“O meu pai era paulista, meu avô pernambucano, o meu bisavô mineiro, meu tataravô baiano, meu maestro soberano foi Antônio Brasileiro”. Aquela voz inconfundível se misturava a dezenas de comerciais publicitários no rádio do táxi que me levava para um congresso de Direito Constitucional. Não conseguia acreditar. Era um anúncio de um show do Chico Buarque em Fortaleza.
Ato incontinenti, desci meio que atabalhoado do Santana branco, me apeguei no primeiro telefone público à minha disposição e disquei aflito e ansioso dois, três, um, dez, dez.
— “Alô, queria falar com o Rodrigo.”
— “Alô, Rodrigo falando...”
Quase que gritando, dei-lhe a notícia:
— “Primão, vai ter show do Chico na Casa do Engenho...”
Depois de alguns segundos eternos de silêncio, insisti:
— “Rodrigo...”
— “Estou aqui, mas me emocionei, não consigo falar... vamos comprar uma mesa...depois a gente se fala...”
Havia um sério problema, porém. Aquele ano, 1999, foi muito difícil. Eu estava desempregado e não possuía nem numerário nem crédito para adquirir a mesa para o show que custava uma fortuna à época.
Sem saber o que fazer, no meu quarto, em meio a discos e livros, avistei um velho violão, esquecido num canto ante a total ausência de talento musical do seu dono. Nem pestanejei, vendi o dito cujo para um amigo - que por sinal até hoje não me pagou o valor inteiro cobrado – mas que era o suficiente para comprar a mesa.
Cheguei ao local de venda, um pouco tarde. Só havia vaga na sétima fila e na ponta direita. Mas era o jeito, compramos a mesa mesmo assim.
Dias depois, envolto na expectativa de ver o ídolo frente a frente, recebo uma ligação de uma moça quase que gaguejando. A minha mesa havia sido vendida para duas pessoas diferentes e eu teria que ir novamente ao local do show para providenciar a troca.
Pessimista contumaz que era, deduzi logo que iria ficar bem na fila do fundo e mal daria para ver o show. Mais do que revoltado, disparei no velho Kadett preto em direção à Bezerra de Menezes, onde se situava o comitê de vendas dos ingressos.
Sem nem dizer “bom dia”, me identifiquei logo como estudante de Direito, como se fosse um aviso que tinha alguma consciência dos meus direitos de consumidor, e fui atendido por uma jovem e bela moça de olhos cor de ardósia (assim como os olhos do Chico), que com toda a delicadeza possível tentou me explicar o impossível.
Como defesa, apenas argumentei que “não existia alguém que gostasse mais do Chico Buarque em Fortaleza do que eu, que possuía todos os discos, etc.” e que “não admitia ficar numa mesa ao final da casa de shows e blá blá blá”.
A moça, já mais calma, olhos nos olhos, me explicou o seguinte:
“Olha, você já me contou o quanto era fã do Chico, quando veio comprar a mesa. Talvez você nem se lembre, mas eu mesma lhe vendi. Contudo, houve realmente um problema, a mesa 72 fora vendida também para uma Promotora de Justiça que, ao saber do equívoco, fez obviamente a maior confusão, negou-se a trocar de mesa, e até ameaçou me processar”.
Calado me encontrava, calado fiquei ouvindo a proposta dela:
“Pensando nisso, entrei em contato contigo, pois a troca será extremamente vantajosa. Ao invés de ficarem na sétima fila, lhes será reservada a terceira fila, mesa 38, no meio, num local que estava especialmente destinado para familiares do Chico Buarque que não poderão vir para Fortaleza.”
Suspirei aliviado e sem consultar os meus colegas de mesa, Rodrigo, Murilo e Cristiano, também chicólatras assumidos, fechei o negócio e saí cantarolando e saltitante da Casa de Engenho. Seria um show inesquecível.
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]MEIRELES, Lucio Telmo. Quando o olho brilhou – Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2015. p. 09-10

