A vitória em Genebra lançou Jacques no circuito internacional: torna-se pianista profissional e passa a trabalhar com as orquestras mais famosas do mundo. Apresentava-se às plateias mais exigentes, mais cultas e mais sofisticadas.
Não por vaidade, mas por ser uma atitude em voga entre os pianistas, fez, em Londres, um seguro de suas mãos cujo prêmio era de cem mil dólares – isto já há cerca de cinquenta anos (se fosse atualizado para valores de hoje alcançaria vários milhões).
Percorreu toda a Europa e até partes da Ásia e da África. Seu nome rapidamente se iguala aos dos melhores pianistas da época, como Arturo Benedetti Michellangeli e Friedrich Gulda. Já no início da carreira profissional, em suas turnês europeias, era frequentemente comparado a Horowitz e a Rubinstein, tidos como os dois maiores pianistas de todos os tempos. Torna-se um solista constante em orquestras do quilate da Filarmônica de Londres, da Sinfônica de Viena, da Academia de Santa Cecília, de Roma, da Orquestra da Escócia e da Filarmônica de Berlim.
Logo após o concurso de Genebra, voltou a Viena onde participou de um concerto. Na saída, esperava-o, no forte frio europeu, uma multidão que o carregou festivamente nos braços.
Em 1954, Jacques estreou na Orquestra Filarmônica de Londres. Nesse mesmo ano, recebeu vários prêmios e medalhas. Seguiram-se tantos concertos, sempre vigorosamente elogiados e entusiasticamente aplaudidos, que o simples elencá-los seria uma tarefa desgastante.
No dia 19 de junho de 1954, Jacques fez a sua primeira apresentação no Brasil.
Era pouco conhecido do público brasileiro, a não ser através de referências de jornais, que relatavam o seu sucesso no exterior, particularmente sobre o prêmio de Genebra. Estreou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro com o Primeiro Concerto de Brahms, tocando junto com a Orquestra Sinfônica Brasileira. Já naquela época considerava o Municipal a sua casa. Na noite em que se apresentou, uma terça-feira, o Municipal se preparou festivamente para a estreia profissional do maior pianista brasileiro de sua geração. A interpretação de Jacques excedeu de muito as expectativas daquele curioso público. Ao final, os espectadores ovacionaram a exibição. Um crítico presente ao espetáculo disse:
A flexibilidade da técnica, que é complexa, e da mais ampla envergadura desse jovem virtuose, traduz sem dúvida uma natureza musical generosamente rica. Nada há de mecânico, de estereotipado, de meramente digital, em tudo o que ele faz. As mãos são eminentemente adaptadas ao teclado para a obtenção de um rendimento que o equipara, já, no que concerne às realizações técnicas, aos mestres do piano.
O ano de 1954 não findou sem uma demonstração de carinho à sua terra natal. Jacques veio ao Ceará. Em 19 de setembro, seus conterrâneos de Aracati são brindados com um concerto no auditório do Ginásio Marista, tocando em benefício do Instituto Profissional Jaguaribano.
Neste concerto histórico e memorável, Jacques executou Prelúdio de Villa-Lobos; Sonata em Fá Maior de Mozart; Barcarola Op. 60, Quarta Balada, Improviso em Fá Sustenido e Polonaise em Lá Bemol Op. 53, todas de Chopin. Usou, na ocasião, o piano pertencente à Da. Alzira Gurgel, filha do major Bruno, figura das mais destacadas do velho Aracati e fundador de Majorlândia, belíssimo recanto praiano que recebeu o nome em função de sua patente militar.
Em retribuição ao concerto, o povo aracatiense prestou-lhe uma singela homenagem de agradecimento e carinho, afixando uma placa de bronze na casa onde ele nasceu, com os seguintes dizeres:
“Nesta casa nasceu a 10-7-1930 Jacques Klein. Homenagem do povo aracatiense por ocasião de sua visita à terra-berço. Em 19-09-1954.”
Conta-se que, logo após o concerto, um brincalhão local, de parcos conhecimentos musicais, formulou o seguinte comentário sobre a apresentação de Jacques: “Tocou muito bem; mas quando interpretava a Sonata em Fá Maior, de Mozart, percebi claramente que ele tropeçou em uma ou duas notas musicais”. Ninguém é perfeito!... Afinal, já dizia Antônio Carlos Jobim, que no Brasil ter talento ofende as pessoas.
