Nesta entrevista, Guimarães Silva (UECE) revela como o Jaguaribe molda vozes, memórias e imaginários, unindo ancestralidade, ecopoética e resistência cultural na escrita jaguaribana.
MARCIANO PONCIANO- O texto "Por uma literatura jaguaribana", de sua autoria, mostra como a vida às margens do Rio Jaguaribe inspira a nossa forma de falar, escrever e contar histórias. De que maneira a convivência com o rio — entre os tempos de cheia e os de seca — se reflete nos livros e poemas dos autores da nossa terra?
GUIMARÃES SILVA- O Jaguaribe é o mundo. Quem leva a vida sob a influência de suas águas sabe que tanto a vida quanto a morte vêm do rio. A permanência de uma memória ancestral e a irrupção violenta do esquecimento também vêm dele. Verdadeira coincidentia oppositorum, o Jaguaribe guarda em seu leito potências criativas e potências destrutivas. É a esperança juazeira de quem sofre sob o sol, inclemente, a seca do sertão, mas jamais deixa de ser também o desespero súbito de quem assiste à queda do céu. Perante a fé de sua gente, dilacerada entre deserto e dilúvio, o rio manifesta assim a face palpável da existência de Deus.
Quem escreve às margens desse rio (Jaguaribe) inscreve o rio em tudo o que escreve.
O Jaguaribe ensina o ritmo do tempo, graças ao compasso invisível de suas onças vaporosas. Na babugem viridente de inverno, na poeira em redemoinhos de verão, a natureza dança inteira ao som das águas: a terra treme... o mato medra... o vento evém... a nuvem vai... o sol há sempre. Em tudo, uma leveza de cores, cheiros, sons e sabores.
Quem escreve às margens desse rio inscreve o rio em tudo o que escreve. Falando de rio ou não. Isso se percebe já nas palavras dos velhos cronistas da época do Império. Mesmo antes deles, nas páginas de areia dos primeiros habitantes da terra. E em muitos outros depois. Emília Freitas e Francisca Clotilde falam do rio. Demócrito Rocha e Beni Carvalho também. Mas Adolfo Caminha e Eduardo Dias, não. Aparentemente não há Jaguaribe naquilo que muitos filhos nascidos ou adotados pelo Vale Jaguaribano escrevem. Contudo, o rio inscreve-se à margem desses escritos. Contorna, arrodeia. Mas não deixa de estar lá. Como mitos inauditos no fundo de ritos ancestrais, permanece. E estrala!
O rio é um chiado suave na curva melódica da língua. É também o cantado de um léxico erudito e arretado. Entre culto e popular. Arrevesado em sintaxe pra lá de ziguezagueante. Aspirante aos delírios de quase uma filosofia. Além. Anamnese de memórias de depois.
O Jaguaribe é o mundo. É muito mais.
MP- Desde obras antigas, como o romance A Rainha do Ignoto (1899) de Emília Freitas, até livros atuais de autores locais, o sertão e o rio aparecem com destaque. O que mudou e o que permanece igual na forma como as pessoas do Vale do Jaguaribe contam suas próprias histórias ao longo do tempo?
GS- O saber verdadeiro brota em sentenças que vêm do coração e frutifica numa quase oração. Há mais de dois milênios, numa região bem distante daqui, Heráclito escreveu: Ποταμοῖσι τοῖσιν αὐτοῖσιν ἐμβαίνουσιν ἕτερα καὶ ἕτερα ὕδατα ἐπιρρεῖ (fr. B12). Podemos traduzir essas palavras de sabedoria em nossa língua assim: “Para os que entram nos mesmos rios, as águas fluem outras e outras.” O sentido profundo dessa formulação não é que a existência humana seja fluida e impermanente, ou que não exista partilha possível entre dois indivíduos, mas que o rio permanece o mesmo enquanto se transforma em outro... Que cada um de nós tanto é quanto está. Nós, ex-permanências de nós mesmos.
