A cidade do Aracati possuía boas tipografias que, dentre outros trabalhos, imprimiam o jornal que circulava aos domingos e outros mensais. Meu pai, que trabalhou numa delas, disse-me que recebiam notícias “fresquinhas”, ainda “quentes”, por cartas e/ou telegramas de Fortaleza, do Sul do País e até do Exterior.

Agora façam ideia, depois de lerem o que vai abaixo relatado, com que dificuldades de comunicação vivia o aracatiense de então. 

Até o ano de 1961, quando retornei à Fortaleza, o prédio dos Correios e Telégrafos – hoje Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – ECT, que usa fax, computador etc. – ocupava um prédio no começo da Rua Cel. Alexanzito. Era a primeira edificação daquela rua. Ressalte-se que se trata de fato ocorrido em 1961, quatro anos depois de o Sputnik russo cantar bip-bip sobre o planeta Terra.

Para o telégrafo funcionar, era necessário eletricidade de corrente contínua. Ora, nem contínua e nem alternada havia durante o dia no Aracati. Apenas existia um motor a diesel, que funcionava das 18 às 23 horas, fornecendo energia para iluminar a cidade.

Ainda bem que o Telégrafo tinha sua própria fonte de energia contínua, que permitia telegrafar, utilizando um só fio, cuja posteação ia até Beberibe, de onde o telegrama era retransmitido para Fortaleza pelo mesmo método e com a mesma dificuldade.

A fonte de energia própria possuía sua alta tecnologia. Do balcão de atendimento dava para ver uma estante de madeira muito grande e robusta, com duas ou três prateleiras, onde se enfileiravam 50 frascos grandes, de vidro, de boca larga, com tampa. Cada frasco continha cerca de 10 a 15 litros d’água destilada e, presas à tampa, duas barras isoladas uma da outra: uma barra de zinco puro e uma de cobre. Ambas mergulhavam na água. Existia também um saco de uma malha do tipo filó, cheia de buraquinhos, contendo pedras azuis de sulfato de cobre, iguais àquelas usadas em piscina. O saco com as pedras ficava igualmente imerso na água e o sulfato ia-se derretendo lentamente, deixando azul parte da água. Assim, o sulfato reagia com o zinco e produzia uma corrente elétrica contínua de um volt e boa amperagem.

A eficácia dessa reação já fora comprovada há mais de 150 anos na Europa e continuava dando certo nos Correios do Brasil... Com os três elementos imersos na água de cada um dos frascos e com suas tampas, todas as 50, ligadas em série, no final da ligação havia uma corrente contínua de 50 volts, que era a corrente necessária para o telefone funcionar.

Também o telefone daquele telégrafo tinha sua tecnologia de ponta, talvez até utilizada nos programas espaciais: uma boa e robusta manivela, com a qual o funcionário local, girando rápido, fazia disparar uma campainha em Beberibe, ao que o funcionário de lá atendia com um alto grito de “Alô! Alô!”. O do Aracati também gritava a plenos pulmões: “Tá me ouvindo bem?” Se confirmado, passava a ler o telegrama na base do grito, palavra por palavra, e algumas delas repetidas mais de uma vez. Não interessava se todos no quarteirão ouviam a mensagem. O importante era conseguir a transmissão.

Ainda hoje tenho a impressão que construíram o Telégrafo na ponta da rua a fim de preservar o sigilo da mensagem do cliente, pois somente a vizinhança mais próxima ouviria...

Um antigo funcionário dos Correios, Sr. José Pedro, disse-me que o telégrafo do Aracati era considerado moderno por ser de telefone, enquanto em quase todo o Interior do Estado era utilizado o aparelho Morse, como o que ele usava em Chaval.

Isso em pleno ano de 1961, com o homem tentando chegar à Lua!

 

________________________________

FERNANDES, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Rio-São Paulo - Fortaleza: ABC Editora, 2006. p. 210-212.