Enquanto Jacques se reconciliava com a música clássica, desembarcava no Rio, para uma série de concertos, o pianista americano William Kapell, considerado então o maior talento musical de sua geração, e que veio a tornar-se, pouco tempo depois, peça fundamental na carreira de Jacques.
Depois de ouvir Kapell tocar, Jacques resolve viajar imediatamente aos Estados Unidos para tentar estudar com ele. Contou com a fraternal generosidade de Carlinhos Guinle, cujo patrocínio financeiro foi crucial para a continuação dos estudos de Jacques, seguindo, como afirma Maribel Portinari, "uma tradição de mecenato familiar que já proporcionara idêntica oportunidade a Villa-Lobos e Eleazar de Carvalho".
José Amadio assim descreveu o primeiro encontro de Jacques com Kapell:
Já nos Estados Unidos, após dois meses de patrulha cotidiana, Jacques conseguiu ser recebido pelo pianista. Kapell falou:
— Não sou professor.
— Quero apenas conselhos. Quero que você me ouça tocar.
— Então toque.
Gente demais no grande apartamento. Conversas. Zunzum. Jacques esboçou uma balada de Chopin (a 4ª., parece). Após os primeiros compassos, Kapell levantou a cabeça e disse:
— Comece de novo.
Ouviu entre surpreso e concentrado. Falou:
— Você vai estudar comigo. Dentro de quatro anos não haverá mais Kapell, mas Jacques Klein.
Jacqueline Klein faz dois reparos à versão de José Amadio sobre o primeiro encontro de Klein com Kapell. Diz a irmã do pianista que no apartamento do americano só estavam este, a esposa e dois estudantes, além de Jacques, e que Kapell mandou os dois rapazes irem embora e ficou até tarde da noite com o futuro pupilo, após ouvi-lo.
Kapell vira em Jacques seu sucessor. Ironia do destino: quatro anos depois desse episódio, Kapell, aos 31 anos de idade, no ápice de uma brilhante carreira, morreu num desastre aéreo no mesmo dia em que Jacques fazia seu primeiro concerto profissional, em Genebra. Só foi informado da morte de Kapell no dia seguinte.
Para quem acredita em predestinação, vale a pena relembrar aqui uma história bem curiosa, contada por Edith Pinheiro, prima de Jacques, e confirmada pelo próprio artista, que de certa forma reforça a ideia do "destino traçado", tão a gosto daqueles que acreditam e defendem as buenas-dichas ou imposições do destino.
Eis o que Jacques contou à sua prima Edith:
Em Nova York, quando tinha 18 anos e já estava de pazes com a música clássica, — bom, você sabe que durante um certo tempo eu só queria saber de jazz —, estudando feito um louco, uma amiga minha, Evangelina Rocha Miranda, me levou a um escritório (!) organizadíssimo onde se faz estudos científicos, através das mãos. Explico-me melhor: é uma paródia de psicanálise completa, e pelas mãos, impressões digitais e umas perguntinhas, a Senhora Ann Koernig (que se intula 'Career Counselor' e só atende com hora marcada, a uma pessoa de cada vez) lhe envia posteriormente uma papelada enorme, datilografada, muito bem apresentada, com a previsão da carreira que você seguirá. Isso, de fato, eu vou lhe mostrar, me impressionou. No tal estudo você verá que ela acertou muita coisa.
Dentre as coisas vaticinadas pela Sra. Ann Koernig estava a carreira de grande sucesso como pianista clássico que o futuro confirmou.
A temporada de dois anos em Nova York, os estudos com Kapell e o encorajamento de colegas e amigos, deram a Jacques o incentivo que faltava à sua carreira. O grande desgosto que teve, nesta época, foram as aulas de Madame Wengerowa, uma russa solíssima, muito requisitada na Big Apple, com quem estudou antes de Kapell ter lhe dado várias aulas na condição mais de amigo que professor. Wengerowa chegou a fazer Klein perder a paciência quando tentou corrigir até mesmo o modo como postava as mãos no piano. Não gostava dela e foi com alívio que a abandonou.
Novos sonhos e voos tinham ainda que ser realizados por este jovem de perspectivas tão promissoras. Assim, logo após regressar ao Brasil, seguiu o conselho de Frederich Gulda (uns dizem que Jacques conheceu Gulda em Nova York enquanto outros afirmam que foi no Rio, em uma jam session) e rumou para Áustria, visando aperfeiçoar-se com o professor Bruno Seidlhofer, na Academia de Música de Viena.
Esta temporada foi das mais proveitosas e profícuas, como ele mesmo afirmou:
Quando estudei em Viena, tive a oportunidade de ouvir artistas como as cantoras Elizabeth Schwarzkoff e Christa Ludwig, sempre sob a regência de Karajan, em interpretações diárias, com pequenas óperas, como Cosi fan tutte. Isso me deu a verdadeira base do fraseado, da respiração musical. E ouvi pianistas da velha escola alemã como Kempff, Backhaus, que tocavam muito em Viena, assim como Gieseking.
