Werner vivia deprimido desde a morte da esposa em 2004. Aos setenta e dois, a vida perdera a graça. Engordara, deixara a barba grisalha crescer, e a tristeza aumentou após a filha única, Liana, mudar-se para a capital Curitiba em busca de sonhos, viagens, estudos.
Da Serra, na velha estância em que residia sozinho, restava ao velho apenas o hábito matinal de mexer nas ferramentas. Consertar aqui, apertar acolá. Vez ou outra se utilizava do martelo que quebrava o silêncio. Ao final do dia, entregava-se à bebida até adormecer ou empanturrava-se de linguiças e salsichões típicos do país natal dos seus pais, a Alemanha, como se quisesse morrer ou matar-se aos poucos.
Já Liana andava preocupada. Recebera o resultado dos exames do pai. Um tumor maligno, além das taxas de diabetes e colesterol altas. No entanto, receava contar-lhe a verdade, pois poderia se entregar de vez à depressão. Além do mais, Liana estava num momento de indecisão, afinal, recebera um convite tentador para passar três semanas em Salvador a trabalho. Mas como ir e abandonar o pai naquele estado?
Na estrada de volta à estância, com os exames a tiracolo, ao avistar os pinheiros teve uma intuição. Poderia levar o pai consigo para aproveitarem juntos o final de ano na capital soteropolitana. Ela trabalharia durante o dia. Nas horas vagas, ficaria com o pai, e, enquanto estivesse no emprego, o pai bem que poderia passar o dia fantasiado como Papai Noel num shopping... Seria perfeito, sabia que pagavam bem, o contato com as crianças iria ajudar no tratamento e o dinheiro seria muito útil para custear a quimioterapia.
De fato, o velho Werner, barrigudo e barbudo, com o rosto de ascendência germânica rosado e olhos claros, lembrava a figura do bom velhinho, mas não seria fácil convencê-lo. Mil negativas: — “Aquilo seria vergonhoso...passar o dia vestido de Papai Noel...ora, onde já se viu isso?”
Liana então resolveu abrir o jogo. Falara do resultado dos exames. Da situação gravíssima. Da oportunidade de passar uns dias no Nordeste e no dinheiro que seria útil para ambos como custeio do tratamento. Não se sabe como, mas Werner topou...
Ao chegar a Salvador, Werner teve outro ânimo. Visitou o Pelourinho, igrejas, museus, o Mercado Modelo, o Elevador Lacerda, o Farol, a Praça Castro Alves, a Avenida Sete, pediu bênçãos ao Senhor do Bonfim, provou com moderação um pouco da culinária baiana e, melhor de tudo, venceu o concurso, sendo escolhido o Papai Noel de um famoso shopping da cidade.
Contratado, todo dia banhava-se bem cedo no sol da Praia da Barra, depois bebia água de coco, preparando-se para passar o resto do dia recebendo o carinho das crianças, vestido de Papai Noel, ocasião em que ria alegremente, contava historinhas, acenava, abraçava-as, colocava-as no colo, sorria para foto, dava pirulitos e bombons. Divertia-se. Rejuvenescia e recuperava um pouco da vontade de viver, esquecida em algum lugar no tempo. Liana percebia a olhos vistos a mudança comportamental do pai que acordava empolgado para o contato com as crianças.
Na véspera de Natal, último dia da aventura em solo baiano, Werner/Papai Noel avistou um menininho bem magro de boné ao final da fila para fotos, que destoava dos outros por estar quieto e concentrado. Os demais pediam o boneco dos heróis da Liga da justiça, bicicleta, bolas, bonecas de princesas, vestidinhos e o menino com um boné do Batman na cabeça a tudo observava calado.
Ao chegar sua vez, o garoto mirrado abraçou e beijou-lhe a face. Werner, por sua vez, deu-lhe um pirulito, tirou-lhe o boné e beijou-lhe a cabecinha sem cabelo. O menininho de cinco anos olhou feliz para o bom velhinho.
— “O que você quer de presente, meu filho?”
— “Quero apenas que o senhor me cure, Papai Noel. Estou muito doente...”
Sem resposta, Werner suspirou por longos segundos. Em seguida, chorou copiosamente. A frágil criança, contudo, prosseguia com seu pedido:
— “Gosto muito de viver...”

