Às margens do Rio Amazonas, a aproximadamente 2.400 quilômetros de distância, está localizada Manaus, uma cidade que carrega muitas semelhanças com Aracati. Ambas estão situadas em latitudes próximas, recebendo, assim, quantidades semelhantes de radiação solar ao longo do ano, com temperaturas parecidas, e se caracterizam como grandes polos turísticos da atualidade em suas respectivas regiões. Mas as “coincidências” não terminam aqui; ao mergulharmos no passado, os paralelos históricos tornam-se ainda mais impressionantes.

Tanto Manaus quanto Aracati enriqueceram rapidamente ao se tornarem os principais portos de escoamento de um único produto altamente demandado pelo mercado externo. No período colonial, Aracati tornou-se a “Capital do Charque”, abasteceu o restante do país e exportou couro para a Europa; no final do século XIX, Manaus tornou-se a “Paris dos Trópicos” e consolidou-se como principal exportadora de látex para a Europa e os Estados Unidos.

Vista parcial do Teatro Santo Antônio. Aracati-CE.

A riqueza gerada fez surgir, nas duas cidades, elites locais que buscavam imitar diretamente os hábitos europeus. Em Aracati, as lembranças dessa tendência estão impressas por toda a Rua Grande, com seus azulejos portugueses nos majestosos casarões, varandas de ferro fundido e igrejas suntuosas; já em Manaus, o principal símbolo dessa época está encravado no meio do Largo de São Sebastião, no centro da cidade: o Teatro Amazonas.

Um sentimento comum a todos que visitam o complexo arquitetônico do Teatro Amazonas é a emoção e a sensação de viajar ao passado. Esse sentimento começa no próprio largo que leva o nome de São Sebastião, um santo com fortes implicações culturais e religiosas também na cidade de Aracati. Lá, encontramos a primeira aplicação no Brasil do “Mar Largo”, aquela combinação de pedras portuguesas brancas e pretas formando ondas, padrão que ficou famoso nos calçadões das cidades litorâneas. O entorno do prédio é ladeado por pedras de lioz, um tipo de calcário importado de Portugal, tão raro que carrega fósseis de conchas e moluscos pré-históricos, visíveis aos visitantes mais atentos. As telhas da cúpula vieram da França, o lustre central de Veneza, outros 190 lustres e luminárias foram importados da Bélgica, as vigas de sustentação foram produzidas na Escócia e o mármore branco que compõe as escadarias, paredes e esculturas foi extraído em Carrara, na Itália; as únicas peças de origem nacional estão no piso, formado por 12 mil peças de madeiras nobres da Amazônia montadas em marchetaria. No teto principal, uma grandiosa tela pintada na França, chamada “A Glorificação das Belas Artes na Amazônia”, mistura mitologia teatral clássica com elementos que remontam aos povos originários, tudo isso emoldurado por pinturas das ferragens da Torre Eiffel, criando a ilusão de que o salão central está localizado logo abaixo. Não é à toa que, recentemente, o prédio foi declarado pela UNESCO como Patrimônio Cultural Mundial, juntamente com o Teatro da Paz, em Belém.

Se pudéssemos fechar os olhos e vislumbrar mais a fundo, veríamos as damas de Aracati vestidas com tecidos finos, servindo-se de louças importadas e exibindo costumes trazidos do Velho Continente; uma vila aristocrática famosa pelas letras, ciências e roupas sofisticadas que contrastavam com a rusticidade do interior cearense. Em Manaus, algo semelhante: ricos barões mandando lavar suas roupas na Europa e vestindo pesados casacos de lã e cartolas sob um calor de mais de 30 graus. Mas todo esse estilo de vida ficou para trás, pois, em ambas as cidades, a época próspera foi seguida de longos períodos de estagnação e declínio; em Aracati, as secas prolongadas acabaram com as charqueadas; em Manaus, foi o surgimento de concorrência mais barata e eficiente da Ásia.