A resposta da pergunta colocada acima se vislumbra nos meandros sinuosos da oração de Heráclito. Os jaguaribanos – de nascimento ou adoção – escrevem sempre sob a influência do Jaguaribe... Alegram-se com o rumor de suas águas caudalosas de inverno. Alarmam-se com o silêncio de sua poeira ofuscante de verão. Aliviam-se ao sabor do Aracati, cedo ou tarde, vindo abrandar a quentura sertaneja em sua luz azul. O rio ensina uma lição de natureza a todos nós. Se somos artistas, na medida em que o somos, devemos isso ao Jaguaribe.
Mas o rio é também sempre outro. Ou melhor, está. Sua forma varia, se transforma, desvaria. Desde o período dos primeiros habitantes da terra, o quanto já se assoreou? Com a destruição da mata ciliar, com as obras de abastecimento e esgoto, o quanto já se poluiu? Com a construção de pontes, com os diques e barragens, o quanto já se sujeitou? O Jaguaribe não é mais o mesmo. Suas onças foram mortas ou partiram. E essa é uma triste realidade que se reflete agora na escrita de seus filhos.
Mas nem tudo está perdido. E, mais uma vez, é o rio quem ainda nos ensina: apesar do luto por quanto se perdeu, precisamos ir à luta. Após um longo período de estio, sobrevive o sonho de uma madrugada de inverno.
Por trás dos movimentos precisos de uma labirinteira, ou de uma trançadeira da palha de carnaúba, vibra a sabedoria de toda uma nação.
MP- O Vale do Jaguaribe foi habitado por diversos povos indígenas cujas memórias nem sempre foram registradas nos livros de história. De que forma a literatura produzida na região ajuda a dar voz a essas memórias e a resgatar o passado da nossa gente?
GS- Em seu sentido mais pleno e potente, a literatura não se resume à palavra escrita e impressa no papel. Ela é a inscrição da vida humana em qualquer registro material. Uma interjeição de amor ou de dor – pronunciada quando dentes, língua e boca amassam o ar, forjando uma onda sonora – pode ser literatura; pode ser literatura um risco disforme em pedra lascada, gravado em momento de êxtase ou de luto; pode ser literatura um gesto sinuoso, no compasso de uma dança, entre braços e mãos insinuantes. O fato de que não se reconheça o literário por trás da efemeridade de alguns desses registros não deve nos impedir de contemplá-los e admirá-los em sua devida profundidade.
A literatura jaguaribana já reconhece e deve reconhecer cada vez mais a qualidade ancestral dos registros de seu povo. Por trás dos movimentos precisos de uma labirinteira, ou de uma trançadeira da palha de carnaúba, vibra a sabedoria de toda uma nação. Também no balanço de uma jangada carregada de cioba, dentão, pargo e sirigado, ou de albacora, bonito, cavala e dourado. No remelexo do pilão que mói a macaxeira, ou da cintura que requebra num coco, brilha a memória viva de um sangue derramado, mas jamais esvaecido. É o que nos lembram os trabalhos de Geovana Barros, Lianne Ceará e Patrícia Freire.
Na língua do povo pulsa ainda a força indígena. Todos os dias. Em seus chiados e cantados, cheios de jaguares e jiquís, marcados por itás e catís, palpita a energia de quem luta e resiste. Cabe à literatura jaguaribana encontrar o tempo e o espaço necessários para isso tudo brotar, florescer e frutificar também em suas páginas. Na medida em que deixar a força dessa natureza ganhar o contorno de letras escritas com vida, quem escreve o Jaguaribe há de vingar esse sangue no amanhã.
MP- A nossa região é muito rica em histórias de assombração, causos e memórias populares que passam de geração em geração. Qual é a importância de transformar esses relatos orais em livros, a exemplo da obra Histórias de Assombração de Aracati, de Antero Pereira Filho, e em temas de estudo para que não sejam esquecidos?
