Iam, enfim, separar-se. A mais moça, e também a mais bela – rapariga estonteante, adorada nos círculos fidalgos, muito alva, muito zelosa do seu rosto de criança, nunca torturado pelo calor de uma luz forte ou pelos vestígios de uma enfermidade devastadora – ainda na pureza ideal dos quinze anos – entrava para a grande confraria das mulheres casadas, para o infinito rebanho das que só têm a perder uns longes de cultivada beleza porventura hostil à idade, porventura rebelde a insônias deleitosas.

Foi n'um domingo. O carro – vistoso coupé chegado de Paris, desflorado pomposamente naquela tarde azul de janeiro – esperava os noivos à porta da igreja, espelhando ao sol.

Dentro, na casa do Senhor, no velho templo de altas torres pontiagudas, um ciciar de vozes tímidas, a calma respeitosa dos amigos e consanguíneos, que se acotovelavam, que se empurravam brandamente para ver o ato solene do "recebo a vós..."

Foi tudo n'um volver de olhos. O padre murmurou as palavras ininteligíveis do ritual, "benzeu" os nubentes, cortando o ar em cruz com a mão aberta, e , cheio de gravidade, cheio de mistério, retirou-se.

Marieta já não era dona de seu corpo: estava casada, indissoluvelmente casada, como tantas que ela conhecia, idosas mães de família, senhoras de grande respeito, carregando, felizes, o soberano orgulho de quem pode e manda; outras humildes, tenras ainda, falando, a cada instante, nos maridos e em coisas domésticas, apregoando virtudes raras, qualidades que se não encontram facilmente; outras, enfim, menos escrupulosas, de gênio insubmisso, preferindo a escandalosa ostentação de uma toilette rica à simpleza honesta da vida conjugal.

Sim, estava casada, era a excelentíssima senhora dona Marieta, esposa de alto funcionário, e já lhe não metiam inveja as amigas...

Cantavam beijos no silêncio religioso das naves, e ela em triunfo, a distribuir flores de laranja, toda nervosa na brancura de suas roupas de virgem, os olhos úmidos de alegria, toda risonha n'uma festa de ave a espanejar-se...

– Parabéns! Parabéns!

Homens graves, de compostura clássica, eretos como figuras de museu, quebravam, por instante, a linha estudada e riam voluptuosamente, fidalgamente, sem bulha, como convém a uma sociedade distinta. Generais em uniforme de gala, o busto coberto de insígnias, o claque de cordões de ouro na mão enluvada, fitas de ouro na calça, dragonas de ouro – curvavam-se em mesuras de bom tom.

– Parabéns! Parabéns!

O cônsul também fora, o cônsul da Grécia, perfumado como uma mulher, todo chic, bigode frisado, o olhar calmo, refletindo sentimentos aristocráticos...

– Parabéns! Parabéns!

O noivo sorria no antegozo da posse conjugal, fazendo-se modesto, indigno de tanta cortesia, de tanta honra, baixando os olhos, derreando-se, aniquilado, e mostrava, sorrindo, o ouro novo de um dente.

Em seguida rodaram os carros, partindo uns após outros, n'uma enfiada, ao sol das quatro horas, o coupé dos noivos à frente, cheio de garbo e dignidade.

A outra, a mais velha, tipo meigo de religiosa fugida a algum mosteiro longínquo, ficara em casa, chorando histericamente, ainda uma vez vencida pela indiferença dos homens, calando no fundo d'alma o seu desespero mil vezes explodido em lágrimas.

Ia viver só agora, ia morrer naquele sombrio palacete dos avós, onde Marieta costumava passar longos meses deliciando-a com as suas histórias de amor e com os seus beijos de amiga.

Resolvera não ir ao casamento; se fosse, morreria de inveja, ela, a mulher desprezada, a infeliz que até ali homem algum requestara e que nunca sentira o calor de um beijo de homem... Todas encontravam marido, todas viviam felizes, n'um céu aberto de gozo – ela somente ia ficando, ia morrendo, sem nunca provar as delícias do casamento.

E era rica, e era educada, e era...

Lembrava-se, então, com imensa tristeza das pobres raparigas sem fortuna, que morrem virgens, porque nasceram feias, porque ninguém as quis para esposas... O que não sofrem essas!...

