Não nos foi possível chegar ao fim da meada, à procura de dados que nos esclarecessem data precisa do surgimento inicial de uma banda de música, como corporação criada e mantida sob a responsabilidade de algum órgão oficial da Prefeitura Municipal de Aracati, anteriormente a Sete de Setembro de 1978, dia da criação do presente grêmio musical. 

Atividades dessa natureza, no período de tempo precedente podem ter existido, todavia, tudo indica, não foram devida e oportunamente registradas pela mídia coetânea pesquisada ou setores competentes da municipalidade.

Ouvidos os músicos Bruno Sebastião da Costa (em 23 de maio de 2002, completando 83 anos de idade) e Pedro Alves de Matos (em 29 de junho de 2002, com 77 primaveras), somente este último se recorda de uma “banda de música” que teria dado por terminada a sua missão no final do mandato do prefeito Mário Porfírio Lima. Acontece, porém, que citado político exercera as funções de Prefeito Municipal de Aracati, cinco vezes: de 31 de agosto de 1939 a 3 de janeiro de 1940 (interinamente); de 20 de fevereiro de 1940 a junho de 1940 (interinamente); de 31 de julho de 1940 a 1º de julho de 1941 (interinamente); de 5 de novembro de 1941 a 5 de agosto de 1944 (interinamente) e de 5 de agosto de 1944 a 3 de dezembro de 1944 (em caráter efetivo). (16, p. 142)[1].

Em assim sendo, poder-se-ia, talvez, admitir a existência de uma banda municipal exercitando suas funções durante o período dos citados mandatos de mencionado Prefeito (Agosto de 1939 a dezembro de 1944).

Nos termos de depoimento do maestro da atual banda municipal Carlos Alberto Ponciano do Nascimento, esta foi criada na administração do prefeito Antônio Kleber Alexandre Gondim (janeiro de 1977 a junho de 1982), no dia, mês e ano acima indicados, com a denominação de Jacques Klein, constituída por dezoito figurantes, tendo como regente José Cordeiro de Araújo.

Dessa primeira composição, permaneceram entre seus integrantes, até hoje (07.07.2002), cinco membros fundadores: Bruno Sebastião da Costa, Pedro Alves de Matos, Francisco Baltazar Filho, José Leonardo Lameira e Carlos Alberto Ponciano do Nascimento.

Na realidade, Aracati palmilhou período de tempo na adversidade, apontando-se fatores, mais ou menos próximos ou remotos (êxodo das populações interioranas, com início em fins de 1877; construção, a partir de 1870 e conclusão da Estrada de Ferro de Baturité; polarização do movimento comercial pela Capital; desenvolvimento mais acentuado e extensivo da cultura do algodão no Estado; decesso frontal experimentado em suas atividades de centro exportador; entraves advindos do falho sistema rodoviário à sua disposição etc.) desta sua tão acerba situação de desconforto que se lhe apresentava tumultuando seu dia-a-dia, por vezes, acrescido da humilhação de chacotas e remoques, alvo que passou a ser de motejos como este de “terra do já teve”.

Todavia, em momento algum deixou de ser a “região daqueles homens preocupados... que não enxergam na terra natal apenas o chão onde pisam”, parafraseando o que já se disse alhures (15, p. 224)[2]; pari passu, a costa de litoral especialmente propício à captura da lagosta e de águas piscosas; terra de extensos carnaubais; abrigo excelente de atividades artesanais de palha de palmeiras; ponto de especial referência na confecção de rendas de almofada e do labirinto, prendas domésticas tradicionais de arte popular nordestina inteiramente realizada por mulheres, especificamente, com excepcional especialização nesse labor; terra do intensivo cultivo do cajueiro, industrialização da polpa do caju e de sucos de variegados frutos, artefatos de argila, salinas etc.

Justamente aquele povoado que em determinada fase de sua história, singularmente, crescia quase que somente na proporção, em função e na dependência do desenvolvimento de seus negócios de carne.

* * *

Entre as décadas de 30 e 60, das seis bandas mais atuantes, desde tempos acentuadamente recuados, mais credenciadas, que vinham resistindo, senão com desenvoltura, o faziam com galhardia e entusiasmo, lembra Carlos Alberto Ponciano do Nascimento, sem, contudo, precisar, a contento, seus nomes oficiais, que quatro delas teriam atingido a década de 60.

