O horizonte que tenho em vista é de uma terra cortada por um rio gigante, com seus muitos braços, correndo desde suas serras e planaltos, até as regiões mais baixas de uma planície em que sua foz se escancara ao mar azul. No inverno, seu leito fica cheio, seus entornos reverdecem e a natureza canta hinos de louvor à vida. Passadas as chuvas, contudo, sua força esmorece e seus braços ficam raquíticos... Em alguns pontos, o rio desaparece, deixando apenas poços barrentos e rastros na areia. Mas a existência é teimosa no sertão abençoado pelo Jaguaribe: não importa quão longo se revele o estio, nos troncos firmes das carnaubeiras, nas folhas viçosas dos juazeiros, muitos sertanejos encontram os símbolos de sua tenaz perseverança.
Trata disso o poema inesquecível que escreveu e publicou em 1929 o jornalista Demócrito Rocha (1968), o qual tomo a liberdade de citar de forma integral aqui:
O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta
por onde escorre
e se perde
o sangue do Ceará.
O mar não se tinge de vermelho
porque o sangue do Ceará
é azul...
Todo o plasma
toda essa hemoglobina
na sístole dos invernos
vai perder-se no mar.
Há milênios... desde que se rompeu a túnica
das rochas na explosão dos cataclismos
ou na erosão secular do calcário
do gnaisse do quartzo da sílica natural ...
E a ruptura dos aneurismas dos açudes...
Quanto tempo perdido!
E o pobre doente — o Ceará — anemiado,
esquelético, pedinte e desnutrido —
a vasta rede capilar a queimar-se na soalheira —
é o gigante com a artéria aberta
resistindo e morrendo
resistindo e morrendo
resistindo e morrendo
morrendo e resistindo...
(Foi a espada de um Deus que te feriu
a carótida
a ti — Fênix do Brasil.)
E o teu cérebro ainda pensa
e o teu coração ainda pulsa
e o teu pulmão ainda respira
e o teu braço ainda constrói
e o teu pé ainda emigra
e ainda povoa.
As células mirradas do Ceará
quando o céu lhe dá a injeção de soro
dos aguaceiros —
as células mirradas do Ceará
intumescem o protoplasma
(como os seus capulhos de algodão)
e nucleiam-se de verde
— é a cromatina dos roçados no sertão...
(Ah, se ele alcançasse um coágulo de rocha!)
E o sangue a correr pela artéria do rio Jaguaribe...
o sangue a correr
mal que é chegado aos ventrículos das nascentes ...
o sangue a correr e ninguém o estanca...
Homens da pátria — ouvi:
— Salvai o Ceará!
Quem é o presidente da República?
Depressa
uma pinça hemostática em Orós!
Homens —
o Ceará está morrendo, está
esvaindo-se em sangue...
Ninguém o escuta, ninguém o escuta
e o gigante dobra a cabeça sobre o peito
enorme,
e o gigante curva os joelhos no pó
da terra calcinada,
e
— nos últimos arrancos — vai
morrendo e resistindo...
morrendo e resistindo...
morrendo e resistindo...
Em seu magnífico ritmo, entre ancestral e moderno, esses versos cantam com pungência a tensão dialética que marca o horizonte jaguaribano. Em seus ciclos naturais de chuva e seca, tornados muitas vezes mais mortíferos pela ação humana, esse rio se esparrama como um oxímoro: suas águas primordiais engendram vida, mas suas cheias acarretam muitas mortes; suas várzeas são sempre férteis, mas suas secas provocam ruína e destruição.
A realidade do Jaguaribe criou uma literatura própria. O leitor pode encontrá-la em muitos livros publicados hoje, mas ela remonta às mais antigas crônicas acerca da colonização dessa região. Relatos colhidos e organizados por historiadores como João Brígido (1969) e Raimundo Girão (1986), por exemplo, registram com detalhes as especificidades de experiências vividas às margens desse rio. Suas palavras narram as ações dos colonizadores brancos ¾ com seus sonhos e ilusões, suas dores e conquistas ¾, ao preço do sangue de milhares de pessoas. Nas entrelinhas desses relatos, precisamos dar voz ao silêncio e ouvir também as histórias de muitas civilizações indígenas que habitavam esse território há milênios: Tapuias, Canindés, Icós, Janduins, Cariris, Cariús e Jucás. Massacrados por uma política colonial atroz, esses povos estão na base da geografia humana, forjada a ferro e fogo, sob o nome de Vale do Jaguaribe.
