No rio Jaguaribe a maré enche e vaza,
deixando um véu de espuma sobre a praia.
(Raimundo Herculano)
Um passeio pelo rio Jaguaribe é uma viagem pela história. Além de desfrutar de uma paisagem deslumbrante, o viajante mergulha num passado de encantamentos e de lendas que povoam as águas e os mangues do Rio das Onças.
À medida que se descortina a Ilha dos Encantos, o multíssono do revoar das garças do ninhal que as abriga se materializa num verdejante santuário ecológico da fauna ribeirinha. O mangue, que guarda no seu interior uma infinidade de vida fluvial, transforma-se em floresta que protege e encobre o Ninhal.
Logo adiante, o profundo e longo braço da Canavieira nos faz relembrar um passado em que o canal era o caminho por onde transitava a riqueza do ouro‑branco — o nosso sal — produzido nas salinas da Beirada e conduzido em comboios de alvarengas rebocadas pelo portentoso rebocador Jopoca, rumo aos vapores fundeados ao largo da Barra.
A seguir, a Ilha do Pinto e do Caldeireiro, antigas possessões dos senhorios do Aracati, ainda guardam os resquícios do seu passado nos coqueirais, nas plantas nativas e na vegetação rasteira, testemunhas de um tempo em que eram selvagens e desabitadas.
O antigo povoado de Viçosa — conhecido berço de moças bonitas que tanto encantaram os desbravadores — permanece quase inacessível pela margem do rio, protegido pelas altas falésias e pela muralha que se prolonga para o alto como um penhasco, dificultando a curiosidade do visitante.
O Jardim de Baixo e o Jardim de Cima, com o colorido e o perfume de sua flora, resplandecem em cores e aromas ao desabrochar das flores e ao surgimento espontâneo dos seus jardins naturais, dando significado real aos seus nomes.
O Fortim, cidadela que o homem construiu para proteger esse paraíso, ainda conserva um pouco do seu passado glorioso no que restou do velho Trapiche, destruído pela fúria do tempo e pelo despreparo do homem em preservar e conservar sua própria história.
Nesse Trapiche ancoravam navios e vapores de várias procedências do País e do Exterior, que vinham receber o sal extraído da maior salina a céu aberto do mundo — a Salina Canoé — transportado por locomotivas numa distância de mais de nove quilômetros. No mesmo Trapiche, a riqueza produzida no alto sertão do Ceará, como a cera de carnaúba e o algodão, era embarcada para todos os lugares do mundo.
Adiante, a Pedra do Chapéu — ponta de terra que se prolonga sobre o rio Jaguaribe, assim chamada por causa do seu formato semelhante a um chapéu — foi propriedade de vários senhores de terra, pertencendo inclusive ao Governador do Estado do Ceará, o poeta e advogado Beni Carvalho.
Conta a lenda que, embaixo da Pedra do Chapéu, mora um mero do tamanho de uma baleia, que muito tem assombrado pescadores e viajantes que se aventuram pelas águas do rio Jaguaribe em noites escuras e sem luar.
O Canal do Amor, o mais extenso e também o mais belo braço do rio Jaguaribe, nem parece um braço de rio; parece mesmo um rio, por sua extensão e pela diversidade de pequenos canais e gamboas existentes dentro de seus limites. A história que lhe deu o nome de Amor, segundo contam os mais antigos, nasceu de um romance entre um marinheiro português e uma jovem índia tabajara, ambos enfeitiçados por um pajé contrário ao enlace. Transformados em um casal de peixes, foram condenados a viver para sempre presos, como acorrentados, dentro do Canal do Amor, sem jamais poderem alcançar o leito do rio Jaguaribe.
Por fim, a Barra do Jaguaribe — onde o rio encontra o mar, formando o delta — marca o ponto por onde começou a colonização do Ceará. Foi por essa barra que entraram as primeiras naus conduzindo homens brancos que vieram juntar-se a Pero Coelho, em 1603, quando de sua expedição para dar início à colonização do Ceará.
Afinal, como diz o poeta Demócrito Rocha:
“O rio Jaguaribe é uma artéria
por onde escorre e se perde
o sangue do Ceará.
O mar não se tinge de vermelho
porque o sangue do Ceará
é azul...”


