Cinco da tarde. Reinava, como de costume, uma silenciosa paz de cemitério no pequeno e alegre jardim de Cipriano Gouveia, no Engenho Novo.

Tinha-se acabado de jantar. As plantas dormitavam imóveis, pendidas as folhas numa como indolência mórbida. O ar estava parado, não bolia uma folha e o céu, o inconstante céu fluminense, tinha o turvo aspecto precursor das tempestades.

As belas roseiras, podadas ainda na véspera, lá estavam esquecidas ao pé do muro, lânguidas, quase mortas, sem a opulência triunfal das rosas no mês de maio.

As tímidas violetas, de um roxo tenro e melancólico, no seu ascético recolhimento de monjas ideais e microscópicas; os jasmins do Cabo, esplêndidos e de uma brancura imaculada, engrinaldando trechos de gradil: os resedás, os bogaris, as begônias, todas as flores segredavam tristeza na sua misteriosa linguagem muda.

Gouveia dera-se ao luxo confortável de habitar um pitoresco chalezinho, em S. Francisco Xavier, muito claro e alegre, como um viveiro de pássaros, abrindo para as montanhas friorentas da Tijuca, pintadinho de fresco, isolado, sem vizinhança, com jardim e repuxo.

Havia coisa de um mês que ele morava ali, “naquele ninho de beija-flor”, mais a sua Nicota.

Poucas pessoas se lembravam de os procurar n’aquele remoto cemitério, calmo e sossegado, aonde mal chegavam esmorecidas as aclamações dos esportistas em dias de grand prix no Jockey-Club.

Cipriano não gostava de ruídos, detestava os centros populosos, o tumulto das ruas: nascera para o silêncio, para o amor discreto extramuros, sub tegmine fagi, para a quietação estagnada dos subúrbios.

– Isto mesmo é o que eu ambicionava desde pequeno, dizia: o meu sossego, o meu descanso, a minha paz. Posso dizer como o filósofo: – Eureka!

Embirrava solenemente com a rua do Ouvidor, por onde nem sequer passava ao voltar da repartição, odiava os botequins, revoltava-se contra o dandismo que sacrifica bem-estar e fortuna por uma noite de teatro ou por um fato novo: preferia viver obscuro e tranquilo mais a Nicota em qualquer lugarejo fora da cidade, lendo sistematicamente o seu romance predileto nas horas vadias (era assinante do Rocambole, em fascículos), ouvindo tocar piano ou então cuidando carinhosamente das suas flores e dos seus canários belgas.

O seu ideal era precisamente este: ter uma esposa honesta e dócil e uma santa vidinha sem cuidados domésticos, possuir o menor número possível de amizades, e, sobretudo, não facilitar à Nicota, “esse anjo de candura”, o ruidoso convívio social, tão arriscado para a honestidade feminina nos tempos que correm.

– Não é assim, Nicotinha? dizia ele com meiguices de marido feliz. E doutrinava: – Antes prevenir que ousar...

E atirava-se com atitudes nabalescas na cadeira de vime, saboreando seu rico charutinho Regalia de la reina...

Ultimamente, depois de sua nomeação a oficial de secretaria, pode-se dizer que entoara o hino triunfal do amor!

Vivia feliz, extremamente feliz, economizando cautelosamente, sem avareza, o pouco que lhe rendia o emprego...

Uma vida quieta, monótona, bem-humorado sempre, esquecido do passado, babando-se pela Nicota, que ele coitado, na sua miopia de homem inexperiente, adorava de toda a alma.

– Ainda havemos de ir à Europa, repetia.

Gouveia tinha um amigo íntimo, quer dizer, um amigo que lhe fintava os almoços, que lhe indicava o melhor meio de cruzar canários, que lhe contava anedotas e que lhe entrava pela casa adentro de chapéu na cabeça e charuto no queixo; apenas um – o Luiz Bandeira, um rapagão bem apessoado, que enriquecera nas pagatinas da Bolsa, à força de transações vergonhosas; sujeito metido a amador de cavalos, com fumaças de fidalgo e fama de inteligente.

