A Euterpe Operária era dos trabalhadores da Fábrica de Tecidos Santa Teresa. "Constituiu-se em uma boa escola de música", refere Ezequiel Silva de Menezes que aponta detalhe curioso: "a Euterpe Operária não tinha partido político, mas simpatizava com as vitórias da Filarmônica Figueiredo..." (21, p. 11)[1].

A iniciativa de sua organização teria sido dos empregados daquele estabelecimento fabril. O estandarte da banda era sempre conduzido em suas andanças para exibições ou apresentações na cidade. [...] a Euterpe Operária, com seus integrantes uniformizados, ostentando o "estandarte" da corporação, em frente ao prédio n.º 759 da rua Conselheiro Liberato Barroso (antiga rua Grande), então de propriedade e residência do Cel. Alexandre Matos Costa Lima, por volta de 1916 ou 1917, certamente, no desempenho de missão, como participante de homenagem a alguma destacada personalidade do município.

Na foto seguinte a esta, novamente, a Euterpe Operária, desta vez na calçada da casa de "beira e bica", n.º 696, onde funcionava o Gabinete Aracatiense de Leitura. O prédio em referência era um dos quatro doados à Municipalidade pelo "Visconde e Viscondessa de Messejana para serventia da Instrução Pública", o qual, "conforme cláusula dos doadores seria destinado ao Gabinete Aracatiense" e deveria "reverter à Municipalidade, quando o Gabinete deixasse de existir". (1, p. 138)[2]. Apontado prédio de beira e bica foi lamentavelmente destruído pelo Governo do Estado do Ceará para, em nova edificação, instalar a Agência da Secretaria da Fazenda, conhecida por Coletoria Estadual. (16, ps. 69 a 72)[3]. A respeito da "sociedade" aí instalada, Ezequiel Silva de Menezes, para melhor expressar o seu pensamento, neste particular, faz esta indagação:

"Qual o aracatiense da velha guarda que poderá esquecer o Gabinete de Leitura, instituição educativa que reuniu a fina flor da intelectualidade conterrânea?" A seguir, esclarecendo: "Fundado em fins do século XIX, o Gabinete possuiu prédio próprio para sua sede, onde instalara volumosa e bem-organizada biblioteca, a melhor do Ceará, naquele tempo. Manteve escola noturna para rapazes e, na sua parte literária, realizou memoráveis sessões culturais, verdadeiros prélios tribunícios". (21, p. 6)[4].

 E Antônio Bezerra, em artigo publicado no Almanaque do Ceará para 1902, salienta por sua vez que o Gabinete Aracatiense de Leitura sustentava o jornal Jaguaribe, "que fez a sua aparição em 1887, e tendo interrompido tempos depois a publicação, reapareceu em 14 de julho de 1895". (1, p. 141)[5] O mesmo autorizado informante, com referência à sua biblioteca, conta que esta mantinha sob sua guarda mais de dois mil volumes e que era assiduamente frequentada. (1, p. 141)[6]. "Esta instituição, criada em 1861, chegou até 1917, sendo seu último presidente o ilustrado, renomado professor e querido aracatiense monsenhor Bruno Rodrigues da Silva Figueiredo, de saudosa memória" (21, p. 6)[7], vigário da Paróquia, de 15 de abril de 1915 a 29 de setembro de 1930. (15, p. 217)[8].

A revista A Estrella, de janeiro de 1918, após o registro da notícia da presença do arcebispo de Fortaleza, o Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Dom Manuel da Silva Gomes, na Paróquia e dos trabalhos aí desenvolvidos, aponta, entre as últimas homenagens prestadas ao ilustre antístite, o comparecimento ao ponto de seu embarque, a 2 de dezembro de 1917, da corporação musical Euterpe Operária e do Tiro de Guerra. (28)[9].

* * *

O jornal O Jaguaribe, de 3 de janeiro de 1932, foi pródigo em detalhes ao relatar as tradicionais novenas "celebradas em louvor do Senhor Bom Jesus do Bonfim, entre 22 de dezembro de 1931 e 1º de janeiro de 1932, em sua simpática Capela, ora dirigida pelos padres jesuítas". (5)[10]

"Iniciada a 22 de dezembro com a cerimônia da Bandeira, partindo da Igreja Matriz, conduzida por um grupo de senhorinhas e crianças e hasteada ao som de cânticos, em frente daquela Capela, local onde, nas noites de 23 a 31 desse mês, o reverendíssimo padre Manuel Antônio Pacheco S.J. oficiara o novenário, com pregação e Bênção do Santíssimo Sacramento. Diariamente, Missa cantada, às 7 horas, com comunhão geral dos integrantes das associações religiosas da paróquia. No dia 1º de janeiro, Missa solene e sermão às 10 horas; à tarde, solene procissão, como de costume, pelas principais ruas da cidade, com grande afluência de fiéis".