Mas o legado em Manaus não está apenas no aspecto físico ou arquitetônico, e talvez seja nesse ponto que as trajetórias dessas duas cidades se distanciem um pouco. Mesmo com todo o declínio, assim como as paredes do “Templo da Música”, como é chamado o Teatro Amazonas, Manaus continuou resistindo, recusando-se a deixar de ser o lugar onde a cultura do velho mundo se abraça com a do novo. Durante longo período, o complexo teve múltiplas utilizações, entre elas reuniões políticas importantes, formaturas, festas, shows etc. Sua pintura original também passou por alterações durante o período da ditadura no Brasil, mas o espaço continuou sendo o berço da resistência das artes, como demonstram as diversas placas penduradas em suas paredes, testemunhando apresentações teatrais, concertos e recitais promovidos por grupos de fora e por artistas da própria cidade. Essa semente manteve aceso no manauara, especialmente em sua classe artística, um desejo latente de ir além, e foi a força motriz para um projeto arrojado que acabou dando certo.

O ano era 1997, e entre os personagens principais estava o ex-governador Amazonino Mendes, conhecido pelo apelido “Negão” (uma curiosidade é que, ainda criança, parte de seu ensino primário foi concluída no Colégio Castelo Branco, na capital cearense); ao seu lado, o Mestre Dr. Robério Braga, apaixonado pelas letras e pelas artes em todas as suas formas. Na época, a iniciativa fazia parte de uma ampla política pública de revitalização cultural, focada principalmente na reocupação do Teatro Amazonas e no fomento da identidade cultural clássica amazonense. Em setembro daquele mesmo ano, surgiram os dois primeiros grupos dos Corpos Artísticos do Estado do Amazonas: o Coral do Amazonas e a Amazonas Filarmônica.

No início, devido à falta de mão de obra local qualificada, apenas dois músicos amazonenses integravam a primeira formação da orquestra; os outros 42 instrumentistas eram de outras partes do Brasil e do exterior, atraídos pela oferta de bons salários. O coral já existia e atuava no teatro, mas era formado inteiramente por cantores amadores e funcionava sob o nome de Coral do Teatro Amazonas. Fez-se necessária a profissionalização desses artistas e sua submissão a audições rigorosas, restando apenas os 31 melhores. E, dessa forma, estava tudo pronto para a realização do primeiro Festival Amazonas de Ópera; a música clássica, em toda a sua força, finalmente retornava ao seu lugar de direito.

Daquele momento até os dias atuais, o projeto cresceu, tornou-se maior e mais grandioso que a ideia inicial e atravessou não apenas o tempo, mas também governos de diferentes partidos. O próprio Robério Braga, que ocupou o cargo de secretário de Cultura, permaneceu à frente da pasta por quase 21 anos. A Amazonas Filarmônica expandiu-se para 90 músicos — muitos deles jovens que antes eram admiradores e hoje integram o quadro de instrumentistas; o coral passou a se chamar Coral do Amazonas e conta hoje com 64 cantores, incluindo um tenor aracatiense. Os corpos artísticos do estado se multiplicaram com a criação da Orquestra de Câmara do Amazonas, da Amazonas Band, da Orquestra de Violões do Amazonas, do Corpo de Dança do Amazonas e do Balé Folclórico do Amazonas. Para alimentar toda essa estrutura, foram criados o Liceu de Artes e Ofícios Cláudio Santoro, que oferece cursos em praticamente todas as vertentes da arte, e o Curso Superior de Artes da Universidade do Estado do Amazonas, que forma mão de obra qualificada de alto nível, competitiva no cenário nacional e internacional. Para produzir e armazenar todos os cenários e figurinos dos festivais, foi criada, em 2004, a CTP – Central Técnica de Produção, com 45 mil peças de roupas e cenários diversos, constantemente emprestados para outras produções em teatros de todo o Brasil. Somada a toda essa estrutura mantida pelo poder público, surgiram vários outros grupos e instituições de formação e atuação no cenário estadual e local, promovendo um aquecimento cultural em outros ambientes da cidade.

Segundo dados estatísticos, a profissionalização desses profissionais criou um nicho que movimenta aproximadamente 3 mil empregos diretos e indiretos e injeta mais de R$ 99 milhões na economia do estado, grande parte disso inserida nos setores hoteleiro, turístico, gastronômico e de transporte. Durante períodos de menor atividade local, muitos desses profissionais atuam em outras partes do Brasil, como no famoso Festival de Parintins e nos carnavais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Resumindo: os resultados disso são imensuráveis.

