Quando os navios não puderam mais entrar no Rio Jaguaribe e passaram a ser descarregados em Fortaleza pela facilidade que a ponte existente na Capital oferecia, surgiu a necessidade de caminhões com linhas regulares ligando o Aracati à sede do Estado, levando mercadorias para embarque.
Logo tornou-se imperativo o surgimento de transporte para passageiros, atendendo à demanda de muitas pessoas que desejavam se deslocar para Fortaleza ou de lá retornar.
Rapidamente, os proprietários de caminhões transformaram seus veículos em "mistos". Nada mais eram que caminhões com cabine de madeira provida de dois ou três bancos, que acomodavam cinco passageiros por assento, no mínimo. Sua carroçaria, um pouco menor, transportava mercadorias diversas, bem como os pertences dos passageiros: malas, móveis, porcos, galinhas.
Na agência no Aracati ou na de Fortaleza, quando se comprava a passagem, deixava-se o endereço para o misto ir apanhar o passageiro em sua residência, a partir das quatro horas da manhã. A saída do Aracati era até rápida, dado que a cidade era pequena, mas para sair de Fortaleza, por serem distantes os endereços dos passageiros, geralmente o misto só chegava à BR 116 lá pelas seis e meia da manhã. Chegava-se ao Aracati pelo fim da tarde, se tudo corresse bem, pois qualquer enguiço no "misto", o pernoite na estrada era certo.
Antes de construírem a ponte sobre o rio Jaguaribe, para sair do Aracati quase sempre se atravessava o rio antes das cinco horas da manhã, ainda meio escuro. Quando o "misto", para cruzar o rio, subia no barco-chata, por todos conhecido por pontão, os homens que nele trabalhavam pegavam longas e grossas varas de mangue (Rhizophora mangle) e iam empurrando aquele imenso e estranho barco com sua carga, na base do muque, à força de braços e pernas. Não havia motor, só força física.
Era gostoso ver a fosforescência da água do rio quando ainda escuro, as longas varas cortando a água salgada que saltava, parecendo tinta prateada! É um fenômeno lindíssimo aquele da "tinta prateada", momentaneamente visível no instante em que a vara corta a água e logo desaparecendo! Isso acontece no verão, quando o mar adentra o rio.
Somente depois de crescido e estudando biologia foi que descobri o porquê daquela fugaz fosforescência quando 'riscamos' a água salgada do rio: são protozoários microscópicos, principalmente os radiolários, que possuem minúsculas carapaças de cálcio e fósforo. Quando agitados, aqueles milhões de seres vivos, emitem luminosidade, e quem vê fica boquiaberto diante de tanta beleza.
Como não havia estrada diretamente de Fortaleza para o Aracati era usada a BR-116, ainda em piçarra, passando por Russas. De Russas para o Aracati, o caminhão fazia sua própria estrada através das várzeas e dos carnaubais até União (hoje Jaguaruana) e seguia até Passagem de Pedras (atualmente Itaiçaba), onde atravessava o leito do Rio Jaguaribe, no local onde aflora muita pedra lisa, com poucos altos e baixos, e daí seguia até Aracati. Mas isso somente era possível meses depois do inverno, quando o leito de pedras planas ficava a descoberto. Caso não houvesse passagem, como na época das chuvas, o misto ia seguindo o rio pela esquerda, até chegar ao local de embarque no pontão, na margem oposta à cidade.
O transporte melhorou quando empiçarraram a estrada Aracati-Boqueirão, que antes era um areião solto. Com a estrada transitada por caminhões, o tempo da viagem diminuiu; porém, o pontão continuou funcionando até a ponte ser construída, em 1959. Pouco depois de revestirem de piçarra a estrada, apareceram os ônibus, que saíam de Fortaleza às sete da manhã. Os ônibus não mais apanhavam os passageiros em suas residências. Os tempos eram outros, quem queria viajar tinha que se deslocar até a Agência, situada na Rua Dr. João Moreira, pertinho da Santa Casa e, depois, na Rua Governador Sampaio.
O asfaltamento do trecho Boqueirão-Aracati-Mossoró, ou seja, o início da BR-304, somente ocorreu na década de 1970.

Pode-se observar o primeiro transporte coletivo a fazer a linha regular Fortim-Aracati-Fortim, na foto abaixo. Esse caminhão misto pertencia ao cidadão Waldir Crisóstomo da Silveira, residente naquele Distrito, que o adquiriu em 1966. Por vários anos foi muito importante para os comerciantes e produtores locais, que tinham a certeza de levar e trazer suas mercadorias rapidamente e sem o perigo de molhá-las, tal como eventualmente acontecia quando transportadas pelos lentos barcos que faziam a rota Fortim-Aracati-Fortim. O transporte de barco ainda apresentava o inconveniente de deixar os passageiros e mercadorias na praia do rio.
Além disso, se o passageiro ia do Fortim ao Aracati, tinha que esperar que a maré estivesse enchendo para ajudar o deslocamento do barco e para o trajeto inverso, isto é, para ir do Aracati ao Fortim, muitas vezes esperavam durante meio dia, até a maré começar a baixar, ou seja, aguardavam até que as águas do rio começassem a descer no rumo do mar. Se assim não procedessem, os barcos à vela não conseguiam vencer a velocidade das águas que, apesar de lenta, era um inferno para os barqueiros.
A foto do caminhão nos foi gentilmente cedida pela Sra. Clice Fontenele da Silveira, viúva do Sr. Waldir.
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FERNANDES, Leônidas Cavalcante. Aracati: o que pouca gente sabe. Rio-São Paulo - Fortaleza: ABC Editora, 2006. p. 167-170.