GS- Uma árvore pode ter uma copa frondosa e verdejante, com muitas flores e frutos, mas uma exuberância tão elevada se nutre da força que vem de baixo. As histórias tradicionais de uma região, com seus causos e lembranças, são as raízes que ligam e religam a comunidade. Quando cheguei ao Aracati, há cerca de três anos, fiquei muito surpreendido pela quantidade de pessoas que sabiam contar histórias de assombração e outras parlendas, algumas envolvendo fantasmas, lobisomens, maldições e botijas enterradas com ouro. Minha surpresa se transformou em espanto quando percebi que parte dessas narrativas vinham de experiências pessoais: estudantes e conhecidos diziam ter tido contato com almas de outro mundo, forças sobrenaturais, visagens e outros fenômenos inexplicáveis. Foi então que recebi de presente o livro de Antero Pereira Filho, Histórias de assombração do Aracati (2. ed., 2016). Minha percepção inicial ganhou mais profundidade e clareza ao frequentar essa obra fantástica. Antero faz jus à melhor estirpe aracatiense: é um exímio contador de histórias. O narrador que assume a voz nesse livro é muito atento aos detalhes históricos e geográficos, demonstrando ainda notável abertura de espírito para investigar a realidade por trás de enredos muitas vezes inacreditáveis. É assim que alguém vindo de fora do Aracati, como eu, ou mesmo um visitante que esteja apenas passeando pela região, pode ter uma via de acesso ao mais profundo imaginário popular através de um único livro, que reúne um material tão rico e significativo em termos culturais.
A bem da verdade, em algumas sociedades, as narrativas orais não precisam da escrita. São contadas e recontadas de geração em geração, alterando-se devagar em alguns poucos detalhes, mas preservando o que têm de mais significativo. Para bem ou para mal, a sociedade contemporânea tem se apoiado cada vez menos nessa potência mnemônica da oralidade, como bem sugerido por Walter Benjamin em seu ensaio “O narrador” (orig. 1936). Com a expansão de tecnologias de narração e representação cada vez mais automatizadas, incluindo rádio, cinema e televisão, mas hoje também a fluidez da Internet, com suas redes sociais, e o embuste das Inteligências Artificiais, tudo sempre ao alcance da mão (graças aos aparelhos ironicamente chamados de “smart”-phones), a transcrição dos relatos orais tradicionais e sua publicação em livro tem ganhado uma nova e insuspeitada importância. Apesar de todas as facilidades aparentemente promovidas por essas tecnologias, estamos vivendo numa era de desinformação, desconhecimento e desmemória. Ninguém mais parece capaz de reter algo significativo em seu interior, albergado no âmago do coração (segundo a etimologia da palavra “decorar”, subjacente também à expressão francesa: apprendre par coeur). Ou seja, todos esses avanços têm nos levado a um processo de emburrecimento generalizado, que coloca em ameaça a fonte da vitalidade de nossas próprias comunidades.
Não sou pessimista, contudo. Acredito que conseguiremos superar essa fase de cegueira narcísica da humanidade, depois que começarmos a questionar os delírios gananciosos de alguns poucos bilionários. Até lá, parece-me de valor inestimável o que fazem pessoas como a equipe do selo Terra Aracatiense, com destaque a você, Marciano Ponciano, ou os Professores da UECE Aracati, com destaque a meu parceiro, o Prof. Cristiano Araújo, com quem organizei o livro Novas histórias de assombração do Aracati (2026). É preciso ter um zelo alexandrino com a palavra do outro para garantir que todos os relatos estejam bem redigidos e revisados, numa disposição harmoniosa dentro do livro, sem descurar de sua fundamentação bibliográfica. Essas são tarefas fundamentais para atravessarmos este período atual de tantas promessas fulgurantes, mas de igualmente ofuscantes ameaças, a fim de garantirmos a preservação do que sustenta nossa vida comunitária: informação precisa, conhecimento seguro e memória ancestral.
Conhecer o que foi feito no passado é o procedimento básico para reconhecermos o que ainda permanece por se fazer.
MP- Escritoras como Emília Freitas e Francisca Clotilde deixaram marcas profundas na história da literatura do Ceará e de Aracati. Qual é a importância de resgatar o trabalho das mulheres escritoras do passado e dar espaço para as novas autoras do Vale do Jaguaribe?