Em Viena fez amizades com outros alunos de Seidlhofer: Carmen Adnet e seu marido Hans Graf, Giuliano Montini, Maria Augusta Menezes de Oliva e Lucy Salles. Sobre seu mestre, Bruno Seidlhofer, Jacques disse ser ele:
(...) o melhor professor do mundo. Mas é difícil explicar porquê: Seidlhofer é tanta coisa ao mesmo tempo que não sei por onde começar. É, essencialmente, um enorme talento pedagógico. Sua capacidade de transmitir é excepcional. E de transmitir, sobretudo, com clareza e uma concisão absolutas, dando a indicação exata no momento preciso. É desses mestres que possuem o dom de apresentar os mais complicados problemas de um modo absolutamente simples, e de valorizar ao máximo as coisas mais simples. A gente reaprende com ele até a ler música.
Oito meses depois de chegado a Viena, Jacques se inscreve no concurso internacional de piano, em Munique, Alemanha, obtendo o segundo lugar. Não se contentou. Tinha sonhos mais altos.
O concurso internacional que acontecia em Genebra, na Suíça, mundialmente conhecido como o Concurso Internacional de Execução Musical, era o mais importante concurso musical do mundo naquela época. Desde 1948 não dava primeiro lugar a ninguém; o melhor sempre ficava com o segundo prêmio. Tirar, portanto, o primeiro lugar neste concurso era uma façanha olímpica.
Jacques não se deixou intimidar por este gigantesco desafio. Sempre acompanhado pela mãe, educada na Europa e fluente em inglês, francês e alemão, retirou-se para uma pequena cidade suíça onde passou a praticar horas a fio, o que o fez emagrecer demasiadamente.
Inscreveu-se no concurso de 1953 e, para surpresa geral, não somente da Europa, mas do mundo inteiro, sua performance foi tão espetacular que conquistou o primeiro lugar por unanimidade, entre 114 concorrentes de 33 países. Esta vitória deu ao Brasil, pela primeira vez na sua história, uma primeira colocação em concurso internacional de grande relevo.
A seriedade do concurso podia ser medida pelo fato de que a banca examinadora, dizem, nem sequer tinha a oportunidade de ver os candidatos concorrentes, ficando atrás de cortinas e dispondo apenas do número do pianista executante para realizar o julgamento.
O júri era composto de grandes regentes, pianistas e músicos famosos. Obter o prêmio máximo, assim, era mais do que uma conquista. Era a própria glória, segundo alguns proclamavam.
As notícias divulgadas pela imprensa logo após o evento que consagrou Jacques são contraditórias em alguns pontos. Da pesquisa de vários textos, somadas aos relatos da família, concluiu-se que os fatos a seguir são os que mais se aproximam do que verdadeiramente se passou.
Na primeira prova, eliminatória, Jacques executou a Overture Francesa de Bach, a Sonata op. 111 de Beethoven e a Quarta Balada de Chopin. Recebeu média 9, jamais alcançada em concursos anteriores. Restaram somente 18 candidatos para continuarem a prova: 10 homens e 8 mulheres dos 114 iniciais. Todos os demais passaram com notas inferiores à de Jacques.
Realizada a segunda prova, restaram apenas 3 rapazes e 3 moças, sendo Jacques, por unanimidade, considerado o primeiro por ordem de mérito a tocar com orquestra no dia seguinte.
Na etapa final, Jacques teve que se apresentar no Victoria Hall, o maior teatro de Genebra. Desta vez, a apresentação era pública, o que atraía grande número de espectadores. Na plateia, a um só tempo aflita e confiante, sua eterna escudeira, Dona Gasparina.
Jacques foi o penúltimo a apresentar-se. Tocou por quase uma hora o Concerto para Piano e Orquestra de Tchaikovisky; quando concluiu sua apresentação, o auditório veio abaixo. Nas palavras de um jornalista presente:
Os aplausos abalaram as paredes e os gritos de 'bravô', 'bravô' feriam os tímpanos da assistência emocionada. De pé o público gritava o nome de Jacques Klein, o brasileiro de Aracati.
Dizem que até mesmo o júri – proibido comumente de se manifestar – aplaudia entusiasticamente. Jacques teve que voltar ao palco cinco vezes, pois os aplausos exigiam-no. Alguns dos presentes ao espetáculo relataram que o diretor do teatro mandou fechar o palco e apagar as luzes. Não adiantou muito a medida: o público obrigou Jacques a retornar para mais uma execução, a Quarta Balada de Chopin, a música mais apreciada por Dona Gasparina.
Na saída foi assediado por muitos jornalistas e empresários que queriam conhecê-lo. E o júri ainda não havia sequer dado o veredicto final! Os admiradores foram para o Café Lyrique esperar o resultado. O anúncio confirmou o que todos pressentiram: o júri lhe concedera o primeiro lugar, por unanimidade, fato jamais acontecido na história do concurso. No dia seguinte, o nome de Jacques Klein estava estampado nos principais jornais europeus com os mais consagradores elogios dos mais importantes especialistas europeus de música clássica.
Como era de esperar, logo após este gigantesco triunfo Jacques recebeu convites para concertos e recitais em todo o mundo.
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BEZERRA, Agamenon. Jacques Klein. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2006. p. 35-44

