Os rios sempre representaram, na vida dos povos e das civilizações, papel importantíssimo. Em todos os tempos, eles influíram preponderantemente nos fastos da humanidade.

A história nos atesta que todas as civilizações tiveram berço às margens dos rios. Os primeiros agregados humanos, quer da civilização egípcia, babilônica, grega ou romana, surgiram sempre, como que obedecendo a uma lei intangível e oculta, às margens dos rios cantantes e providenciais, que lhes beijavam carinhosamente os pés. 

Não fugiu à colonização do Ceará às imposições do determinismo dessa lei, que, através dos tempos e da história, vem presidindo o alvorecer de qualquer aglomerado humano.

Théberge, falando sobre a colonização do Ceará, afirma: “Essa penetração para o centro sempre se fazia seguindo o curso dos rios.”

“O Jaguaribe e o Acaraú foram os que se prestaram primeiramente a estas povoações”. [1]

Antes da guerra holandesa, a colonização do Ceará processava-se morosamente. Somente alguns fazendeiros se tinham estabelecido às margens do Jaguaribe, da sua foz até S. João, no Pajeú e no vale do Acaraú.

A invasão dos batavos foi um acicate poderoso da colonização cearense.

“Pelo vale do Jaguaribe, fugindo às perturbações da guerra holandesa, ascendera, no curso dela, uma população de criadores, vindo de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, ao passo que, impulsionados dos mesmos motivos, descia uma outra de baianos pelo Sul, que, partindo das margens do São Francisco, vinham em direção do litoral, fundando estabelecimentos de lavoura e criação de gado”. [2]

“Os rios foram os caminhos que seguiram, e a passagem se efetua nos pontos de depressão da cordilheira que separa o Ceará do Rio Grande do Norte, da Paraíba e de Pernambuco”.[3]

E esses colonos audazes, destemidos visionários em busca do velocino ideal da felicidade, fugindo da guerra e do seu séquito de vexames e horrores, partiram de diferentes pontos para devassar terras ignotas e selvagens, à procura de lugares onde pudessem levar uma vida feliz e sossegada.

Constituía verdadeira emigração esse deslocamento de famílias inteiras, com seus haveres, tangendo à sua frente manadas de gado, através de paragens inóspitas, levadas para diante pelo medo da guerra e de suas misérias.

E, nessa derrota fatigante e perigosa, sem roteiro predeterminado e fixo, a não ser o desejo de se estabelecer em terras aptas à criação, depois de vingarem os cimos da cordilheira, aos seus olhos admirados surgiram, como por encanto, numa visão paradisíaca, promissora e risonha, a acenar-lhes com os leques verdes de suas palmeiras heris, as planícies escampas e derramadas do “País do Jaguaribe”. Além, sinuoso, a brilhar em mil fulgurações irisadas, ao látego do sol causticante do Nordeste, estendia-se a fita argentina de um rio, a que os gentios chamavam Jaguaribe — rio do Jaguar.

Tinham palmilhado, porém, enormes dificuldades e arrostado inúmeros perigos. De dia, era a caminhada incerta pela mataria agreste e virgem, sob um sol inclemente. Perseguia-lhes o medo de um ataque dos indígenas desconfiados. De noite, era o rondar silencioso dos jaguares em torno do acampamento improvisado.

Do vale do Jaguaribe, os colonizadores se “irradiaram pelos sertões vizinhos, seguindo o Jaguaribe acima”. “Foi, pois, pelas margens do Jaguaribe que a população foi subindo e se fixando.[4]

Devido aos constantes vaivéns da corrente colonizadora, ao fluxo e refluxo dessa maré humana, que ora subia, rio acima, com os pernambucanos, paraibanos e riograndenses chegados pelo litoral, ora descia com os “baianos, vindos em procura do El-Dourado” e de terras para a criação, surgiu o povoado de São José do Porto dos Barcos do Jaguaribe, a três léguas aproximadamente do mar, e que, muitos anos mais tarde, seria chamado cidade de Nossa Senhora do Rosário de Aracati.

Em pouco tempo, São José do Porto dos Barcos tornou-se “um pequeno arraial de pescadores, homens do mar e vendilhões”, bem à beira do Jaguaribe. Compunha-se de algumas dezenas de casas, que se debruçavam sobre as águas do rio ou se espalhavam pela baixada, esparsas, perdidas entre a folhagem dos mangues farfalhantes.

De tempos em tempos, as águas do Jaguaribe cresciam, espraiavam-se pelas margens; então, o povoado, com as suas casas trepadas pelos cômoros, parecia um aldeamento lacustre das primeiras eras. Foi o estigma que marcou o destino de Aracati. Os seus primeiros filhos foram perseguidos pelo rio que lhes dava alimento.

Dia a dia, às pobres e desalinhadas moradas se juntavam outras. Já se esboçava o perfil das primeiras ruas e adivinhava-se a promessa risonha da futura cidade.

A criação do povoado foi toda espontânea. Isso se passava entre 1623 e 1654.

 

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LIMA, Abelardo Gurgel Costa. Terra Aracatiense. 2. ed. Fortaleza: Imprensa do Estado do Ceará – IOCE, 1979. p. 57-60

 



[1] THÉBERGE “Esboço Histórico sobre a P. do Ceará”, p. 87.

[2] Des. Araripe, apud de J. Catunda, “História do Ceará”, p. 107.

[3] J. Pompeu de A. Cavalcante, ob. cit. p. 273.

[4] THÉBERGE, op. cit., p. 87.