Dizem que a propaganda é a alma do negócio. Em Aracati, porém, às vezes ela também é madrinha do prejuízo.

Há muitos anos, espalhou-se pela cidade a notícia de que um cidadão de Fortaleza desejava vender uma lancha ancorada no Fortim. Havia comprado uma embarcação nova, maior e mais potente.

O preço da lancha não era exatamente uma pechincha. Mas isso pouco importava para Rubênio, homem de posses, econômico por vocação e, naquela fase da vida, apaixonado pela navegação — desde que fosse sobre as águas relativamente mansas do Rio Jaguaribe.

Mal soube da novidade, procurou o proprietário. Negócio fechado. Antes de entregar o dinheiro, fez apenas uma pergunta:

— O motor está funcionando?

O vendedor respondeu com a tranquilidade de quem já sabia que não voltaria a ver a embarcação:

— Está quase funcionando. O problema é apenas no motor de partida. Coisa simples. Qualquer mecânico resolve.

Anos depois, Rubênio ainda recordaria essa frase com a mesma ternura com que um peru se lembra da véspera do Natal.

Pagamento feito, lancha entregue em Aracati.

Logo em seguida, Rubênio procurou Fernando de Raimundo Nhozinho, mecânico respeitado, capaz de fazer funcionar desde uma bicicleta manca até um motor que já tivesse desistido da própria existência.

— Você conserta?

— Conserto.

Fernando respondeu enquanto ajeitava os óculos fundo de garrafa, presos por uma corrente em volta da cabeça:

— Quanto custa?

— Só falamos de dinheiro quando terminar.

Rubênio gostou da resposta.

— E quando fica pronto?

Fernando coçou a cabeça.

— Logo, logo.

Em Aracati, “logo, logo” é uma medida de tempo extremamente elástica. Pode significar amanhã, mês que vem ou depois da próxima enchente.

Passou-se uma semana. Depois, duas. Depois, três.

A lancha continuava parada na oficina, tão imóvel que alguns começaram a suspeitar que estivesse criando raízes. Foi então que Fernando resolveu abrir o jogo.

— O problema não era só o motor de partida.

— Não?

— Não. O sistema de transmissão e propulsão também está avariado.

Rubênio empalideceu.

— E agora?

— Agora estou fabricando uma peça nova.

— Onde?

— Aqui mesmo na oficina.

— E funciona?

Fernando olhou para o céu.

— Se Deus quiser.

A resposta não tranquilizou Rubênio. Quando um mecânico transfere a responsabilidade para Deus, é sinal de que a mecânica já entregou os pontos.

O certo é que a lancha ficou pronta apenas seis meses depois. Quando finalmente chegou o grande dia do teste, o sol brilhava sobre o Jaguaribe como quem havia comprado ingresso para assistir ao espetáculo.

Às oito horas da manhã de um domingo, Rubênio e Fernando estavam no Porto dos Barcos.

Rubênio assumiu o comando.

Fernando sentou-se ao lado com a expressão de quem confiava plenamente no próprio trabalho e apenas moderadamente no futuro.

Rubênio girou a chave.

— UÉM... UÉM... UÉM...

O ronco ecoou pelos manguezais da Volta, ressoando como trombeta até os confins do Córrego da Inveja.

Garças levantaram voo. Maçaricos desapareceram. Caranguejos recolheram-se às tocas. Há quem afirme que cardumes inteiros se refugiaram no mar e só voltaram meses depois, transformando o Jaguaribe, por algum tempo, no rio menos piscoso de toda a região.

A lancha arrancou. E arrancou com uma disposição absolutamente incompatível com sua idade, seu tamanho e seu histórico. Em poucos segundos, atingiu uma velocidade que desafiava a lógica e a física. O mais preocupante, porém, era que ninguém conseguia controlá-la.

Rubênio reduzia o acelerador. A lancha acelerava. Tentava reduzir novamente. Ela respondia acelerando ainda mais. Parecia uma invenção possuída pelo espírito inquieto de algum piloto de Fórmula 1. O vento assobiava. A água espirrava. O motor rugia como um dragão enfurecido. E o Jaguaribe, acostumado a canoas e barcos pacatos, assistia perplexo ao surgimento daquela criatura endiabrada.

Em poucos minutos, já passavam diante da pousada de Raimundinho, no Jardim de São Lourenço. Muitos garantem — e não eram poucos — que naquele momento a lancha chegou a ficar quase três metros acima da água. Outros afirmam que ela voou. Os mais prudentes dizem apenas que preferem não discutir o assunto.

— Vamos pular! — gritou Rubênio.

— Pule você! — respondeu Fernando.

— E você?

— Vou ficar aqui!

— Ficar por quê?

— Porque não sei nadar!

— Nem eu! — respondeu Rubênio.

Diante daquela sincera troca de informações, que teria sido muito útil antes da partida, concluíram que a única atitude inteligente era abandonar a embarcação. E foi o que fizeram. Saltaram numa área assoreada próxima à Ilha do Pinto. Caíram assustados, desajeitados, cobertos de areia, mas vivos. Com um detalhe importante: os óculos de Fernando continuavam amarrados à cabeça. E isso, levando em conta as circunstâncias, já podia ser considerado um sucesso extraordinário.

Livre dos passageiros, das opiniões e das tentativas de comando, a lancha pareceu sentir-se verdadeiramente realizada. Acelerou outra vez. Tomou rumo ao Fortim. Entrou pela barra do Jaguaribe. E seguiu em direção ao mar.

Dizem que foi vista pela última vez cortando as ondas do Atlântico como um cavalo selvagem que finalmente encontrara campo aberto para correr. Depois desapareceu.

Uns juram que afundou. Outros garantem que foi parar na África. A verdade, ninguém sabe. O que se sabe é que a lancha nunca mais voltou. E também que Fernando de Raimundo Nhozinho, homem prudente quando queria, jamais aceitou outro serviço envolvendo barcos a motor.

Quanto a Rubênio, desenvolveu um hábito curioso. Sempre que passava pela margem do Rio Jaguaribe, fechava os olhos por alguns segundos. Uns diziam ser saudade. Outros, trauma. Mas os mais sábios garantiam que ele apenas evitava encontrar, vindo rio acima, uma lancha endiabrada, sem timoneiro, sem freio, sem juízo e sem a menor intenção de parar.

 

Fortaleza, 15 de julho de 2026