E acrescenta que já nas décadas de 60 e 70, aludidas corporações teriam atravessado situação nunca antes experimentada... o que, de certo, provocara esta sua exclamação que bem expressaria a angústia que a todos vinha afligindo: “o povo ficara sem ouvir (maneira de dizer...) dobrados, xotes, valsas, maxixes e tantos outros gêneros de música (tal a estranha redução das atividades das bandas em seus quefazeres habituais...)”, “os instrumentos musicais se calaram, ficando pelas tortas ruas de nossa cidade apenas o solo dolente do Aracati” (brisa que sopra do mar).

Justificável desabafo do maestro penalizado.

As bandas de música sempre tiveram seu lugar reservado no coração das sociedades interioranas. Nada as substituía. Era uma presença estimada, desejada, reclamada. Sua ausência sentida, lastimada.

No setor das atividades artísticas, cívico-culturais, parte componente, distinguida, lembrada com afeição, ternura.

Na verdade, a população em tal estado de espírito, deveria sentir-se como que magoada, ante a omissão percebida, não se encontrava a si mesma, era algo afim que se ausentava e, assim isolada, visitava-a a insegurança, o desalento em meio a essa inexplicável desconformidade da conjuntura do mundo de hoje.

Passar ...

Quem admitiria passar ...

Sem ver a banda ...

“Passar, sem ver a banda passar!”

 

Há de procurar valer-se, destarte, de princípios basilares, necessidade insuperável, que sustenham sua vital espiritualidade, o sentido e a orientação tradicionais de sua existência.

Oportuno repassar, aqui, memorar, penetrar ensinamentos contidos nestes excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira (23, ps. 196 e 197)[3]:

Um mosaico, uma música

A mais alta finalidade das criaturas contingentes é representar a Deus. 

Para isso, é preciso que se apoiem umas nas outras a fim de formarem um todo, porque, caso contrário, elas não representam a Ele. 

São como as peças de um mosaico que representam uma cena. 

Ou as peças do mosaico estão articuladas entre si, ou são meros caquinhos de esmalte ou de vidro. 

É o reconhecimento harmônico da insuficiência e da complementaridade que acaba de nos dar a semelhança com Deus.

Assim informados, ou melhor, assim bem-informados, os caminhos se aclaram, desanuviam, aplainam, como que se transfiguram. Dificuldades, obstáculos, sobressaltos sempre os teremos, quiçá existam, exsurjam, se apresentem para que os superemos, sejam transpostos, ultrapassados, vencidos.

Aparências, sim, quase sempre nos enganam. Válida a advertência de Luís Vaz de Camões, o imortal vate lusitano: “não haja em aparências confiança”.

E desprezado seja o enunciado de Cecília Meireles (19, p. 23)[4] “... mesmo as pedras com o tempo mudam”.

A nosso ver, foi longe demais a festejada poetisa carioca. Palavras com assertiva que merece reparo, em especial da cidade amada, pois ali não encontraria confirmação, guarida, a temerária asserção.

Sensibiliza, edifica o que sempre ocorreu com as bandas de música de Aracati. Há mais de um século, permanecem em cantinho privilegiado, que jamais mudou, na afabilidade, ternura, sentir do coração de sua gente.

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LEAL, Hélio Ideburque Carneiro. Bandas de Música de Aracati – Aracati-CE. Minerva, 2003. p. 89-101



[1] LEAL, Hélio Ideburque Carneiro. Singelo Documentário de Alguns Atentados ao Patrimônio Cultural da Cidade de Aracati – 1940-1994. Fundação Edson Queiroz. Universidade de Fortaleza.1995. p. 142

[2] LEAL, Hélio Ideburque Carneiro. Igreja de Nossa Senhora do Rosário: A Matriz de Aracati. Ceará. 1998. p.224

[3] OLIVEIRA, Plínio Corrêa de. À procura das almas com alma: Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira recolhidos por Leo Daniele. Edições Brasil do Amanhã. São Paulo, 1998.

[4] MEIRELES, Cecília. Nossos Clássicos. Poesia, vol. 107. Livraria Agir Editora. Rio de Janeiro. 1974. p. 23