A literatura jaguaribana traz a memória desse sangue. Ela brota em meio àqueles que nasceram e viveram nessa região, encontrando nela sua linguagem, seus cenários, seus personagens, seus enredos. Ela floresce na troca entre autores e leitores que refletem sobre suas próprias experiências, criando uma rede de representações culturais reveladoras do modo como o ser humano habita esse espaço, compartilhado com outros animais e plantas. Em conformidade com os critérios que tenho aplicado na defesa de uma literatura altiva, afirmadora de suas singularidades regionais (Silva, 2024a, p. 74-5), apresento aqui algumas ideias para delinear o vasto panorama dessa produção literária do “rio das onças” (segundo a etimologia da língua tupi).
Sem entrar em nomes do período colonial, ou mesmo da época do Império, podemos propor que esse passeio comece com a obra de uma aracatiense, nascida no distrito que hoje se encontra no município de Jaguaruana, a inigualável Emília Freitas (1855-1908). Em poema intitulado, “O pau d’arco”, a autora proclama (Freitas, 1891, p. 154):
Do Jaguaribe, às margens, vê-se uma árvore,
Que se veste de flores cor d’aurora;
Mas em breve ela perde o róseo manto
Se o inverno propício vai-se embora.
Fica o vento açoitando os ramos secos,
Onde o mocho, nas noites de verão,
No silêncio das trevas, solta um pio,
Que entristece e penetra o coração.
Quando volta o festivo soberano,
P’ra os umbrosos domínios visitar,
Da rainha do campo, a fronte altiva
Com mais graça e primor torna a enfeitar.
Aqui, poderíamos citar ainda os poemas germinados por lembranças da infância da autora, como “A Vila da União”, “Um retrato” e outros tantos dedicados a pessoas de seu núcleo familiar (Freitas, 1891, p. 65; p. 91). A bem da verdade, seu romance psicológico, intitulado A Rainha do Ignoto, pode ser lido como uma projeção fantástica de vivências ancoradas na realidade jaguaribana que ela tão bem conheceu e descreveu:
Maio, o belo mês das flores já ia em meio e, nas suas tardes serenas e tépidas, as andorinhas, estas mensageiras do fim do inverno, cortavam os ares e, chilreando, procuravam os ninhos nos velhos muros, nas janelas e cimalhas das casas. (Freitas, 1899, p. 29).
O mesmo pode ser dito sobre tantos poemas escritos por uma contemporânea sua, Francisca Clotilde (1862-1935), nascida em Tauá, mas moradora de Aracati por cerca de três décadas (na fase final de sua vida). Sua produção poética oferece o testemunho de uma verdadeira epifania perante os céus claros do litoral leste cearense, com quadros de rara beleza, como este intitulado “O alvorecer” (Clotilde, 1909, p. 150):
Vai pouco a pouco o sol iluminando
À terra que se cobre de verdores,
Cantam as aves pelo azul voando
Seus inocentes, cândidos amores.
Por toda a parte luzes e primores
Sente-se o aroma delicado e branco
De fresca rosa, as pétalas soltando
A natureza ostenta-se em fulgores.
Mais perto de nós, temos os versos magníficos de outros tantos poetas: Beni Carvalho (1886-1959) e Raimundo Herculano de Moura (1914-2007), ambos nascidos em Aracati; Francisco Carvalho (1927-2013), nascido em Russas; ou ainda Luciano Maia (1949-), natural de Limoeiro do Norte. Escrito por este último, o livro Jaguaribe: memória das águas (orig. 1982) revela-se uma epopeia de louvor ao rio, reconhecido pelo autor como fonte inconteste de sua poesia. No texto que encerra a obra, “O país do Jaguaribe”, ele manifesta-se em versos que unem uma profunda compreensão histórica com justas reivindicações sociais (Maia, 2005, p. 106):
Ó velho Jaguaribe de outras datas
berço do nosso sono intermitente!
Quantas pedras, de lágrimas untadas,
carregas, taciturno na corrente...
Ó velho sabedor das ermas fontes
que nos prometem chuvas, pelas asas
de aves andejas, águas retirantes
que não pernoitam nunca em nossas casas.
[...]
Ó rio, nosso avô, mão tutelar,
faz tombarem mil nuvens sobre as serras
vingando a deserança dos sem-lar
humilhados escravos noutras terras.
Canta, anima e rebela, ó velho rio,
a gente que deixar-te nunca quis!
E os que te fazem leito e lavradio
sejam senhores deste teu país!
Entre poetas contemporâneos, atuantes de forma significativa no âmbito da literatura jaguaribana, cumpre destacar ainda Dideus Sales, Rogaciano Lopes, Luiz Gonzaga Maia, Marciano Ponciano, Dércio Braúna, Kenia Diógenes, Washington Lopes, Neli Félix, Larissa Monteiro Ribeiro, Júlia Mendes etc. Mais reflexões críticas sobre essa poesia contemporânea, na linha de um trabalho como aquele inaugurado por Hildeberto Barbosa Filho (2004), certamente podem contribuir para tornar ainda mais robusto o curso desse rico manancial.
