Tenho minhas restrições aos Estados Unidos; me incomoda muito a reverência exagerada que os brasileiros fazem ao American way of life (modo de vida americano), seus super-heróis e seu imperialismo. Mas confesso que gosto muito da música (jazz, blues, foxtrot, rock) e do cinema que eles produzem.

Então, decidido a ampliar meus horizontes culturais, resolvi me preparar para conhecer a meca do capitalismo mundial, os Estados Unidos da América do Norte, a terra das oportunidades, como eles são chamados — um conceito histórico que acredita que qualquer indivíduo, independente da origem ou classe social, pode alcançar o sucesso financeiro e a mobilidade social por meio do trabalho duro e da meritocracia. Um conceito questionável. Decidimos conhecer New York, considerada a cidade mais cosmopolita do mundo, formada por muitos imigrantes que falam várias línguas e têm muita cultura para se ver e saborear.

Mas viajar para os Estados Unidos da América não se resume apenas a juntar dinheiro, sentir aquele frenesi de viajar, fazer as malas e voar pelos céus afora. Os “americanos” precisam também querer e aceitar que você os visite; então, para isso, tem-se que tirar o famoso “visto americano”. Podem não lhe aceitar.

Relutei por muito tempo em me submeter a ser sabatinado pelos ianques, mas a curiosidade do viajante falou mais alto. Então voei com a amada, parceira de vida e de viagens, para Recife, onde fica o consulado estadunidense para o Nordeste. Não sem antes ter preenchido um longo e extenso formulário pela internet, onde temos que garantir que não somos terroristas, não usamos drogas e temos dinheiro para nos sustentar.

Amigos que já visitaram as terras do Tio Sam nos aconselharam a declarar que íamos para Orlando, que é a cidade local mais visitada por brasileiros, e o visto é, em tese, mais fácil de ser expedido. Juntamos todos os documentos comprovando que tínhamos vínculos com o Brasil, que não estávamos querendo morar nos EUA, e enviamos tudo numa pasta junto com os comprovantes dos pagamentos das taxas exigidas: 160 dólares cada, ao câmbio do dia.

A retirada do visto, previamente agendada pela internet, passa por duas etapas. Inicialmente fomos a uma repartição chamada CASV, onde tivemos que ser revistados, pois estávamos entrando em território estadunidense e não podíamos entrar com nenhuma bolsa ou mochila, já que, até prova em contrário, somos suspeitos de querer sabotar os EUA. Guardamos nossos pertences fora do prédio, onde alguns espertos pernambucanos instalaram um guarda-objetos. Assistimos a uma segurança, brasileira e muito arrogante, aconselhar uma jovem que estava à frente, e que tinha esquecido de guardar a sua mochila, a jogá-la no chão. Isso já me irritou profundamente.

Entramos em uma longa fila que levou a uma sala onde fomos fotografados e registramos nossas digitais. Os meus polegares, talvez em protesto velado, apresentaram algum defeito de identificação, o que fez o funcionário chamar outro, que supus ser especialista em digitais, como aqueles do FBI que costumamos ver nos seriados policiais. Expliquei ao especialista que provavelmente as minhas digitais sofreram um processo de corrosão ao longo dos anos com as substâncias que lavamos as mãos ao adentrar para uma cirurgia no centro cirúrgico. Acho que aceitou a minha justificativa, mas com uma cara que espelhava certa dúvida.

No outro dia, nos encaminhamos para a entrevista no consulado, já orientados a não levar nem o celular. Um jovem que entrou na nossa frente teve que voltar por estar de posse do seu telefone móvel. Passamos por uma porta giratória e por um detector de metais. Sentamos num espaço reservado para espera após entregarmos os nossos passaportes a uma bonita morena com um delicioso e carinhoso sotaque pernambucano.

Em seguida fomos chamados e entramos por uma porta blindada e, após uma pequena fila, ficamos numa sala atrás de outros entrevistados. De onde estávamos, deu para ouvir uma criança de cerca de 6 anos justificar que queria ir para Orlando porque queria muito conhecer a Minnie, o que parece que sensibilizou a entrevistadora, que deu o visto para a família requerente. Então já me preparei para dizer que queria muito conhecer o Pateta (pois me sentia um pouco assim), um cavalo amigo do camundongo Mickey, pensando em sensibilizar aquela que seria a minha algoz na entrevista: uma loira blumenáutica com sotaque americano.

E então, com uma voz burocrata e entediada, a loira nos chamou. Preparei-me para enfrentar os imperialistas, eu, armado da lança de Dom Quixote junto com a minha Dulcinéia. Passamos novamente as nossas digitais, e a loira nos fez duas perguntas: nossa profissão e para onde íamos. E pronto! Para nossa surpresa, não nos pediu nenhum documento, não nos perguntou mais nada e apenas nos avisou em quanto tempo iríamos receber os nossos passaportes com o visto do Tio Sam, e nos despachou.

Que decepção! Preparado para uma contenda épica contra o imperialismo ianque, saí sem a peleja que tinha previsto e para a qual já tinha o discurso articulado.

Depois foi só torcer para o dólar não subir tanto. E New York valeu cada dólar.