Na prostração dolorosa em que ficara, esquecia-se a conjeturar minúcias da vida em casal: – a primeira noite, as delicadezas do marido (um belo rapaz de olhar sensual, forte e meigo), os pudores da mulher, as sensações de ambos...

Como devia ser bom, como devia ser belo!

E chorava no meio de todas essas ideias, recolhida ao seu quarto de solteira, ao seu triste boudoir, ao seu ninho ignorado, n'uma aflição de quem perdeu a última esperança, o rosto inundado de lágrimas, que tinham o calor brando de afagos...

Tudo parecia contrariá-la, tudo ria para ela, desde as vivas colorações do poente que se rasgava em púrpuras sobre o mar, até o verde-escuro das montanhas e a alacridade dominical do povo na rua. Palpitavam flâmulas nos arrabaldes, morriam sons de música, orquestrações longínquas na doce transparência do azul; famílias inteiras vagavam perambulando à toa, gozando o Sétimo Dia.

E ela presa, e ela triste, na viuvez da sua alma, compreendendo a alegria dos outros, vendo-a por um prisma de amargura...

Àquela hora ninguém se lembrava da pupila do Visconde, rica e abandonada – abandonada porque era feia!

Àquela hora Marieta recebia felicitações, beijos, abraços, cumprimentos, e até os estranhos corriam à janela para ver passar a enfiada das carruagens, o bando luzido dos coupés...

Nem à noite Regina foi visitar a amiga: pretextou doença, embrulhou-se no grande xale de seda e recolheu-se, quando já não havia luz no horizonte, pungida de desgosto.

– Que se divirta! murmurou caindo no leito. Ficarei só, entre os velhos, na minha tristeza incurável...

No entanto, pela manhã era outra a sua expectativa, outra a expressão do seu rosto pálido. Mesmo em camisa, na quase nudez do acordar, foi ao espelho e sorriu com um tic de despeito nos olhos túrgidos.

Achou-se bela. Os braços nus e polpudos, o decote da camisa evidenciando a nédia robustez do colo, toda essa carnação ignorada, todo esse misterioso corpo de mulher, velado pela cambraia fina, orgulhava-a, fazia-a sentir a delícia de um gozo proibido...

E comparava-se à outra. – Oh, não trocaria a beleza do seu corpo, a correção inimitável de suas formas pela estrutura débil do corpo de Marieta, não trocaria... A grande pena era que esse corpo, dez anos mais velho que o da outra, não pudesse estimular apetites, porque vivia oculto, criminosamente oculto pela roupa – invisível, trancado como hóstia em relicário, à concupiscência dos homens.

Que havia de mais belo na outra?

O rosto apenas, o tenro colorido das faces, o corte da boca escarlate e os olhos (malditos olhos, em verdade, que subjugavam com um poder supremo!)... Tudo isso era nada ante as linhas fidalgas do seu corpo rijo, tudo isso não era mais que uma pequena ilusão...

E remontava à Bíblia, à plástica escultural de Eva nua, tentada pelo demônio da Luxúria; vinha recapitulando mentalmente a história da beleza feminina, e cada mulher consagrada pela Arte era, a seus olhos, um modelo de estética, um admirável conjunto de formosura humana.

Orgulhava-se ainda mais, porque toda a poesia, toda a sublimidade estava, principalmente, na linha dos quadris e do busto, e a esse respeito ela não tinha que invejar a amiga...

Ergueu os braços em curva, defronte do espelho, e começou a toilette.

...Viram-se depois. Marieta apresentou o noivo, fez-lhe o elogio, segredou intimidades; riram ambas – não com a franqueza ingênua d'outrora – mas riram palidamente, cerimoniosamente...

Um belo dia, tempos adiante, a pupila do Visconde soube do primeiro filho de Marieta.

Regina decidiu-se a ir vê-la, por uma curiosidade natural, talvez mesmo por uns restos de simpatia pela amiga. A impressão que esta lhe causou foi de abandono e tristeza. Pobre rapariga! Onde o colorido tenro das faces, onde o rubro escarlate da boca, onde a viva expressão dos olhos, onde tanta beleza? Tudo mudado!

