Publicado em 1909 pelo jornal O Aracaty, o relato reconstrói a história do Fortim conectando fatos do século XIX — como a medição de terras em 1811 e memórias de 1830 — ao início do século XX, quando o ciclo das salinas e a nova capela (1906) impulsionavam o progresso local.
FORTIM
Não sabemos ao certo como se deu a fundação do Fortim, que fica a algumas milhas, barra adentro do rio Jaguaribe, mas é crível que os primeiros navegadores viessem de Pernambuco nas incursões de Jeronymo de Albuquerque.
Primeiramente, estabeleceram-se ao lado direito do rio, na entrada da barra, em lugar hoje completamente dominado pelas dunas, onde houve uma povoação da qual existem apenas como atestado da antiga habitação alguns coqueiros. Certamente aí se erigiu um pequeno forte.
O atual fortim está situado, ao que parece, na data de Vila Viçosa, à margem esquerda do rio. O Dr. Antonio Manuel Galvão, Ouvidor e Corregedor da comarca, por mandado que assinou em 2 de novembro de 1811, deu comissão ao juiz ordinário do Aracati, capitão José Monteiro de Sá, para fazer a medição e demarcação das terras dos sítios Vila-Viçosa e Jardim, este pertencente ao capitão Camello Vasconcellos e aquele ao capitão João Fernandes da Costa. A medição teve lugar de 20 a 26 de novembro de 1811, sob o rumo de leste a oeste.
Pela navegação franca do Jaguaribe até a cidade, do começo a meados do século passado, óbvio é que era de pouca importância o Fortim, porquanto os navios veleiros a princípio e depois alguns barcos a vapor vinham fundear no porto do José Alves e da Feira Velha.
Ouvimos, há pouco, de um ancião respeitável, digno de toda fé, octogenário, que pelas eras de 1830, mais ou menos, assistira à entrada do primeiro vapor vindo de Fortaleza — O Mamanguape.
Com a escassez dos invernos e consequente formação das dunas, principalmente à margem esquerda, o Jaguaribe foi se aterrando de modo que as embarcações de maior calado não mais chegaram à cidade, nem imediações.
O Dec. Imperial n.º 6662, de 2 de janeiro de 1871, habilitou a Mesa de Rendas do Aracati para os despachos de cabotagem, os de exportação e os de produção dentro ou fora do país.
Fez então, em 1872, no Fortim, o suíço Sr. George Jacob Brunchweiler, um trapiche[1] e um grande armazém que já não existem. Daquela época para cá o povoado tomou incremento.
As casas pertencentes hoje a Manuel Nogueira da Costa e Francisco Nascimento de Oliveira foram construídas de 1870 a 1872, e a que primitivamente foi de Horacio Francisco Ramos data de 1879; edificada de taipa, atualmente é uma magnífica vivenda, bem confortável, devida aos melhoramentos feitos pelo Dr. Lahmeyer.
O maior proprietário dos terrenos adjacentes, até o Farol, foi o comendador Carvalho, que, em 1857, levantou sobre um bloco de pedra reentrante no rio, em forma esférica — a que o vulgo denominou Chapéu —, uma casa bem-feita de tijolo e um sítio ou pomar para vilegiaturas[2].
Nesse prédio havia um oratório privado, concedido por faculdade do Bispo de Pernambuco, D. João da Purificação Marques Perdigão, e confirmado pelo 1.º Bispo do Ceará, Luiz Antonio dos Santos, Marquês do Monte Paschoal, o qual, em 1872, ali esteve por dois dias, tendo celebrado missa e administrado o crisma.
Por alguns anos os sacramentos só eram distribuídos com assistência do comendador Carvalho ou de sua esposa, conforme à concessão episcopal.
Pela festa do Natal havia missa campal, erguido o altar junto ao muro, lado do noroeste.
Mortos aqueles, cessou a celebração dos atos religiosos.
A exploração das salinas do Canoé, que demoram à barra do rio Pirangi, a 18 quilômetros, mais ou menos, do Fortim, deu grande desenvolvimento à povoação, cujo movimento foi animador durante os anos de trabalho.
