Aracati

Sunday, 24 May 2026 09:44

CASTORINA PINTO | CARAPANÃ DE BIGODE

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Teatro Santo Antônio (detalhe). Acervo: Netinho Ponciano Teatro Santo Antônio (detalhe). Acervo: Netinho Ponciano Colagem Digital: Marciano Ponciano

Para a festa de iluminação da luz elétrica no Teatro Santo Antonio, propriedade da família Figueiredo e situado na antiga Travessa Riachuelo , fora contratado um exímio violinista, maestro de renome, originário da cidade de Recife e membro efetivo da orquestra de cordas Maurício de Nassau.

Apesar de apresentar uma figura bisonha, magro de dar dó, bigode espesso e estatura diminuta, destacava-se com brilho incomum ao executar no stradivarius peças carregadas de emotivos sentimentos.

Viera recomendado pelo rico comerciante Antonio Rodrigues Figueiredo para abrilhantar a grande festa de inauguração da luz elétrica do teatro, que, embora iluminado por lâmpadas de grande força, ainda carecia, como se dizia então, daquele realce que outrora lhe davam as suas múltiplas lâmpadas de acetileno.

E assim, naquela noite de luz e festa, o teatro se encontrava lotado, seus camarotes repletos de elegantes senhoras e gentis senhorinhas, entre as quais se destacavam as beldades da finesse de nossa sociedade: Edith Pinto, Pandeciana, Gertrudes, Helia Gurgel e Castorina Pinto.

Antes que a atração principal se apresentasse, sucediam-se no palco grupos de amadores aracatienses representados pelas agremiações Grupo Thaliense e Recreio Dramático, todos sempre muito aplaudidos, como convinha à boa etiqueta da plateia.

A entrada do astro da noite foi antecedida pela execução de um belíssimo dobrado, oferecido pela banda de músicos Filarmônica Figueiredo, ricamente vestida com seu uniforme de gala, como se cada integrante carregasse no peito a solenidade do momento.

Finalmente as cortinas se abriram e o silêncio reinou na plateia embevecida e atenta, desejosa de ouvir o violino do maestro pernambucano.

Do camarote onde se encontravam Castorina Pinto e suas amigas, tinha-se uma visão privilegiada de todo o palco, iluminado por uma forte luz que se dirigia diretamente ao maestro e ao seu valoroso e afinado violino.

A cada nota mais aguda, o maestro se punha na ponta dos pés, como se quisesse alçar voo, e seu bigode se encrespava ao ponto de parecer misturar-se às finas cordas do violino. Era um sopro a cada compasso, uma elevação a cada suspiro, uma dessas noitadas que fazem esquecer algo da aspereza da vida.

Castorina, porém, insensível e malograda em suas expectativas, imaginara para aquela festa da luz uma atração exuberante, bombástica, à altura do acontecimento. Esperava o concerto de um cantor lírico, um barítono ou mesmo um tenor. Num muxoxo, sussurrou às amigas:

— Estou esperando o CARAPANÃ DE BIGODE voar...

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Antero Pereira Filho

ANTERO PEREIRA FILHO, nasceu em Aracati-CE em 30 de novembro de 1946. Terceiro filho do casal Antero Pereira da Silva e Maria Bezerra da Silva, Antero cresceu na Terra dos Bons Ventos, onde foi alfabetizado pela professora Dona Preta, uma querida amiga da família. Estudou no Grupo Escolar Barão de Aracati até 1957 e, a partir de 1958, no Colégio Marista de Aracati, onde concluiu o Curso Ginasial.
Em 1974, Antero casou-se com Maria do Carmo Praça Pereira e juntos tiveram três filhos: Janaina Praça Pereira, Armando Pinto Praça Neto e Juliana Praça Pereira. Graduou-se em Ciências Econômicas pela URRN-RN em 1976 e desde então tem se destacado em sua carreira profissional.
Antero atuou como presidente do Instituto do Museu Jaguaribano em duas gestões (1976-1979/1982-1985) e foi secretário na gestão do prefeito Abelardo Gurgel Costa Lima Filho (1992-1996), responsável pela Secretaria de Indústria, Comércio, Turismo e Cultura.
Além de sua carreira profissional, Antero é conhecido por seus estudos sobre a história e a memória da cidade e do povo aracatiense, amplamente divulgados em crônicas e artigos publicados na imprensa local desde 1975. Em 2005, sua crônica "O Amor do Palhaço" foi adaptada para o cinema em um curta-metragem (15") com direção de seu filho, Armando Praça Neto.

Obra

Assim me Contaram. (1ª Edição 1996 e 2ª Edição 2015)
Histórias de Assombração do Aracati. Publicação do autor. (1ª Edição 2006 e 2ª Edição 2016)
Ponte Presidente Juscelino Kubitschek. (2009)
A Maçonaria em Aracati (1920-1949). (2010)
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