GS- Conhecer o que foi feito no passado é o procedimento básico para reconhecermos o que ainda permanece por se fazer. Apesar da qualidade inquestionável da produção literária de Emília Freitas (1855-1908) e Francisca Clotilde (1862-1935), essas autoras não têm praticamente nenhum reconhecimento por parte da historiografia literária brasileira, mas permanecem relativamente desconhecidas mesmo no Ceará ou no Aracati. Essa falta de prestígio tem a ver com mecanismos de consagração de autores no cânone literário: entram fatores como a publicação e a circulação de obras em grandes centros, por grandes editoras, donde a questão da influência pessoal, em termos socioeconômicos, além das oportunidades de educação, acesso à formação literária etc. Escusado dizer que mulheres nascidas e criadas em cidades interioranas do Ceará, numa época de patriarcalismo ainda mais entranhado do que hoje, praticamente não tiveram chance de se consagrar pelas instâncias oficiais da literatura de então. Ambas estudaram, conheceram realidades urbanas (em Fortaleza, mas também em outros centros, fora do Ceará), escreveram poemas, publicaram romances e atuaram como educadoras. Contudo, jamais obtiveram o reconhecimento de seu engenho literário. Basta ler qualquer manual de História da Literatura Brasileira, ou mesmo de História da Literatura Cearense, para se constatar que essas autoras ficam restritas – quando muito – às notas de rodapé.
Ora..., por quê? Uma delas é autora do primeiro romance psicológico de ficção científica no Brasil. A Rainha do Ignoto (1899) é uma obra monumental, que erige até hoje seu enigma, com uma protagonista tão poderosa quanto profunda, um enredo fantástico e um estilo sinuoso. A outra não apenas escreveu poemas e peças de rara sensibilidade, mas proclamou o próprio nome por meio de um romance que escandalizou a sociedade da época, ao tematizar uma questão tabu desde seu título: A divorciada (1903). As conquistas dessas mulheres são gigantescas e merecem ser devidamente valorizadas pelas gerações atuais.
Ao reconhecer o trabalho dessas precursoras no que permanece a mesma luta pelo direito das mulheres, pela oportunidade de estudar, ler e escrever em pé de igualdade com os homens, pela chance de serem lidas e reconhecidas pelo público, as autoras contemporâneas terão condições de dar continuidade ao projeto radical de Emília Freitas e Francisca Clotilde. Universos fantásticos, enredos mirabolantes, versos musicais, paisagens esplêndidas, análises psicológicas, visões revolucionárias, tudo isso e muito mais tem sido explorado hoje por autoras como Larissa Monteiro, Mylena Queiroz, Nataly Pinho, Efigenia Alves e muitas outras.
MP- Poetas da região, como Luciano Maia e Dideus Sales, falam tanto das belezas da terra quanto das dificuldades vividas pelo povo do sertão. De que modo a poesia jaguaribana consegue emocionar o leitor ao mesmo tempo em que chama a atenção para os problemas sociais e ambientais do nosso rio?
GS- A noção de “literatura jaguaribana” é da ordem de uma ecopoética. O radical “eco” nessa palavra vem do grego antigo, estando associado a noções cognatas como “ecologia”, “ecossistema” e “ecoturismo”, mas seu sentido profundo está ligado à noção mais básica e concreta de “casa” (οἶκος). O processo histórico de formação de palavras derivadas desse étimo oferece a chave para a compreensão da questão colocada: em suas relações com a natureza circunstante, o ser humano busca formas de moldar a realidade a fim de se fazer em casa. Para usar outra palavra derivada de um radical antigo (agora via latim), nós tentamos domesticar os animais e as plantas de nosso entorno, dominar os elementos mais agressivos do meio ambiente, estabelecendo assim um determinado espaço do mundo natural como nosso domicílio.