Em todos os dias da novena, a presença da popular e garbosa Euterpe Operária. Nos três últimos dias, as festas foram abrilhantadas com a galhardia e vivacidade da famosa Euterpe Afonso Lima de São Bernardo das Russas. Mais uma vez, acentua o mesmo jornal, o povo de Aracati deixou patente o seu amor ao Senhor Bom Jesus do Bonfim secundando os esforços do seu incansável Vigário. 

* * *

"Revestiu-se de extraordinário esplendor o novenário (com a acepção de novena) em honra de São Sebastião, celebrado na Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, de 10 a 20 de janeiro de 1932, revela a edição do O Jaguaribe, de nº 80". (6)[11]

"No dia 10, à tarde, a cerimônia do hasteamento da Bandeira, em frente àquela Capela, vinda da Igreja Matriz, acompanhada de grande cortejo de senhorinhas e crianças. De 11 a 19, a novena, às 19 horas, com pregação todas as noites pelo reverendíssimo vigário da Paróquia. No dia 20 pela manhã, a Missa solene celebrada pelo reverendíssimo padre Antônio Nepomuceno, acolitado pelo reverendíssimo padre José Celestino, Superior dos Jesuítas no Ceará, e pelo seminarista arquidiocesano de Fortaleza, Jonas Barros. No evangelho pregou o padre José Celestino, de maneira brilhante, como era de esperar de seu talento e cultura, fazendo o panegírico do soldado mártir, confessor de nossa fé. À tarde, imponente procissão percorreu ruas da cidade, voltando à Capela de Nossa Senhora dos Prazeres para o encerramento das homenagens a São Sebastião, com substancioso sermão do reverendíssimo padre Manuel Antônio Pacheco e, por fim, a Bênção do Santíssimo. Emprestaram realce ao belo cortejo processional, doze artísticos andores com imagens de São Miguel, São João Batista, São Luís de Gonzaga, São Vicente de Paulo, São Francisco Xavier, Santo Antônio, Santa Luzia, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora dos Prazeres, São Geraldo, São Pedro e São Sebastião; ... componentes de várias associações religiosas e grande massa popular. Ressalte-se, como diz ademais O Jaguaribe, nº 80, edição de 24 de janeiro de 1932, a colaboração prestimosa e dedicada da Euterpe Operária, presente em todos os atos do período de duração das festividades de São Sebastião". 

A reportagem do O Jaguaribe acrescenta que,

"para maior brilhantismo da festa, veio da capital do Estado, atendendo a convite da comissão organizadora do novenário, a Lyra São José, renomada banda de música do Círculo dos Operários e Trabalhadores Católicos de Fortaleza. Acompanharam a banda citada o presidente daquele Círculo, o nosso querido e simpático conterrâneo José Agostinho da Silva e vários associados daquela agremiação". (6)[12]

__________________________________

LEAL, Hélio Ideburque Carneiro. Bandas de Música de Aracati – Aracati-CE. Minerva, 2003. p. 45-55



[1] MENEZES, Ezequiel Silva de. O Aracati e sua Vida Cultural e Jornalística. Imprensa Oficial. Fortaleza. Ceará. 1946

[2] BEZERRA, Antônio. A Cidade de Aracati. Almanaque do Ceará para 1902. Fortaleza. Ceará.

[3] LEAL, Hélio Ideburque Carneiro. Singelo Documentário de Alguns Atentados ao Patrimônio Cultural da Cidade de Aracati —1940-1994. Fundação Edson Queiroz. Universidade de Fortaleza. 1995.

[4] MENEZES, op. cit., p. 6.

[5] BEZERRA, op. cit., p. 141.

[6] Ibidem.

[7] MENEZES, op. cit., p. 6.

[8] LEAL, op. cit., p. 217.

[9] A ESTRELA. Aracati, CE, n. 48, nov. 1915.

[10] O Jaguaribe. Aracati, CE, n. 77, 3 jan 1932.

[11] O Jaguaribe. Aracati, CE, n. 80, 24 jan 1932.

[12] Ibidem.