Nem todos os apelidos que conhecemos são de autoria de Castorina Pinto, como ela mesma costumava dizer: “papagaio come milho, periquito ganha fama”. Podemos citar como exemplo disso o apelido “Carretel de Linha Preta”, que acompanhou por toda a vida o ex‑interventor federal no Ceará (1937–1947), Francisco Menezes Pimentel. Muitos atribuem a autoria dessa alcunha à Mulher dos Apelidos, sem, no entanto, haver constatação verdadeira que assegure a Castorina a criação do cognome “Carretel de Linha Preta”.

Blanchard Girão, importante jornalista cearense, dizia:

Os ‘apelidos’ de Castorina têm o seu valor. São reflexos de uma inteligência superior, de um espírito de fino senso de humor e de extraordinário poder de observação[1].

Numa visita que Menezes Pimentel realizou ao Aracati, nos anos 1940, veio acompanhado do general Mascarenhas de Morais — então comandante da 7ª Região Militar —, do capitão Cordeiro Neto e de outros auxiliares, entre assistentes e o oficial de gabinete. A comitiva foi recebida pelo prefeito Mário Lima, pelo promotor Ubirajara Carneiro e pelas demais autoridades da Terra dos Bons Ventos.

Na ocasião, ofereceu‑se um lauto banquete na residência do Cel. Alexanzito Costa Lima. O serviço à mesa dos ilustres visitantes ficou a cargo de várias senhoritas da elite aracatiense, entre as quais se encontrava Castorina Pinto.

A figura do ex‑interventor não passou despercebida à inquieta e observadora aracatiense. Menezes Pimentel tinha o pescoço atarracado, pele escura — que, à época, era motivo de preconceito racista — e pequena estatura. Era, na verdade, o apelidado “desprovido de beleza”.

Diz o folclore que Castorina, ainda iniciante na arte de apelidar, não quis ser taxativa ao ser indagada quanto às impressões que tivera do ex‑interventor. Pensativa, expressou‑se:

— É, não me sai da cabeça a semelhança desse homem com um “Carretel de Linha Preta”. E não é que ele tem a aparência de um Carretel de Linha Preta!!! Num é não?


[1] GIRÃO, B. Nem todos os apelidos da Castorina, de Aracati, são de sua lavra. Gazeta do Jaguaribe, Aracati,  10 jun 1951, p. 2, 4.