A permanência de Jacques Klein em Fortaleza não foi das mais longas. Entre 1939 e 1940, mudou-se novamente, desta feita para o Rio de Janeiro. De 1940 a 1943, prosseguiu seus estudos de piano no Conservatório Brasileiro de Música, com Dona Liddy Chiaffarelli Mignone, esposa do grande compositor brasileiro Francisco Mignone. Desta extraordinária professora, Jacques sempre guardou afetuosa memória e gratidão. "Eu gostava das aulas de Dona Liddy, que era ao mesmo tempo uma pessoa impaciente e doce", declarou certa vez à jornalista Maribel Portinari. Em outra ocasião referiu-se à sua querida Dona Liddy como "ótima professora e criatura humana admirável". 

Quando me fiz rapaz resolvi trocar a música clássica pela popular. (Jacques Klein)

Logo após sua chegada ao Rio, participou de um concurso de piano, promovido pelo Conservatório Brasileiro de Música, onde obteve o primeiro lugar. Mesmo sendo aluno regular do Colégio Santo Inácio, Jacques não deixava de estudar música com professores particulares, dentre os quais o cearense Aloísio de Alencar Pinto, Ofélia do Nascimento, Oscar Adler e Lúcia Branco. Lúcia, um dia, chegaria para Dona Gasparina e lhe diria: "não tenho mais nada a ensinar ao seu filho, ele já sabe mais do que eu". 

Sua passagem pelo Colégio Santo Inácio parece ter sido repleta de atividades pitorescas, pequenas diabruras.

Antes de tornar-se o enfant terrible do Santo Inácio, Jacques era visto por seus colegas, efetivamente, como o "queridinho" dos diretores. Isto se devia, naturalmente, ao fato de ser ele exímio pianista e se prestar a tocar no órgão do colégio. Ao se tornar o "organista-mor" do Santo Inácio, Jacques começou a gozar de certas regalias junto aos seus superiores o que nem sempre era do agrado ou aprovação dos seus colegas menos talentosos. Estes, porém, logo descobriram que não estavam na companhia de um dandy. Conta-se que certa feita Jacques tocou um boogie-woogie no majestoso órgão do mosteiro de São Bento, quando ali se assistia a uma missa.

Durante o recreio, ele e seus colegas costumavam pular o muro para jogar futebol na rua do lado. Um dos padres descobriu e contou ao diretor, que acumulava o cargo de reitor da instituição naquele momento (o titular encontrava-se em viagem). Jacques e os outros foram "convidados" a deixar o Santo Inácio. Quando o reitor retornou, logo desaprovou a atitude do seu colega. Foi pessoalmente à casa de cada um dos expulsos pedir aos pais desculpas pelo exagero da punição. Jacques, porém, já estava matriculado no Colégio Andrews. Anos depois, já pianista famoso, o mesmo reitor ofereceu-lhe uma festa no Santo Inácio, citando-o como "aluno exemplar".

No Andrews, em Botafogo, fez grandes amizades, tendo até organizado um grupinho de amantes da música clássica, que veio a se chamar La Chaconne.

Já entrando na adolescência, impulsionado pelos incontroláveis arroubos da juventude, Jacques perde o interesse pela música erudita e passa a dedicar-se a gêneros mais populares.

Segundo o relato de um de seus amigos mais íntimos, nesta fase Jacques "tornou-se um preguiçoso de marca menor; viciou-se em jazz, fazia caretas a Beethoven e franzia o nariz a Haydn". Acabou sendo expulso do Conservatório Brasileiro de Música, aos 13 anos de idade, por ser muito rebelde, fato que causou profundo desgosto a seu pai. Anos depois, arrependido pelas tristezas que se abateram sobre o velho Alberto, confessou que após sua morte, em 1947, não pode suportar, por muito tempo, ir a um concerto.

Assim, pendendo um pouco para o lado lúdico, tocava simplesmente pelo prazer de tocar.

Nessa época, os Guinle organizavam sessões de jazz em sua casa, as jam sessions, onde se reuniam, para tocar e ouvir os grandes amantes daquele gênero musical. Jacques, relembrando esta fase de sua vida quase boêmia de adolescente, afirmou: "quando me fiz rapaz resolvi trocar a música clássica pela popular. Tocava jam sessions na casa de Jorge Guinle, um grande amigo, e em festas. Formava um trio com Dinarte Rodrigues no violão e Breno Porto na bateria. Também compus em parceria com Dorival Caymmi e Carlinhos Guinle. Não Tem Solução e Sábado em Copacabana datam dessa fase". Admirava em especial os jazzistas Art Tatum, Ted Wilson, James P. Johnson, Fats Waller, Oscar Peterson e Erroll Garner.

Apresentava-se semanalmente com seu trio na Rádio Jornal do Brasil. Passou cinco anos e meio sem ir a um só concerto, sem ouvir uma única música clássica sequer, sempre tocando jazz em todos os momentos livres que tinha.

Tornou-se tão exímio na interpretação deste gênero musical que em 1949, ao visitar os Estados Unidos pela primeira vez, tocou para o legendário Art Tatum, tendo este se impressionado com o talento do jovem pianista brasileiro a ponto de convidá-lo permanecer em Nova York e ali tornar-se um pianista de jazz profissional, convite este gentilmente declinado.

O relato de José Alberto Gueiros deste interessante episódio guarda detalhes tais que, por ser insuperável, merece, apesar de longo, transcrição completa.

Certa noite [Jorginho Guinle e Jacques] foram bater no Café Society, um recanto de aficionados do jazz frequentado também por jovens da alta sociedade nova-iorquina que nesse tempo ainda não eram chamados de socialites. Um colunista social famoso da época, Cholly Knikerbocker, resolveu batizar de café-societies a esses rapazes bem nascidos que gostavam de se misturar com músicos e intelectuais para curtir a boemia. Assim inaugurou-se o termo café-society para designar os granfinos notívagos.

