Declaro, para fins de curriculum vitae, que fiz, nesse fim de semana, meu PhD em matéria de jumento, lendo, com a dignidade necessária, o livro do Pe. Antônio Vieira, O Jumento, Nosso Irmão, livro que me foi oferecido pelo amigo Veras, hoje não mais residindo neste mundo em ruínas.
Devo, entretanto, avisar aos alunos de Letras que o Pe. Antônio Vieira acima mencionado não é aquele de quem já ouviram falar alhures, porém um outro muito mais recente, nascido (e bem-nascido), por ocasião da I Guerra Mundial, em Várzea Alegre, Ceará, Brasil. Esta observação é básica, no meu entender, para os universitários, especialmente para os alunos que se preparam para o vestibular, já que eu sou um dos autores indicados ao conhecimento dos vestibulandos.
O Pe. Antônio Vieira de que falo, o cearense, também é orador, jornalista, escritor, político. No ano de 1958 esteve em evidência em todo o País, em face de denúncia que fez contra o Departamento Nacional de Obras Contra Secas, trazendo ao conhecimento dos brasileiros mandos e desmandos escandalosos.
É, portanto, um padre de briga. Pelo menos era, já que há anos não ouço falar nele. O livro a que me refiro foi publicado pela Livraria Freitas Bastos, em 1964, e só o escreveria um homem de cultura, de capacidade de pesquisa, amante das letras. Ele apresenta o volume com humor: “Cristo entrou triunfalmente em Jerusalém montado num jumento. Também montado num jerico vou entrando na história e na literatura. Abram caminho para os dois!”
Na apresentação, o A. ainda diz coisas importantes assim: “Tudo neste livro vai-lhe causar cócegas ao amor-próprio e à finura do seu espírito, bizantinamente social. Até o título é um escândalo. Uma ignomínia. Uma afronta à sua nobreza e linhagem social”. E mais adiante: “Na estalagem de Belém, não houve lugar para Jesus. Já estava cheia. Onde há criaturas humanas não há mais lugares. O egoísmo cerra todas as portas e ocupa todos os lugares. Mas, no estábulo, não se conhece a ambição, o orgulho e amor-próprio que tornam os homens feras acuadas”.
O que quero destacar, entretanto, é que, no decorrer das trezentas (300) páginas, o jumento é estudado com erudição, espontaneidade e senso de humor, sob os pontos de vista da História, da Religião, da Economia, do Folclore, da Literatura etc.
Já falei, em outra oportunidade, na importância do jumento para a previsão das chuvas no Ceará. E não disse que é ele quem, levado pelo dono, determina o lugar onde o poço deve ser cavado. É geólogo, além de meteorologista, pelo menos no sertão do meu Estado. Aqui, é usado o galho de marmeleiro ou pessegueiro. Lá, nas areias desérticas, pata de jumento. Ele mesmo inicia a escavação. Depois, é só continuar, e a água cristalina jorra “farta e saborosa”.
E como a época é de físicos, químicos, bioengenheiros, o diabo a quatro em matéria de tecnologia, vamos ficar, por falta de espaço, nos conhecimentos científicos do jumento. É ele ainda muito utilizado para marcar as horas do dia, daí porque é chamado de relógio dos pobres.
Assim como o Big-Ben fornece a hora oficial para todo o Império Britânico, que, a essa altura, é mais britânico do que império, o jumento, no interior do Ceará, quando relincha, determina o horário municipal. Ele o faz de hora em hora, fato que é aproveitado para conferir os relógios.
Daí porque, no parecer dos entendidos em línguas faladas, a expressão inglesa — from jackass to Jackass — deve ser traduzida, não como do jumento ao jumento, porém no sentido mais preciso, sendo o Pe. Antônio Vieira, como de hora em hora.
Informa o A. que o jumento prestou seus préstimos à aeronáutica, nos seus primórdios. Quando o teimoso inventor, Santos Dumont, não atinava como vencer o problema da estabilidade do seu 14-Bis, valeu-se de dois jumentos. Isso porque, nas repetidas experiências, o aparelho fixado a um cabo de aço, deslizava de uma roldana sustentada por dois deles...
E como a notícia é petróleo, é gasolina e derivados, seria uma ingratidão não mencionar que o primeiro poço petrolífero escavado na Pensilvânia, por Eduardo Brake, seu principal auxiliar foi um jumento!
E o Pe. Antônio Vieira tem razão: “Reservemos os termos burro e jumento para quem realmente os merece. É um título mais dignificante que tantos outros tão desesperadamente cobiçados pela vaidade humana”.
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MENEZES, Holdemar. A Vida Vivida: crônicas. — Florianópolis: Ed. Da UFSC/ Ed. Lunardelli, 1983. p. 159-161