Nicota a princípio aborrecia o Bandeira; achava-o insuportável e desfrutável com os seus modos de bilontra, com as suas cantilenas de riqueza; mas, pouco a pouco, foi gostando de lhe ouvir as lérias, e, por fim, até começou a estimá-lo como se fosse um parente chegado. E tantas voltas deu, tanto acreditou nas palavras do Lulu, tanto riu de suas cavilações, que este, o grande amigo do Gouveia, um belo dia ousou lhe pedir um beijo, a ela, um só... Nicota, porém, honra lhe seja, recusou formalmente, dando as costas com um soberano desdém ao bilontra.

Todavia (prudência no caso...) nada comunicou a Cipriano: não queria desgostar o marido, não valia a pena dar escândalo: ela saberia proceder d’agora em diante...

E as coisas continuaram como de costume.

– Gosto do Bandeira porque é um rapaz franco e sincero, dizia Cipriano à mulher.

Nicota confirmava:

– Pois não! Muito franco e muito sincero. É o teu melhor amigo. Lembra-te, no dia de meus anos, as magníficas pulseiras que ele me deu?...

– Não... Quais?

– Ó, homem de Deus, aquelas de ouro e brilhante, fingindo uma cobra...

– Ah! sei, sei...

E acrescentou convicto:

– Um excelente amigo!

N’essa tarde, os dois, Bandeira e Gouveia, conversavam, como de costume, ao redor de uma singela mesinha de feno, no jardim.

Tinha-se acabado de jantar.

As plantas dormitavam imóveis...

Nicota escutava-os na cadeira de vime, arriscando por vezes um aparte indiscreto.       – Então pensas que se deve matar crueldade a mulher adúltera, heim?! exclamou com voz firme o Bandeira, cruzando a perna.

– Mas sem a menor dúvida!

Nicota disfarçou uma comoçãozinha, cantarolando o célebre addio do Trovador.

– E’s muito rigoroso, Cipriano! Que diabo! A mulher é um ente quase irresponsável...

– Qual irresponsável! Irresponsável são os loucos e as crianças. Sou justo, sou digno...

– Não tens um tico de razão, meu velho. A raça humana é fatalmente, irresistivelmente polígama, por força mesmo de sua constituição fisiológica. O instinto sexual chega a ser mais forte na espécie humana que nos animais...

Cipriano interrompeu com um risinho de ironia:

– Queres à fina força justificar a mulher adúltera, meu Jesus Cristo...

– Perdão, eu não quero coisa alguma, o que eu quero é provar-te que Otelo, esse personagem medonho, esse tigre ciumento, não existe – é uma mentira dramática, uma ficção shakespeareana e, se quiseres, uma exceção na vida conjugal.

E riscando um fósforo de cera na sola do sapato:

– Lê Balzac, se te queres convencer, procura a Fisiologia do matrimônio, que dizem ser o resultado de longa experiência, e verás que a humanidade, desde o primeiro pai, tem sido e será sempre um eterno e colossal minotauro, por isso mesmo que é instintivamente polígama.

– Ora... mas há exceções, atalhou secamente o Gouveia quase convencido, com um rubor quente no rosto.

– Não direi o contrário, mas o que é certo é que todos querem ser exceções, e o rebanho cresce, a legião aumenta prodigiosamente. Se houvesse estatística...

Começou a chuviscar. O tempo escureceu de repente. Grandes látegos d’água caíam levantando um cheiro forte de terra úmida.

Bandeira deu o braço a Nicota, agasalhando o pescoço com a gola do fraque e o Gouveia, o ingênuo Gouveia seguiu na frente, resignado como um mártir, segurando o lenço em pontas na cabeça para se não constipar.

 

FONTE: Contos. Adolfo Caminha. – Fortaleza: Editora UFC, 2002. p.31-35