Pois nesta noite, no Café Society, que ficava numa rua vizinha da Time Square, onde os melhores espetáculos aconteciam, o pianista Art Tatum resolveu dar canja e tocar um pouco do seu piano mágico.

Empurram um 'crappeau' para o meio da pista e o negro genial passou a tirar sons divinos do teclado. Sons jamais ouvidos por qualquer mortal. Ao interpretar How High is the Moon, fez a platéia delirar. Ele era cego, mas seus dedos tinham luz. Fascinava o público, onde quer que se apresentasse.

No final da canja, Art Tatum foi convidado por Jorginho Guinle a sentar-se em sua mesa onde estava Jacques Klein em estado de pleno êxtase. Feitas as apresentações, todos orgulhosos de sua presença, Tatum sacou de um carimbinho especial para dar autógrafos. Sendo cego, ele carregava consigo uma pequena caixa com carimbo e almofada. O carimbo era sua assinatura. Assim dava autógrafos de maneira prática, sem sacrifícios.

Jorginho Guinle era amigo pessoal do dono do café e sugeriu-lhe, em segredo, que convidasse Jacques, ali presente, para também dar sua canja. Contou que este era um talentoso pianista brasileiro e certamente agradaria os frequentadores mais exigentes do Café Society. E qual não foi a surpresa de Jacques quando o alto-falante anunciou: 'Temos entre nós, esta noite, um excelente pianista brasileiro que vai nos oferecer um pouco de sua música.'

Jacques quase surtou. Por pouco não teve um enfarte. Imaginem um garoto inexperiente, recém-chegado do Brasil, diante de uma plateia ultrassofisticada de nova-iorquinos que acabavam de ouvir Art Tatum, um dos mais brilhantes pianistas de jazz de toda a América. Foi um custo obrigá-lo a aceitar o convite e levantar-se da mesa para dar seu recado. No último minuto, Jorginho Guinle soprou: 'Nada de tocar música americana, Jacques. Depois de Art Tatum seria suicídio. Mete lá um daqueles teus sambas incríveis. Ataca o Tico-Tico no Fubá.'

É preciso dizer que naqueles anos as músicas brasileiras que apaixonavam os americanos eram Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, e Tico Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu. A Garota de Ipanema ainda estava longe de nascer.

Aceitando a dica imediata, Jacques, tomado de uma coragem santa, levantou-se e enfrentou o teclado. Sua execução de Tico-Tico no Fubá foi tão formidável que fez a audiência pular e gritar. Jacques sabia tocar samba como se fosse jazz e, vez por outra, acrescentava aos arranjos genialmente improvisados alguns toques clássicos, como apogiaturas e arpejos jamais pressentidos. Foi um sucesso estrondoso. Todos correram para abraçar Jacques e o próprio Art Tatum sapecou-lhe beijos na bochecha. Havia repórteres presentes e, poucos dias depois, o Variety, jornal importante que tratava de acontecimentos musicais publicou manchete de primeira página com este teor: BRAZILIAN PIANIST SMACHES ART TATUM OUT OF HIS PIANO AT CAFÉ-SOCIETY – DEVILISH JACQUES KLEIN IS NEW HIT.

A sentença final do artigo de Gueiros pode assim ser traduzida: "Pianista brasileiro arrasa com Art Tatum no seu piano no Café Society – o endiabrado Jacques Klein é novo sucesso".

Na adolescência, Jacques também cogitou seriamente outra carreira. Estava decidido a deixar o piano para ser diplomata. Chegou a preparar-se para ingressar no Itamaraty, tomando aulas particulares em todas as matérias exigidas para o concurso. Fez vestibular em Direito na PUC e tirou o quinto lugar – matriculou-se, mas não iniciou o curso.

Foi nesse período que um episódio curioso e inusitado o trouxe de volta à música clássica. Aconteceu que certo dia Jacques assistiu ao filme Desencanto (Brief Encounter, de David Lean, 1945) cujo tema musical era o Segundo Concerto para Piano e Orquestra, de Rachmaninoff. Esse filme foi como que sua "Estrada de Damasco", isto é, sua salvação e retorno à realidade.

A música do filme não lhe saía da cabeça, assobiava-o o tempo todo. Decidiu então estudar o concerto a sério e logo desiste, definitivamente, tanto da música popular como da brevemente sonhada carreira diplomática. Jacqueline Klein relata que, em um verdadeiro ataque de fúria, jogou fora a papelada do concurso na véspera da prova e gritou para a mãe: "Quero ser pianista!". Dizem que em menos de 24 horas desfez-se de todos os seus discos de música popular que somavam centenas, para dedicar-se completamente à música clássica. Voltou a estudar arduamente com Lúcia Branco. "Foi por isso", conta o próprio Jacques, "que conservei sempre uma profunda ternura pela música de Rachmaninoff, embora reconheço tratar-se de um romântico tardio e de um compositor de segunda linha. É claro que ele não é um compositor comparável a Bach, Beethoven, Mozart ou Schubert, mas nem por isso deixa de ter um imenso valor. É um compositor muito sincero, que escreveu magnificamente para o piano, mas que jamais pretendeu ser mais do que isto. Li muito sobre ele e sei disto. Acontece que há muitos intelectualoides que acham que ele é menor, estas coisas assim. Ninguém afinal tem obrigação de pertencer àquele parnaso a que só alguns pertencem. Por isso até hoje faço exceção para Rachmaninoff, incluindo-o no meu repertório onde compositores menores não têm vez".

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BEZERRA, Agamenon. Jacques Klein. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2006. p. 23-34