Ao se levantar da mesa no restaurante à procura de um café expresso para a digestão, ambos se avistaram. Ela, supreendentemente, acenou com um sorriso, chamando-o pelo nome. Ele, contudo, demorou a reconhecê-la, o que somente fora possível pela voz e pelos olhos esverdeados, ainda expressivos, vívidos. Após alguma indecisão, retribuiu a saudação. Era uma paixão da juventude ali na sua frente e ele não sentia nada ao revê-la. Parecia alguém sem importância alguma.
Conhecia-a desde a tenra infância, aproximaram-se na adolescência, e não a via há quase trinta anos. Achou-a envelhecida e enrugada, uma pessoa desgastada fisicamente. Seu semblante revelava uma mulher que passara por intensos sofrimentos. Não dava para esconder. Perdera muito da exuberância. Pensou em sentar-se e perguntar como estava, todavia, não havia tempo livre para atualizar os assuntos. Desperdiçariam aquela oportunidade e muito possivelmente não haveria outra.
A esposa que o acompanhava, mãos entrelaçadas, ao notar alguma hesitação, perquirira quem era aquela senhora. Ele respondeu que não era ninguém. Mas era alguém, sim. Alguém que há muito tempo o desprezara na pureza do seu amor, daqueles tímidos, de intermináveis papos nas calçadas e de esperar aflito no portão, pois moravam em ruas paralelas. Do tipo de ouvir música, de ir ao cinema, de indicar leituras, de mandar dedicatórias, fitas cassetes, chocolates, buquês, cartões postais, cartas.
Lembrou-se de que nunca fora correspondido, de fato. O amor não brotara dentro dela, que, entretanto, gostava de seduzir, incentivava, brincava, dava corda, iludia-o. A paixão seguira platônica até que resolveu confessá-la, banhado de um ansioso suor, numa casa de shows cujo ingresso fora adquirido a duras penas para impressionar num momento em que se recuperava de uma grave infecção e estava impossibilitado de fazer extravagâncias. Sabia que ela gostava do cantor e queria agradá-la. Dane-se a doença.
Ao pedi-la em namoro, não se recordava da resposta dela. Se ia pensar, se eram apenas bons amigos ou irmãos do coração, se queria privilegiar os estudos ou queria um homem rico. Ou se bastava a si só, na sua solitude. Ou se ele era feio, desinteressante, limitado intelectualmente. Ou tudo isso junto. Bem provável que ela tenha dito que havia um cabeludo na sua vida e o reencontrara naquele mesmo show. Relembrava somente de ter bebido muito depois do que ouviu.
Ao acordar no dia seguinte, com febre alta, tomado pela decepção, a perna começava a inchar, fruto do problema de saúde. Parecia que ia convulsionar. Aquele, pensava, seria um ótimo dia para se morrer de amor. A cabeça pesava, a boca estava seca e, apesar da tristeza profunda, sofria sem revolta. Torcia ainda pela felicidade dela. As pessoas ligavam com planos, um cinema, um sorvete, um churrasco... nem atendia. Jogo na tevê não interessava. Não conseguia se levantar por causa das dores lancinantes. Tomado por calafrios, não havia outra saída, correram com ele para o hospital. Passou dias internado. Em seguida se curou.
Ela, de quem pouco teve notícias após aquela noite, se alimentava de incessantes jogos de sedução. Fazia bem para o ego e para a autoestima. Ele, por sua vez, inexperiente, não compreendera isso. No entanto, aprendeu que não se deveria morrer por ninguém. O tempo haveria de sarar a dor daquela rejeição. Ao tocar sua vida, ele mudou de rua, de bairro, de cidade, de país e, certamente, voltaria um dia para sua terra. Sobreviveu a outras crises, mas encontrara a felicidade com outra pessoa.
Percebera, com a maturidade, que não adiantava tentar antecipar o desenrolar de uma paixão. Deve deixá-la transcorrer naturalmente, sem pressa. Se tivesse morrido por aquele amor não correspondido, seria por alguém que mal reconheceria anos depois numa mesa de restaurante. Não valeria a pena. Hoje entende que sofrera por um amor precipitado. Se chegou antes da hora, é porque nunca fora amor.
O amor chega sempre na hora certa.


