Cabeçulinha, motorista de táxi em Aracati, nunca tinha visto em funcionamento um semáforo de trânsito. Quando pegava uma “corrida” para Fortaleza, contratava um motorista para fazer a viagem, porque ele não sabia dirigir na Capital.
Só se “astrevia”, como ele mesmo dizia, a guiar aqui mesmo pelo Aracati. Por isso, quando soube que Expedito ia botar semáforos nas ruas da cidade, ficou eufórico com a novidade moderna — ainda mais numa cidade onde carroças a tração animal circulavam pelas ruas carregando gente e mercadorias.
No dia da inauguração do semáforo da rua Dragão do Mar, esquina com a Duque de Caxias, lá estava Cabeçulinha: o primeiro a passar pelo sinal verde, abrindo o cortejo com seu Corcel Del Rey movido a gás natural, vestido com sua melhor roupa de domingo. Entrava assim, orgulhoso, na era modernista do trânsito semaforizado.
E não foi diferente — com um porém — na inauguração do semáforo principal da cidade, localizado no cruzamento mais movimentado de Aracati: Rua Cel. Pompeu Costa Lima com Travessa Tabelião João Paulo.
Logo cedo, Cabeçulinha, agora de bermuda preferida, já que a inauguração no pingo do meio-dia exigia roupa esporte e leve por causa do calor, esperava empertigado no volante do Del Rey, posicionado para, mais uma vez, ser o primeiro a cruzar o sinal verde do encruzamento de maior afluência da cidade.
Mas o Prefeito se atrasou, ocupado assinando ordens de serviço na Praça Pe. Champagnat, e o semáforo ficou parado na cor amarela, aguardando o “sinal verde” da presença dele.
Determinado a repetir o feito, Cabeçulinha estacionou o Del Rey com o motor ligado ao lado do Bar Planalto, esperando o momento certo de cruzar o sinal.
Ao primeiro pipocar dos fogos de artifício anunciando o início da inauguração, a luz verde acendeu. Cabeçulinha acelerou o Del Rey, que, aos pulos, foi se postar embaixo do semáforo, quase no meio da pista, estancando por falta de gás.
Enquanto isso, uma fila de carros atrás do Del Rey buzinava sem parar, querendo passar pelo sinal. Desesperado, Cabeçulinha tentava trocar o combustível para gasolina e fazer o Del Rey pegar.
Na rua Cel. Pompeu Costa Lima, outra fila de carros também aguardava o momento de inaugurar o semáforo, que naquela direção permanecia com a luz vermelha acesa.
No exato instante em que o Del Rey finalmente pegou, a luz verde apagou para Cabeçulinha e acendeu para a outra fila de carros na Cel. Pompeu.
Deu-se então o inesperado: uma camionete F-4000, carroceria de madeira, avançou o sinal que lhe era favorável e pegou o Del Rey de Cabeçulinha bem no meio, partindo o velho Corcel em dois — ficando a traseira no meio da rua e a frente, com Cabeçulinha agarrado à direção, em disparada rumo à Padaria do Seu Chico Grande.
Hoje, desiludido, Cabeçulinha transformou a cabine do que restou do Del Rey num cabriolé e nunca mais voltou a passar pelos semáforos de Aracati.