Ainda em 1954, Jacques gravou ao piano o samba Dora, de Dorival Caymmi; e também o samba-canção Nesta rua tão deserta, de sua parceria com Dorival Caymmi, Carlos Guinle e Hugo Lima.
Em 1955, foi eleito, em Londres, o melhor pianista do ano, sendo agraciado com a prestigiosa Medalha Harriet Cohen. Neste mesmo ano recebeu vários outros títulos e prêmios, dentre os quais o de professor honoris causa de conservatórios brasileiros e europeus, além de cinco títulos de melhor concertista do ano, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Em 13 de abril de 1958, casa-se, no Rio de Janeiro, com Cesarina Riso, filha do comendador italiano Osvaldo Riso e da amazonense Camélia Riso. Curiosamente, Cesarina recebeu de batismo o nome Cesare Osvalda, tamanha era a vontade de seu pai de ter um filho homem. Conta a família que o comendador, grande admirador das artes, desprezando a tradição, não esperou Jacques pedir a mão de Cesarina em casamento: foi Osvaldo quem pediu a Jacques sua mão para Cesarina!
Em 17 de janeiro de 1959 nasce, também no Rio de Janeiro, sua única filha, Daniela Riso Klein.
Neste mesmo ano, em novembro, após estar atuando há quase um quinquênio como profissional pelo mundo afora, Jacques faz sua estreia nos Estados Unidos.
Esperou pacientemente o momento certo. Não teve pressa. Preparou com cuidado esta primeira apresentação em solo estadunidense. Escolheu Nova York para ser o palco desta première.
As vitórias que vinha obtendo nas grandes capitais da Europa não eram suficientes para consolidar sua posição. Arrebatar os Estados Unidos e, particularmente Nova York, era fundamental. Sabia que se vencesse em Nova York, a capital do mundo, venceria, de vez. Certamente concordava com a famosa canção New York, New York, imortalizada na voz de Frank Sinatra: If I can make it there, I can make it anywhere (Se eu puder vencer lá, eu posso vencer em qualquer lugar). Além do mais, talvez inconscientemente quisesse materializar a previsão do seu mestre e amigo William Kappel. Havia, também, as previsões “cientificamente comprovadas” da Sra. Ann Koernig.
Klein escolheu para seu début em Nova York nada menos do que o célebre Carnegie Hall. Nunca passou por sua cabeça tocar no Town Hall, como faziam alguns pianistas ricos e afoitos, até pagando para a apresentação, a fim de alcançarem fama ilusória e passageira.
E quando finalmente a hora chegou, numa fria tarde de novembro, apresentou-se mediante convite e contrato. Entrou no palco sereno e firme, características pessoais que nunca lhe faltaram, ciente de sua capacidade, isto é, a de quem domina o piano e as peças que vai tocar; enfim, tranquilo quanto ao sucesso que sabia logo alcançaria.
A regência estava a cargo de seu querido patrício, o inconfundível e inigualável Maestro Eleazar de Carvalho, cearense de Iguatu, que substituiu Leonard Bernstein naquela noite. Esperou que a batuta mágica do grande maestro agitasse a densa atmosfera do Carnegie Hall para, em seguida, como num passe de mágica, afirmou-se, “ressuscitar Rachmaninoff”, o mesmo compositor que anos atrás lhe inspirara a carreira e que agora era por ele homenageado de forma toda especial, num preito de gratidão e numa noite importantíssima para Jacques. Iniciou tocando o Concerto nº 3, considerado um dos mais complexos da literatura pianística para executante. O próprio Rachmaninoff, ele mesmo um dos grandes pianistas que o mundo conheceu, havia composto este concerto para apresentá-lo quando de sua exibição nos Estados Unidos meio século antes neste mesmo Carnegie Hall que agora ouvia atentamente Jacques Klein.
Jacques era conhecedor de que, para o seu concerto nesta memorável noite convergiria o best of the best, a fina flor do mundo musical norte-americano. Lá estava, dentre outros luminares do piano, o jovem Van Cliburn, vencedor, há pouco tempo, do Concurso Internacional de Moscou, e que se tornara, através dessa merecida conquista, um festejado ídolo do povo americano.
