Apesar de apresentar uma figura bisonha, magro de dar dó, bigode espesso e estatura diminuta, destacava-se com brilho incomum ao executar no stradivarius peças carregadas de emotivos sentimentos.
Viera recomendado pelo rico comerciante Antonio Rodrigues Figueiredo para abrilhantar a grande festa de inauguração da luz elétrica do teatro, que, embora iluminado por lâmpadas de grande força, ainda carecia, como se dizia então, daquele realce que outrora lhe davam as suas múltiplas lâmpadas de acetileno.
E assim, naquela noite de luz e festa, o teatro se encontrava lotado, seus camarotes repletos de elegantes senhoras e gentis senhorinhas, entre as quais se destacavam as beldades da finesse de nossa sociedade: Edith Pinto, Pandeciana, Gertrudes, Helia Gurgel e Castorina Pinto.
Antes que a atração principal se apresentasse, sucediam-se no palco grupos de amadores aracatienses representados pelas agremiações Grupo Thaliense e Recreio Dramático, todos sempre muito aplaudidos, como convinha à boa etiqueta da plateia.
A entrada do astro da noite foi antecedida pela execução de um belíssimo dobrado, oferecido pela banda de músicos Filarmônica Figueiredo, ricamente vestida com seu uniforme de gala, como se cada integrante carregasse no peito a solenidade do momento.
Finalmente as cortinas se abriram e o silêncio reinou na plateia embevecida e atenta, desejosa de ouvir o violino do maestro pernambucano.
Do camarote onde se encontravam Castorina Pinto e suas amigas, tinha-se uma visão privilegiada de todo o palco, iluminado por uma forte luz que se dirigia diretamente ao maestro e ao seu valoroso e afinado violino.
A cada nota mais aguda, o maestro se punha na ponta dos pés, como se quisesse alçar voo, e seu bigode se encrespava ao ponto de parecer misturar-se às finas cordas do violino. Era um sopro a cada compasso, uma elevação a cada suspiro, uma dessas noitadas que fazem esquecer algo da aspereza da vida.
Castorina, porém, insensível e malograda em suas expectativas, imaginara para aquela festa da luz uma atração exuberante, bombástica, à altura do acontecimento. Esperava o concerto de um cantor lírico, um barítono ou mesmo um tenor. Num muxoxo, sussurrou às amigas:
— Estou esperando o CARAPANÃ DE BIGODE voar...
