A igreja matriz do Aracati denomina-se igreja de Nossa Senhora do Rosário. Não vamos falar dela, mas da igreja de N. Sra. do Rosário dos Pretos, atualmente conhecida por Igreja do Rosário, situada na Rua Cel. Pompeu, também conhecida por Rua do Rosário.

São Domingos, que viveu no século XIII, teve uma visão de Nossa Senhora pedindo que ajudasse na libertação dos povos escravizados por muçulmanos, especialmente os negros da África, e que a arma mais poderosa que poderiam usar, seria rezar o rosário com fervor! Na época, os religiosos fizeram, uma belíssima campanha para a recitação do Rosário dos Pretos e um bispo português erigiu um templo, batizando-o de igreja de N. Sra. do Rosário dos Pretos.

O papa Urbano IV (1261-1264), aprovou a ideia e até recomendou que fossem construídos templos com aquele nome, destinados às pessoas de cor.

Logo apareceram nos diversos países, igrejas com o nome igreja N. Sra. do Rosário dos Pretos, e sempre ficavam próximas a uma qualquer outra já construída. Assim aconteceu no Aracati, que fica bem próximo à igreja do Senhor do Bonfim.

Hoje, a mais antiga igreja de Fortaleza é a igreja de N. Sra. do Rosário dos Pretos, que foi construída próximo à Sé, que demoliram para construírem a atual Catedral Metropolitana. A igreja dos Pretos de Fortaleza, também é por todos conhecida apenas por igreja do Rosário, localizada na praça General Tibúrcio, que o povo chama praça dos Leões.

A do Aracati, foi levantada no século XIX, numa rua que, na época, tinha pouquíssimas casas. Sua construção só foi possível porque pessoas da classe média formaram uma entidade visando angariar fundos para tal. Entregaram uma bela Igreja, contudo é a mais simples em ornamentos. Ainda hoje.

Assim, quem tinha escravos ou empregados pretos, encaminhava-os à nova igreja para assistir aos ofícios religiosos.

Daí em diante os pretos puderam participar das missas em paz e sem o natural constrangimento que sentiam em presença dos brancos. Logo, os mulatos e os brancos mais pobres estavam frequentando a “sua igreja”. Sentiam-se mais à vontade, por estarem fora da vista daqueles que idolatravam a riqueza e desprezavam os humildes. Ali, estavam afastados daqueles que sempre mandaram e achavam que tinham direito de gozar a vida voluptuosamente à custa de seus semelhantes. Dentro de “sua” igreja sentiam uma ilusória sensação de liberdade.

Desde criança, o preto viu no homem branco aquele que sempre mandou e ele, preto e pobre, o que sempre obedeceu. Raramente, um endinheirado tratava uma pessoa de cor escura com justiça. Normalmente se julgava “superior” e o trabalho físico, que o fizesse suar, indigno!

Os pretos jamais suspeitaram que, mesmo dentro de “sua” igreja, eram conduzidos segundo o desejo dos brancos, pois os padres eram brancos, com a mesma mentalidade preconceituosa da época, e davam sábios conselhos tais como: “A justiça de Deus tarda, mas não falta” e “É preciso conformar-se com a vontade de Deus” e outros.

A partir da libertação dos escravos e da Proclamação da República, a mentalidade do povo foi mudando, embora lentamente, o que fez com que os brancos passassem a frequentar, também, aquela igreja destinada aos pretos.

Também contribuiu para que ocorresse tal mudança foi o fato de haverem construído muitas casas na rua da igreja em tela, onde foram morar os brancos de classe social mais elevada e a chamassem de apenas “igreja do Rosário”.

Até o papado de João XXIII, os seminários eram resistentes à entrada de alunos negros. Foi este sábio e Santo Papa quem abriu as portas e estimulou a entrada de alunos de cor no Curso de Teologia. Hoje, temos muitos bispos, arcebispos e cardeais negros.

 

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FERNANDES, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Rio-São Paulo - Fortaleza: ABC Editora, 2006. p. 124-126.