Abro a janela e olho para lá do horizonte. Vejo o sol surgindo de dentro das águas azuladas. Estou no meio da grande orla côncava. É muito cedo ainda, mas este sol é danado de madrugador. Esta paisagem não me é desconhecida: tive-a menino, em Fortaleza. Só que eram os verdes mares alencarinos, com palmeiras e jandaias.
Dona Otília dizia: acorda, preguiçoso, e vai tomar banho de sol, que os raios agora são tónicos, não queimam, transformam as vitaminas. Dona Otília era formada pelo "O Médico Caseiro", sabia de muitas coisas úteis, dava prejuízo aos médicos. Eu só não gostava era dos remédios para lombrigas e dos clisteres contra febre. No resto, era bem mais eficiente do que o Doutor Eduardo.
O que eu lamento é que os mares de Camboriú não possuem gaivotas. Não vi, até hoje, uma única. Podia ser biguá mesmo, que é gaivota de pobre, ave nacionalista. Um mar sem gaivotas é um mar incompleto. É como um lago sem cisnes ou como um parque sem cotias.
Disse-me um paulista quatrocentão que os cearenses foram os responsáveis pelo desaparecimento das cotias dos parques de São Paulo. Faz tempo, mais de quarenta anos! Quando os voluntários do Ceará vieram lutar (eles diziam brigar!) na Revolução de 32, incorporados às Forças do Governo, acamparam nos jardins da cidade grande. Foi o suficiente, me disse o constitucionalista: meus conterrâneos comeram todas as cotias municipais, e ainda as chamavam de preá do sul.
São recordações que esta manhã de sol provoca, que este mar imenso estimula, até porque somos escravos do passado e recordar faz bem, rejuvenesce.
Já começam a chegar os primeiros banhistas: os mais velhos, os mais gordos, os menos estéticos. Logo mais eles terão partido e as areias serão tomadas por uma selva de criaturas jovens, robustas, coloridas. É que os mais idosos, nos tempos atuais, temem a crítica e a irreverência dos que não acreditam na ação desgastadora do tempo.
Outra coisa que tenho sentido falta: dos navios. Nenhum a cruzar as águas agitadas, nem para o Sul nem para o Norte. Por onde passam os vapores destinados ao Rio Grande, à Argentina? Por qual túnel trafegam os que vão em direção a Santos ou ao Rio de Janeiro?
Pelos mares de minha infância cruzavam navios de todas as nacionalidades. Apanhava o binóculo do Velho e os inspecionava demoradamente, até se perderem de vista. Foi assim que aprendi a identificar as bandeiras estrangeiras. A mais linda, para mim, era a inglesa, talvez porque achasse muito bonita a filha do Cônsul, curtisse por ela um amor secreto.
O dia aqui é longo e curtas são as noites. É bom, muito bom mesmo, sentar numa mesa de calçada e encher os olhos de mulheres coloridas, tostadas pelos raios solares. Os biquinis são sumários, e não poderiam ser mais curtos, pois atentariam contra o pudor público, no enunciar do Código Penal. Os rapazes são lobos vorazes, pastoreando as ovelhas raramente brancas.
Se não houvesse inverno e outono, creio eu, haveria menos crime e mais amor. Um sol assim, uma praia assim, tantas mulheres assim, não permitem que a gente pense em delitos contra a vida ou contra o patrimônio. Somente em amenidades e prazeres.
Até os coroas estão despertos: deixam suas companheiras em casa e retornam de bermudas, camisas abertas ao peito, e também apascentam suas ovelhinhas atrevidas. Todos nós, maduros, passados e jovens, somos pastores atentos aos rebanhos na manhã de luz.
Daqui a pouco o encontro com os amigos, o voleibol de praia, o banho de chuveiro, o aperitivo para o almoço, o sono da tarde, a leitura ligeira. A noite chegará com suas estrelas fugazes, a brisa amena, o uísque no Dimas ou no Porão 170.
As madrugadas serão leves, plenas de sonhos e desejos, embaladas pelo álcool e pela música. No caminho da volta, se houver disposição, é sempre belo assistir ao parto sangrento da aurora, pois o dia já se anuncia, e todas as coisas se repetirão cronologicamente, até que o verão se finde.
*Nascido em Aracati-CE, o escritor Holdemar Menezes consagrou-se na ficção. Em 1972, conquistou o Prêmio Jabuti de Literatura com a célebre obra "A Coleira de Peggy".
__________________
MENEZES, Holdemar. A Vida Vivida: crônicas. — Florianópolis: Ed. Da UFSC/ Ed. Lunardelli, 1983. p. 33-34.