Uma abordagem ecopoética compreende, portanto, as particularidades da geografia física de uma determinada região. No caso da literatura jaguaribana, entram reflexões sobre: aspectos da bacia hidrográfica do Jaguaribe, em atenção não apenas a suas belezas poéticas, mas também a seu assoreamento ao longo da história, seu comportamento no período de secas e de cheias, etc.; os traços característicos do relevo do Vale, com suas planícies aluviais, seus tabuleiros costeiros e os sulcos associados às depressões sertanejas; o ritmo quase imprevisível de suas estações, com os ciclos de estiagem severa e de chuvas torrenciais alternando-se ao bel-prazer de um sol que impera sempre majestoso; a exuberância de suas matas ciliares, dominadas pela imponência das carnaubeiras, assim como a lição de sobrevivência do mato da Caatinga; as estratégias de sua fauna perseverante, com populações de teiús, sapos, cobras, mocós, tatus, veados e aves, com especial destaque para a asa-branca e o carcará.
Contudo, uma ecopoética inclui ainda as relações humanas com esses aspectos da natureza. Uma espécie de etnografia, em observações sobre as histórias e as práticas do povo, seus costumes e seus valores, num todo que enforma uma verdadeira cosmovisão. A sensibilidade poética de Luciano Maia (1949-) e Dideus Sales (1962-), mas antes deles também a de Eduardo Dias (1882-1976), que foi o autor inesquecível de Cearenses (1950), revelam justamente o drama humano que se esconde por trás de um crepúsculo poeirento de estio ou a alegria de um amanhecer encharcado de inverno; o prazer de uma seresta à volta da fogueira de São João ou o desconsolo de um dia modorrento em casebre que não tem o que comer. Entre dores e delícias, desesperos e esperanças, a existência jaguaribana encontra eco em versos de miraculosa pregnância. Assim são também as composições de Rogaciano Lopes e Jota Gomes.
MP- Muitas vezes, acredita-se que a literatura importante só é produzida nas grandes capitais. Qual é o papel da Universidade Estadual do Ceará (UECE) ao valorizar os escritores do interior e mostrar a força da cultura local?
GS- A UECE tem um importante projeto de interiorização, que prevê a instalação de muitos campi em cidades do interior do Ceará, como Limoeiro do Norte, Quixadá, Quixeramobim, Canindé, Crateús, Iguatu, Itapipoca e, entre outras, agora também Aracati. Trata-se de uma iniciativa relevante porque o processo histórico de formação do estado foi organizado em função de Fortaleza, com uma concentração descomunal de infraestrutura, investimento e recursos humanos na capital, em detrimento das demais regiões do estado. Por isso, iniciativas como essa precisam acontecer para tentar reequilibrar a distribuição de riquezas e oportunidades ao longo de todo o território do Ceará.
Algo que nem sempre se admite em discussões sobre literatura (mas também cultura em geral) é quão entranhadas podem ser suas relações com interesses sociopolíticos e econômico-financeiros. Num artigo que elaborei sobre a poética do Dr. Eduardo Dias, constato justamente isto: não há nenhuma coincidência no fato de que a literatura brasileira prestigia sempre as obras de autores vivendo nas regiões mais ricas e poderosas do país. Gregório de Matos na Bahia colonial; depois, os árcades nas Minas Gerais do final da Colônia; José de Alencar e Machado de Assis no Rio de Janeiro do Império; os modernistas na São Paulo do período republicano; etc. Não há coincidência nisso: açúcar, ouro, tráfico negreiro e café são o lastro sanguinário dessas obras de cultura.
Explico-me. Por um lado, recursos materiais são importantes para a formação plena de escritores que dominem seu ofício: educação, ócio, leitura, acesso a bibliotecas, livrarias, museus e outros espaços de cultura, tudo isso é condição necessária para que uma terra produza um Guimarães Rosa, uma Clarice Lispector. Mas não é só isso. Por outro lado, os autores só se consagram como “grandes” depois de se submeterem ao ordálio do público e da crítica nos grandes centros: todos os nomes que figuram nas histórias oficiais da literatura brasileira mais recente precisaram flertar com o eixo editorial RJ-SP. Todos. No âmbito estadual, o mesmo se aplica ao Ceará: apenas se consolidam como “grandes” os autores que atuam em Fortaleza.