O mesmo pode ser afirmado sobre a produção literária jaguaribana em prosa, seja ela em escritos ficcionais, memorialísticos ou acadêmicos. Exemplos insignes desse trabalho no passado não faltam, sobretudo em termos de ficção, como a já mencionada Emília Freitas, ou ainda o curioso caso de Franklin Távora (1842-1888), com o romance intitulado Os índios do Jaguaribe (orig. 1865). Nessas obras oitocentistas, encontramos representações ficcionais da realidade espacial (geográfica) e temporal (histórica) da ocupação humana dessa bacia hídrica, com caracterizações destinadas a serem retomadas futuramente em outras obras da literatura jaguaribana.
Entre ficcionistas contemporâneos, gostaria de mencionar alguns nomes, começando por dois autores naturais de Aracati: Agamenon Viana e Valdy Ferreira de Menezes. Enquanto o primeiro debutou com um livro que pode ser considerado o representante por excelência dessa literatura, intitulado justamente Aventura jaguaribana num ano de estio (2017), o segundo faz de sua cidade natal seu principal cenário, com descrições pitorescas da região em que se desenrolam seus enredos:
Lá na curva do rio, antes dele se alargar e desaguar no mar, o viçoso manguezal divide as águas, criando um canal entre a vegetação. A correnteza desaparece, as águas suavemente penetram no estreito e tortuoso braço de rio, e calmamente pode-se observar as árvores com as raízes, feito garras, espetadas na lama preta de odor desagradável. Nos poros da terra negra, pastosa, milhões de seres entram e saem em busca de comida. Por um descuido, o destino se inverte, e servem de alimento a outras vidas. (Menezes, 2016, p. 13).
Vida e morte, morte e vida. A foz do Jaguaribe, com seus mangues ¾ fétidos e férteis ¾, dá o tom inicial deste romance de mistério, investigação e aventura. Refiro-me aqui ao thriller histórico chamado de Cartas do destino (Menezes, 2016).
Cumpre mencionar ainda Stênio Gardel, nascido em Limoeiro do Norte, e autor de um romance de sucesso no horizonte literário brasileiro: A palavra que resta (2021). O livro abre com uma sequência impactante em que Raimundo Gaudêncio e Cícero, dois jovens de um interior sertanejo do Ceará, apaixonam-se, mas são obrigados a se afastar por conta do preconceito reinante em seu contexto familiar conservador e patriarcal. Após a dolorosa separação, o que os une é apenas uma carta escrita por Cícero. Contudo, jaz exatamente aí o drama central do enredo: Gaudêncio é analfabeto e, como precisa cair no mundo para ganhar a vida, nunca chega a ter condições de estudar e se alfabetizar.
Essa história aborda com delicadeza temas profundos, como memória, amor e identidade, entre o sertão jaguaribano e os grandes centros metropolitanos, em contextos de pobreza e violência. A escrita de Gardel desdobra-se de forma sensível, fraturada, atenta à potência do não-dito e à construção sugestiva do enredo e dos personagens. Resulta daí uma obra veloz, direta, mas muito potente. A palavra que resta não é muita, mas é muito. Muito mesmo.
A prosa jaguaribana também conta com trabalhos no campo das memórias. Destaco o nome de Antero Pereira Filho, cujas obras têm recebido uma justa atenção em estudos literários recentes, interessados em abordar seu projeto de unir realidade e fantasia por meio de uma fabulação ancorada em registros históricos (Silva, 2024b; Araújo, 2025). Nas obras desse autor, os devaneios da memória se orientam por um trabalho de arquivo e pela sensibilidade do historiador. Nessa mesma linha, cumpre mencionar ainda autores de memórias e colecionadores de relatos populares que têm contribuído com a literatura jaguaribana, em especial Leônidas Cavalcante Fernandes, Lauro de Oliveira Lima, José Correia da Silva, Maria do Socorro Aguiar, Maria do Socorro de Matos etc.
Muitos desses mesmos autores também escrevem relatos curtos ¾ com diferentes graus de ficcionalização em cada caso ¾, enriquecendo ainda mais o acervo literário jaguaribano, com seus contos e crônicas. A lista dos que se dedicam a essa forma breve de expressão da palavra inclui nomes como os de Eugênio Leandro, Lucio Telmo, José Nilton Fernandes, Lucas Brito, Eloi Marques Júnior e André Luís. Cada um a seu modo, todos oferecem vislumbres literários de vidas transcorridas às margens dessas águas.