Aliás, o concurso de Moscou, na época em que foi realizado, no auge da chamada Guerra Fria, entre os Estados Unidos e a então União Soviética, foi considerado a maior promoção publicitária da história da música, representando uma propaganda de milhões de dólares nos órgãos de maior divulgação da imprensa mundial. Dizem que Jacques fora convidado a tomar parte no evento, mas declinou. Não seria de todo pretensioso afirmar que a ausência de Jacques tenha aberto caminho para a vitória de Van Cliburn.
No Carnegie Hall, se encontravam, ainda, grandes compositores russos como Shostakovich, Kabalewski, e Khrenikoff. Todos para escutar, e certamente avaliar, o desempenho do nosso Jacques. A cena merece ser relembrada através das palavras de José Amádio:
Quando a Orquestra Filarmônica de Nova York inundou o teatro, Jacques mergulhou num oceano mágico e iniciou a recriação (um artista sempre recria o que toca) do concerto. Músculos tensos e absoluto autodomínio envolviam sua emoção. Viveu um desses instantes que pela sua intensidade justificam existências. Ao final, o público aplaudia de pé. Divisou rostos entusiastas na multidão. Percebeu vagamente que conquistara alguma coisa.
Após o concerto, calmo e satisfeito com o desempenho das peças que executara, Jacques resolve flanar pelas ruas frias de Nova York, que ele já conhecia bem. Ao lado da mulher, buscava um refúgio que lhe devolvesse à sua “condição meramente humana”. Depois de muito caminhar, lá por volta de meia-noite, já um tanto cansado deste périplo noturno pela Grande Maçã, resolve parar um pouco no Times Square para comprar jornais. Cesarina, pianista como ele, abre o Herald Tribune e, para surpresa dos dois, lá estava a apreciação do crítico Lester Trimble que afirmava o seguinte sobre o concerto daquela noite:
Alerta todos os amantes da música, orquestras, empresários, e companhias gravadoras. Um dos mais perfeitos concertistas do nosso tempo fez seu début com a Orquestra Filarmônica de Nova York, ontem à noite. Chama-se Jacques Klein, tem apenas 29 anos, e nasceu em Aracati, Ceará, Brasil. Tocou o Concerto nº 3 para piano e orquestra, de Rachmaninoff, de tal maneira que não deixou dúvidas, pelo menos para mim, de que é um músico que se emparelha com as figuras do primeiro time não só de sua geração, mas da geração que o precedeu.
Naquela noite, como disse José Amádio, "Jacques não tomou pileque, mas foi dormir muito cansado, tranquilo e satisfeito". O sono dos vitoriosos. O repouso do guerreiro. Estavam cumpridos, finalmente, a predição de William Kappel e o vaticínio da Sra. Koernig.
Ainda no ano de 1959, Jacques deu outros concertos que, como sempre, receberam os melhores elogios da crítica especializada. Um deles foi em Paris, executando o Concerto em Fá, de Gershwin. Sobre este concerto, o Guide des Concerts fez a seguinte observação:
Jacques Klein tocou esplendidamente o 'Concerto em Fá' de Gershwin, com a Orquestra de la Société dês Concerts no Teatro Champs Elysées. Sua técnica transcendental está à serviço puro de expressão musical e ele possui um rico temperamento lírico e caloroso. Guardem seu nome, ele irá longe.
Sobre outro concerto, realizado em Salzburg, na Áustria, o jornal Salzburger Volkszeitung disse o seguinte:
Em Jacques Klein encontramos um pianista de extraordinária capacidade. Dificilmente poderíamos fazer comentários sobre seu toque porque os adjetivos normais não lhe fariam justiça.
Disse um outro jornal, o vienense Bild Telegraph:
Para estabelecer-se comparações, se deveria citar os nomes de Horowitz ou Rubinstein.
Um grande recital realizado por Jacques, ainda em 1959, deu-se no Golden Room, do Copacabana, o célebre hotel carioca, onde, juntamente com sua esposa Cesarina Riso, foi assistido pela nata fluminense.
A jovem e bonita esposa de Jacques era também uma exímia pianista, de talento comprovado. Estudara em Viena com o ex-professor de Jacques, Seidhofer, e com Adler, também outro ex-professor do marido, no Rio de Janeiro.