Agora é que a neta do Visconde orgulhava-se profundamente, agora é que sentia, n'uma dolorosa evidência, n'um relevo trágico, a fatalidade das coisas.

O leito largo, de uma brancura límpida de algodão em rama, as rendas caras do cortinado, o bebezinho dormitando, os tons aristocráticos do aposento – nada a preocupava, senão o rosto exangue de Marieta, diluindo-se na meia obscuridade da alcova, eterizando-se quase, volatilizando-se – imagem branca de virgem ciliciada no fundo de um claustro...

Regina fez-se alegre, inventou um sorriso meigo, palrou, disse novidades, muito comunicativa, e retirou-se.

Ah! ia orgulhosa como nunca, porque ainda era a mesma Regina, a mesma mulher na plena exuberância dos vinte e cinco anos – feia de rosto, embora, mas virgem ainda!

N'outro dia Marieta queixou-se: – Um horror o casamento, uma instituição bárbara; mulher alguma devia pensar "nisso".

– Vês? dizia ela. Estou outra, vivo sucumbida, já não tenho alegrias. Olha bem, vê que devastação no meu rosto!

E a herdeira do Visconde exultou.

D'aí a meses, porém, era ela quem se casava com um estrangeiro nobre e rico. Viram-se pela primeira vez no Cassino e houve logo entre os dois uma grande simpatia, um princípio de intimidade.

Não se descreve a alegria do Visconde: escancarou os salões do palacete, mandou vir champagne com abundância, reformou o pessoal da copa, iluminou o jardim, fez tudo para que nada faltasse às bodas.

– Quase trinta anos e ainda solteira! Oh, já era tempo!...

Na rua, nos clubes e em toda parte houve uma grande surpresa:

– A neta do Visconde, hein?...

E enquanto Regina, debaixo do seu véu de noiva, agradecia os cumprimentos de uma sociedade aristocrática e fina, ostentando a pompa das suas joias, Marieta chorava de desespero, vendo-se retraída n'uma tristeza claustral de velha monja...

Ontem – não fazia um ano – todos a cortejavam: – Parabéns! Parabéns! – elogiando-a, gabando-lhe as virtudes morais e a esbelteza do corpo: era o rosto mais querido dos salões, a formosura em pessoa; e agora, meses depois, faltava-lhe tudo, tudo... era "uma simples mãe de família", uma senhora de respeito, – isso aos dezesseis anos!

E acrescentava compungida:

– Nunca mais, nunca mais hei de gozar como nos meus tempos de solteira!

O casamento era um compromisso rude, um fato selvagem... A mulher devia ser eternamente pura, eternamente virgem, eternamente bela.

O marido achou-a triste naquela noite, adivinhou mesmo que alguma coisa se passava no coração de Marieta.

Ela, porém, riu-se, riu-se muito e beijou-o na face: – "Não era nada, que tolice!"

E no dia seguinte acordou feliz, com a imaginação leve e a alma n'um grande júbilo.

A modista chegou exatamente quando ela vestia o seu peignoir branco para ultimar um negócio de assinatura do Lírico. O portador estava à espera...

Regina, a orgulhosa neta do Visconde – essa foi também adquirindo hábitos de menagère, conservando a linha reta do aprumo e da nobreza, guardando sempre a mesma discrição e a mesma teoria do belo escultural...

Veio-lhe, porém, um filho com o andar dos meses, uma criança de encantar, um delicioso bebê. Quase ia morrendo de uma febre logo após os primeiros cuidados do parto. O médico receara um caso novo de traumatismo... Não pensou escapar!

E quando, meses depois, as duas tiveram de separar-se, porque o marido de Regina, o estrangeiro, partia para a Alemanha, choraram ambas copiosamente, n'um longo abraço estertoroso – como se nunca mais houvessem de se encontrar na vida; e em suas lágrimas, no choro soluçado de ambas, refulgia um pesar muito íntimo e desolado – o pesar de nunca mais se verem belas e amadas como "no outro tempo"...

 

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CAMINHA, Adolfo Ferreira. Contos – Fortaleza: Editora UFC, 2002. p.69-76