Bael Chapeleta casou muito novo e logo a casa se encheu de meninos. A hora de maior trabalho era agasalhar todas as crianças no momento de dormir. Naquele tempo não havia energia elétrica em Aracati; a iluminação das casas se fazia com lamparina e farol.

Uma certa noite, a mulher de Bael reuniu a meninada toda para dormir; contudo, a criançada, assustada com uma história que havia escutado, não conseguia dormir com medo de assombração.

— Bael, os meninos tão com medo de alma, de assombração. — Deixa que eu vou cantar pra eles e num instante eles dorme...

O quarto, mal iluminado por um farol, dava medo realmente e, mais tenebroso ainda ficou quando entrou Bael pela porta, afastando as redes dos meninos e conduzindo uma lamparina nas mãos.

— Tão com medo de quê? Vou cantar pra vocês uma moda. “Era uma certa vez um lago mal-assombrado; à noite sempre chovia e a Carimbamba cantava triste... amanhã eu vouuuu... amanhã eu vouuuu”...

Correram do quarto a mulher e os meninos, deixando Bael entoando sua assombrosa cantiga de ninar.

 

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PEREIRA FILHO, Antero. Assim me contaram. — Fortaleza: 2015. p. 20.