Jacques e Cesarina iniciaram o programa com Mozart, Adágio e Fuga em Dó Menor e a Sonata em Ré Maior, e finalizaram com as Variações de Brahms sobre tema de Haydn. Assim, alternando-se entre os dois Steinways (pianos de cauda de marca famosa), Cesarina e Jacques encantaram o exigente e sofisticado público que lotava o Golden Room do Copacabana. Sobre este concerto disse um crítico presente ao espetáculo:
A tensão emocional dos ouvintes atingiu o auge quando um dos Steinways foi afastado e só um piano de cauda ficou no centro do palco, para, encerrando a primeira parte, os Klein tocaram Schubert a quatro mãos. O quadro permanecerá memorável.
Jacques e Cesarina viriam a se separar em 1963. Ela voltaria a se casar com o italiano Carlo Maestrini, com quem viveu durante quatorze anos em Florença e teve outros dois filhos. Ele nunca mais se casou.
Jacques seguiu conquistando o mundo com seus inesquecíveis recitais e concertos. Apresentava-se por toda parte, sempre com sucesso absoluto, sempre recebendo os melhores elogios do público e dos críticos musicais.
Tocou, ainda nesses primeiros anos de carreira profissional, em dezenas de países, fazendo mais de mil concertos com as melhores orquestras do mundo (Berlim, Filadélfia, Nova York, Londres, Paris), sob a direção dos mais famosos maestros. Seu ritmo de apresentações tornou-se tão intenso que às vezes fazia mais de um concerto ou recital num só dia. "Eu dei um concerto no norte da Noruega; no dia seguinte, em Viena, e, no terceiro dia, em Milão. De outra feita, dei 19 concertos em 17 dias, através da França. Em muitas cidades só tenho tempo de conhecer o hotel e o fundo do palco".
O ritmo frenético levou-o, em 1969, muito jovem ainda, a sofrer um ataque cardíaco, quando estava em Dublin, na Irlanda, poucas horas antes de um recital. Jacques foi atendido no Saint Michael's Hospital daquela cidade, e foi substituído por Mindru Katz que chegou minutos antes da hora do evento, segundo relato do Irish Independent. Recuperou-se do infarto num hospital de Zurich, na Suíça, conforme noticiou o mesmo jornal.
Essas apresentações mundo afora também lhe rendiam, de quando em vez, além dos dividendos, boas gargalhadas. Jacques conta que certa vez, numa cidade cujo nome preferiu não mencionar, na chamada hora dos extras de um dos seus recitais, alguém começou a gritar bem alto: "Toca Bach!" "Toca Beethoven!" "Toca Chopin!" E de repente, gritou uma senhora de voz esganiçada: "Toca tudo!!"
Seu repertório era eclético e variado. Não tinha autores prediletos, tinha inclinações. Jacques Klein, afirmou um crítico, "não se especializou em repertórios, ao contrário de pianistas brasileiros de seu porte. Guimar Novais foi uma chopiniana. Magdalena Tagliaferro tem uma queda pelos impressionistas franceses. Roberto Szidon prefere os últimos românticos, como Liszt e Scriabin, e os contemporâneos. Como Nelson Freire, Klein tocava de tudo, de Mozart a Brahms, – e sua competência era sempre notável".
Apesar desse ecletismo musical, Klein entregava-se, com empenho, a buscar a perfeição na obra dos autores escolhidos para executar: "Eu só toco a grande música: Beethoven, Brahms, Mozart, Chopin, Prokofiev, enfim, aqueles que são realmente da primeira linha", afirmou certa vez. Estes autores viviam na sua intimidade, e como foram geniais nas obras que produziram, é claro que nenhum pianista jamais esgotaria o mundo musical de nenhum deles.
Como bem destacou Flávio de Campos:
Jacques Klein não se dá por satisfeito, e na paixão por seus autores nunca se contenta apenas com a paixão, antes se dando ao zelo, à vigilância, ao manuseio repetido e renovado, procurando sempre descobrir de novo o que já foi em parte descoberto, ampliando o campo do seu domínio sobre todos os meandros e mistérios das criações geniais.
Além de Rachmaninoff, guardava um carinho todo especial por Beethoven. "Gosto muito das músicas de Beethoven. Para mim ele vem das mais profundas facetas do homem até o céu. É, nas últimas obras que ele chega ao céu, como na Sonata Opus 111. A música de Beethoven, explora tudo, tudo o que há em Shakespeare, Goethe, Thomas Mann, Hermann Hess e, enfim, contém o homem inteiro".