Por esse tempo construíram-se muitas casas no percurso de um quilômetro em pequenas ruas paralelas ao rio, contendo atualmente 73, do Galpão ao Alto do Triunfo, das quais 13 são de telha, tijolo e taipa e 60 de palhas, contando 407 habitantes de ambos os sexos.
O Dr. Rodolpho F. Lahmeyer, abalizado e operoso engenheiro, arrendatário das salinas, daí fez a sede dos serviços, hoje pertencentes à Companhia Comércio e Navegação e constantes do seguinte: um galpão de tijolo e telha, oficinas e almoxarifado, uma calha montada em alicerces de pedra e cal, uma caixa d'água para abastecimento das locomotivas, um moinho de vento, um pequeno açude de pedra, cal e parte de cimento. Ele erigiu, em 1906, uma capelinha sob a invocação de N. S. do Amparo. É um templozinho alvadio e elegante, sito em uma bela colina, de forma arquitetônica moderna, medindo 87 palmos de fundo, por 37 de largura, ladrilhado a mosaico e coberto de telhas francesas, forrado o teto de madeira. A fachada tem três portas de entrada e em cima duas janelas grandes e duas pequenas, sendo as últimas dentro de uma arcada, nas quais serão colocados lindos vitrais representando a Família Sagrada, assim como nas doze claraboias das paredes laterais. Encima a alegre Ermida[3] uma torre esguia, na qual se acham dois sinos, sendo o maior fundido no Rio G. do Sul, insculpida[4] a efígie do orago[5].
O altar-mor com três nichos é feito de madeira, bem torneado e polido, assim como a escada em espiral que se eleva ao coro — pequena construção assoalhada e guarnecida de artística balaustrada.
As imagens já foram adquiridas no Rio de Janeiro, onde ainda se acham em poder da Excelentíssima esposa do Dr. Lahmeyer, iniciadora da obra, a qual dá esperanças de vir inaugurá-la até o fim do corrente ano.
Parte do local em que está edificada a capelinha já havia sido benzido em 1872 pelo Bispo D. Luiz.
O governo do Estado, por ato de começo do ano passado, transferiu para o Fortim a cadeira mista[6] de Caiçara, regida então pela inteligente professora D. Marianna Barros e atualmente pela graciosa, elegante e hábil normalista D. Argentina Façanha. A frequência é de 30 alunos, na média.
A população é laboriosa e ordeira, vivendo da agricultura e da pesca.
As terras são feracíssimas[7], produzindo tudo com exuberância.
Lamentável é a derrubada das matas, pois a vegetação tornou-se enfezada e pequena, devido ao machado que não cessa de abater as árvores para combustível, o que traz a terrível consequência do afrouxamento do solo arenoso que, cavado pelas marés, vai abatendo para dentro do rio, obstruindo o canal.
Nos anais do crime registra-se um hediondo, ocorrido na povoação em 1883. Raimundo de Souza Miranda, prático da barra, em estado de embriaguez, assassinou, em uma casa perto da de Francisco N. de Oliveira, uma sua amásia, que, em defesa, apresentando-lhe um filhinho, de que era pai o assassino, caiu esfaqueada, assim como a criança. Sendo o réu submetido a julgamento pelo Júri presidido pelo Dr. Manoel Coelho Cintra, este, considerando um só crime, condenou-o a 14 anos de prisão simples, grau médio do art. 193 do Cód. Crim. Faleceu na prisão.
(O Aracaty, nº de 21 e 27 de agosto de 1909).
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FORTIM. Revista Trimensal do Instituto do Ceará, Fortaleza, t. 24, ano 24, p. 168-171, 1910.
[1] Cais de madeira, um armazém portuário.
[2] Temporada de descanso ou férias que alguém passa fora da cidade, geralmente na praia ou no campo
[3] Pequena igreja ou capela,
[4] Gravada, entalhada ou inscrita em algum material.
[5] Significa o santo padroeiro a quem um templo, capela ou igreja é dedicado.
[6] Cadeira mista era uma unidade básica de ensino público primário (uma "cadeira de primeiras letras") designada para reunir meninos e meninas no mesmo espaço sob a responsabilidade de um único professor ou professora.
[7] Fecundo, fértil, produtivo.