Para encerrar, destaco ainda alguns trabalhos acadêmicos que podem orientar uma reflexão sobre o que tenho entendido aqui como o Jaguaribe literário. Em primeiro lugar, os livros escritos por Fernanda Kécia de Almeida: O imaginário popular jaguaribano (2013) e Nosso nome, nossa história: Léxico e cultura do Vale do Jaguaribe do Século XVIII (2025). Esses títulos oferecem subsídio para quem queira pensar nas longas linhas de continuidade histórica da cultura jaguaribana, em termos de língua e imaginário. Outros estudiosos que abordam questões igualmente promissoras, não apenas no campo das letras, mas também da geografia, da história e outros conexos, incluem: Karuna Sindhu de Paula (2011), Gabriel Parente Nogueira (2017), Anderson Camargo Rodrigues Brito (2023) e Debora Raquel Cavalcante Figueiredo (2025). Apoiar-se em estudos dessa natureza é uma estratégia produtiva tanto para autores que queiram contribuir com a produção literária da região, quanto para estudiosos que busquem fundamentar suas interpretações de obras dessa literatura.
O esplendor do material apresentado aqui é somente uma pequena amostra do que aguarda quem tiver coragem para percorrer as veredas ora apontadas. O Vale do Jaguaribe esconde riquezas e mistérios ancestrais, mas só os revela à custa de muitas aventuras e perigos. O mesmo pode ser dito acerca de sua literatura: conquista a recompensa do saber jaguaribano apenas quem se lança ao desafio da leitura.
Os dados estão lançados... Boa travessia!
Referências
Almeida, Fernanda Kécia de. O imaginário popular jaguaribano. Rio de Janeiro: Câmara brasileira de jovens escritores, 2013.
Almeida, Fernanda Kécia de. Nosso nome, nossa história: Léxico e cultura do Vale do Jaguaribe do Século XVIII. São Carlos: Pedro & João Editores, 2025.
Araujo, Cristiano Santos. Sombras e assombrações nos becos da memória do Aracati: Considerações tempestivas da arte literária-numinosa de Antero Pereira Filho. Revista Caminhos - Revista de Ciências da Religião, v. 23, n. 2, 2025, p. 1-10.
Barbosa Filho, Hildeberto. Letras cearenses. Fortaleza: Acauã, 2004.
Brígido, João. Meia crônica do Jaguaribe. In: Carvalho, Jáder de. Antologia de João Brígido. Fortaleza: Editora Terra de Sol, 1969, p. 422-34.
Clotilde, Francisca. “O alvorecer” (1909). In: Castro, Carla (org.). Estrela fatal: Antologia poética de Francisca Clotilde. Fortaleza: Gráfica LCR, 2024, p. 150.
Figueiredo, Debora Raquel Cavalcante. Rio Jaguaribe: De belezas, memórias e vivências. Dissertação (Geografia). Universidade Federal do Ceará. Fortaleza. 2025.
Freitas, Emília. A Rainha do Ignoto: Romance psychológico. Fortaleza: Typ. Universal, 1899.
Freitas, Emília. Canções do lar. Fortaleza: Typ. Universal, 1891.
Gardel, Stênio. A palavra que resta. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
Girão, Raimundo. A marcha do povoamento do Vale do Jaguaribe (1600-1700). Fortaleza: s. ed., 1986.
Maia, Luciano. Jaguaribe: Memória das águas. São Paulo: Escrituras Editora, 2005.
Menezes, Valdy. Cartas do destino. Fortaleza: Premius, 2016.
Nogueira, Gabriel Parente. Viver à lei da nobreza: Elites locais e o processo de nobilitação na capitania do Siará Grande 91748-1804). Curitiba: Appris, 2017.
Paula, Karuna Sindhu de. Travessia por “terceira margens” de um rio: Natureza e cultura no rio Jaguaribe-CE. Dissertação (História). Universidade Federal de Pernambuco. Recife. 2011.
Rocha, Demócrito. “O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta” (1929). In: Sarasate, Paulo. “O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta”. Rio de Janeiro; São Paulo: Livraria Freitas Bastos, 1968, p. 114-6.
Silva, Rafael Guimarães Tavares da. Civilização cacaueira, entre a fundação e os discursos de crítica: Panorama da produção literária sul-baiana no século XX. O eixo e a roda, v. 33, n. 2, p. 73-88, 2024a.
Silva, Rafael Guimarães Tavares da. Entre história e ficção, os bons ventos da memória: reflexões sobre a obra de Antero Pereira Filho. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n. 74, 2024b, p. 1-15.
Viana, Agamenon. Aventura jaguaribana, num ano de estio: Pescaria, teatro, sarau, crenças, curiosidades enxadrísticas, ideias e insanidades de moradores do interior cearense. Fortaleza: Tiprogresso, 2017.