"Tenho particular predileção por Brahms, Schumann, Schubert e Chopin", dizia. Aos que acusavam Chopin de ser um compositor meloso, revidava, em defesa do ídolo:
Errado! Profundamente errado! Chopin jamais foi um compositor de salão. Sua música é máscula e viril e como tal deve ser interpretada sem prejuízo, é claro, de seu caráter essencialmente romântico. E Chopin foi o compositor que extraiu maior riqueza do instrumento piano, alargando-lhe as possibilidades sonoras. Contra certas maneiras errôneas de executar as suas músicas, lembro um trecho de uma carta de Chopin, escrita no momento em que Liszt na sala ao lado interpretava uma de suas composições com a força que lhe era característica. Chopin escreveu textualmente: 'como eu gostaria de roubar a interpretação! Pois Chopin sente que a enfermidade lhe roubava o ímpeto, malgrado a sua vontade.
A simplicidade de Jacques levava-o a tocar em ambientes humildes, bem diferentes dos grandes palcos. Certa feita tocou em uma igrejinha em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro. "Cada vez mais eu acho que é importante levar a música aos subúrbios e às cidades do interior", dizia, sentindo que a resposta que recebia do público em lugares simples era tão gratificante quanto seria tocar para plateias sofisticadas do Municipal ou das grandes capitais europeias. Não tinha, portanto, veleidades elitistas; mesmo sendo famoso e respeitado no mundo inteiro não se recusou a tocar em um dos capítulos da novela Sétimo Sentido, da TV Globo.
Jacques foi paulatinamente caminhando para um compasso menos frenético. Optou por uma fase mais lenta e comedida, por assim dizer, em que pôde realizar mais concertos no Brasil, para ampliar, assim, seu envolvimento com o meio musical brasileiro. Dedicou-se, cada vez mais, ao eixo Rio-São Paulo, sem desprezar, de todo, turnês na Europa e nos Estados Unidos.
Foi numa dessas turnês europeias, por volta de 1975, que Jacques começou a cultivar maior carinho à música de câmera. Conheceu o famoso violinista Salvatore Accardo e com ele formou um duo de violino e piano que se tornou um dos mais festejados da Europa naqueles anos. Essa prática, como não podia deixar de ser, deu uma nova dimensão às suas interpretações como concertista clássico. Foi também por essa época que, lamentavelmente, começou a sentir os primeiros sintomas do câncer que o vitimaria.
Jacques trouxe Accardo várias vezes ao Brasil, dando concertos maravilhosos no Rio e em São Paulo. "Não existe nada tão essencial para um músico", dizia sobre a sua paixão pela música de câmera, "do que a prática deste gênero. Para fazer música de câmera é fundamental a renúncia à personalidade para que haja o encontro com o parceiro. Esta fusão renova a sensibilidade do músico". Os planos para gravar, em 1983, um disco que se chamaria A majestosa obra de Beethoven para piano e violino, não foram levados a cabo devido à sua morte prematura. Se tivesse podido materializar essa ideia o mundo hoje guardaria um precioso registro de sua parceria com Accardo. Como tão bem assinalou João Marcos Coelho:
Infelizmente as gerações futuras e todos aqueles que não assistiram às apresentações da dupla Klein/Accardo não terão acesso a uma das mais bem construídas interpretações camerísticas. Antiestelar por excelência, Klein sabia fundir-se com o outro intérprete e produzir o milagre da identificação total na prática musical em conjunto. Esta é uma qualidade raríssima, sobretudo entre os pianistas. Klein, porém, não ficou só nisso. Não conheço outro intérprete brasileiro que tenha enfrentado e vencido tantas vezes o desafio das 32 sonatas de Beethoven para piano. A isso se acrescentam os concertos românticos para piano – dos cinco de Beethoven aos dois de Brahms – dos quais não há registro em disco. Mas a memória do público brasileiro saberá guardar suas interpretações.
Eis o problema: passados mais de vinte anos da morte de Jacques, sua lembrança se esvai também porque a memória dos que o ouviram não pode ser transmitida aos que não o ouviram e as poucas gravações existentes não estão disponíveis no mercado fonográfico.
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BEZERRA, Agamenon. Jacques Klein. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2006. p. 45-64