Manaus, aquela cidade quente dos barões da borracha de outrora, a capital conhecida pelo maior rio do mundo em volume de água e pela maior floresta tropical do planeta, não ostenta apenas esses títulos, mas possui o maior festival de ópera da América Latina, com 25 edições, o principal e mais prestigiado evento lírico do mundo fora do eixo tradicional europeu e norte-americano, além de ser o mais longevo do Brasil. Sedia um grandioso festival de jazz com participações internacionais e também festivais de teatro e cinema; foi a única cidade brasileira a receber a prestigiada Conferência Anual da Ópera Latinoamérica e segue intercambiando produções com os principais teatros do continente e do mundo.

Alguém até poderia dizer que tudo isso foi possível graças ao desenvolvimento econômico da Zona Franca de Manaus... e, talvez, tenha razão. Quando comparamos o PIB das duas cidades, constatamos uma diferença de mais de R$ 120 bilhões entre uma e outra. Mas não se trata de transportar o modelo executado em Manaus — uma capital com mais de 2 milhões de habitantes — para uma cidade litorânea com pouco mais de 79 mil habitantes, como Aracati; certamente isso seria economicamente inviável. A ideia é reforçar o que a experiência prova: quanto mais se investe na cultura local e em uma identidade com a cara do povo, mais resultados duradouros se obtêm, e o movimento em cadeia gerado transcende o próprio local e a própria ideia em si. Há exemplos disso no próprio Ceará, como a renomada companhia de balé EDISCA, com sede em Fortaleza; a Orquestra Contemporânea Brasileira, que possui mais de 12 núcleos de formação em cidades do Ceará e do Rio Grande do Norte; o Instituto de Música Jacques Klein, instituição privada sem fins lucrativos que promove oficinas de curta duração e intercâmbios culturais em diversas cidades do interior para aproximar os jovens da música clássica; além de outras instituições privadas, profissionais autônomos e ONGs que ofertam não apenas educação musical, mas outras variedades artísticas.

Teatro Francisca Clotilde. Aracati-CE.

Também não se trata aqui de criticar o que já vem sendo feito, mas de reconhecer que, no campo da cultura, sempre há espaço para sonhar mais. Conseguem imaginar um Coral Municipal de Aracati ou um Grupo de Câmara Aracatiense de Baião? Concursos de poesia, batalhas de repente, festivais de música, mostras de teatro e muito mais... A infância de muitos foi marcada por eventos semelhantes promovidos pelas escolas locais, mas conseguem vislumbrar tudo isso em nível profissional, atraindo grupos de outras cidades e integrando o setor hoteleiro, gastronômico e turístico da cidade? E toda essa máquina gerando mão de obra especializada e empregos diretos e indiretos; nesse contexto, veríamos artistas aracatienses despontando no Brasil e no mundo. Aracati já possui um lindo e restaurado teatro, belas praças, museu, salões de exposição, uma indústria turística surpreendente e a semelhança principal que a aproxima de Manaus: cultura na veia, talento no olhar e garra na alma.

 _____________________________

Jeferson Nogueira é educador e cantor lírico (Tenor) aracatiense. Desde 2022, integra o Coral do Amazonas.

FONTES:

- https://18horas.com.br/amazonas/amazonino-mendes-ganha-homenagem-na-cidade-onde-nasceu-eirunepe-no-interior-do-amazonas/

- https://cultura.am.gov.br/corpos-artisticos/

- https://cidades.ibge.gov.br/brasil/am/manaus/panorama

- https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ce/aracati/panorama

- https://radaramazonico.com.br/festival-amazonas-de-opera-movimenta-economia-e-gera-mais-de-3-mil-empregos-no-estado/

- https://mapacultural.secult.ce.gov.br/agente/8455/

- https://imjk.org.br/

- https://aracati.ce.gov.br/informa.php?secr=45

- https://ri.uea.edu.br/server/api/core/bitstreams/c34c4ce5-953e-48c8-a86b-02c7a95e7585/content