua vida e seu cotidiano. Fatos afetivos inspiraram joias da música: a maternidade e a infância do filho Joaquim deram origem a Cantiga de Ninar e Joaquim no Choro; a criação da big band Metalira motivou o vigoroso arranjo de Pra Começar; enquanto intempéries e humores traduziram-se nas peças Choro na Chuva e Momento Difícil.

As composições de Luizinho parecem nascer já revestidas de um caráter de permanência. São melodias fortes, diretas e memoráveis que se fixam na escuta com naturalidade, carregando em si a densidade e o apelo imediato dos grandes standards da MPB. Sua escrita revela diálogos fluídos com mestres como Dorival Caymmi, Severino Araújo, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Zimbo Trio e Hermeto Pascoal.

Uma Trajetória Consagrada na Cena Nacional

Após consolidar sua reputação no Ceará a partir da década de 1980, Luizinho Duarte atuou na cena musical do Rio de Janeiro nos anos 1990. Na capital fluminense, trabalhou ao lado de ícones da MPB como Maria Bethânia, Tim Maia, Elza Soares, Leila Pinheiro, Johnny Alf e Zezé Motta. Foi nesse ambiente de efervescência, encorajado por nomes como Adriano Giffoni e Jorge Helder, que intensificou sua veia de compositor.

Ao retornar a Fortaleza, Luizinho dedicou-se à estruturação do quarteto Marimbanda — hoje formado por Heriberto Porto (flautas), Netinho de Sá (baixo), Thiago Almeida (piano, escaleta e arranjos) e Michael da Silva (bateria). Paralelamente, atuou ativamente como educador em oficinas, projetos sociais e festivais por todo o estado, tornando-se mentor de gerações de instrumentistas. Suas composições foram gravadas por virtuoses como Spok Frevo Orquestra, Michael Pipoquinha, Cainã Cavalcante, Roberto Marques e Grupo Syntagma.

O projeto do songbook conta com o apoio do Ministério da Cultura e da Secretaria da Cultura do Ceará, viabilizado por meio da Lei Federal nº 14.399/2022 (Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura).

Serviço do Lançamento
Evento: Lançamento do Songbook de Luizinho Duarte e Pocket Show da Marimbanda
Data e Horário: 15 de julho, às 18h
Local: Escola Pública de Música Cristiano Pinho — Vila das Artes
Endereço: Rua Padre Piamarta, nº 262, Bairro Bom Futuro (Antigo Piamarta Montese), Regional 4, Fortaleza - CE
Entrada: Gratuita
Mais informações: www.marimbanda.com.br