As razões para isso são complexas, mas uma das formas de enfrentamento dessa injustiça histórica é justamente levar aparelhos públicos de educação e cultura para as regiões “periféricas”, garantindo mais oportunidades de acesso também a pessoas historicamente “marginalizadas”, a fim de que possam se formar e apresentar sua produção artística e intelectual. Acredito que a presença da UECE no Aracati já tem começado a surtir bons efeitos, em parcerias que fortalecem o trabalho já desempenhado antes por instituições como a Secretaria Municipal de Educação, o Museu Jaguaribano, a Academia Aracatiense de Letras e o Grupo Lua Cheia de Teatro. Cada vez mais temos eventos de promoção da literatura local, assim como publicações que analisam e divulgam suas obras mais relevantes, com destaque para figuras como Emília Freitas, Adolfo Caminha, Francisca Clotilde e Beni Carvalho (entre os mais antigos), mas também Antero Pereira Filho, Valdy Menezes, Dideus Sales e Agamenon Viana (entre os mais recentes). Creio que a UECE ainda contribuirá muito para o reconhecimento das literaturas do Aracati e do Jaguaribe.
MP- O projeto de extensão O Aracati Literário promove o encontro entre estudantes, professores e a comunidade para debater temas que vão do cinema e poesia às histórias de assombração. De que forma essa iniciativa aproxima os leitores dos livros e da cultura da sua própria cidade?
GS- Quando cheguei para assumir a cátedra de Literatura na UECE Aracati, eu não fazia ideia da literatura produzida na região. Supus que haveria materiais com muito potencial artístico, porque a criatura humana sempre sonha e todo sonho busca ganhar a realidade em obras de beleza, mas eu nunca tinha ouvido falar de – ou prestado atenção a – autores aracatienses. Sabia que a Terra dos Bons Ventos tinha séculos de história, com sua fundação remontando ao período da colonização portuguesa (assentada, por sua vez, na ocupação originalmente indígena), e que decerto teria produzido alguma arte e literatura ao longo de tantos séculos.
Qual não foi minha surpresa quando comecei minhas pesquisas e descobri não apenas “alguma arte e literatura”, mas um verdadeiro tesouro cultural na região. Para nem mencionar os esplendores de sua arquitetura (preservados em igrejas e construções da Rua Grande), foi com admiração que conheci os relatos de Antero Pereira Filho e os romances de Valdy Menezes. Foi com verdadeiro estupor que li as obras miraculosas de Emília Freitas e Adolfo Caminha. Depois, entrei em contato com o trabalho de valorização cultural do Grupo Lua Cheia de Teatro e pude estudar com mais vagar e cuidado o cenário cultural da região, incluindo sua produção contemporânea de poemas, contos, crônicas e romances. Merece destaque ainda a revista Gente de ação, capitaneada por Dideus Sales, com a qual tenho a honra de colaborar com uma página de textos curtos.
Minha surpresa e admiração, contudo, não foram maiores que as de meus estudantes. Quando comecei a lhes apresentar os materiais de minhas primeiras pesquisas, era comum ouvir o comentário: “Professor, eu não fazia ideia que tinha tanta literatura assim no Aracati... Sempre morei aqui e nunca ouvi falar desse povo.” Pois é... Assim são as coisas de cultura: aprendemos a valorizar a literatura do outro, a arte do outro, mas fazemos olhos moucos e ouvidos cegos para o que é nosso. Não ensinamos e, portanto, não se aprende, a valorização daquilo que nos torna o que realmente somos: as intermitências do Jaguaribe; o cultivo de uma terra solar; as temperanças do Aracati; o vigor de um solo ancestral; as infinitudes do Atlântico. Isso tudo é que faz um Dragão do Mar. E também uma Rainha do Ignoto. Isso tudo ainda pulsa na obra de quem vive e ama a cidade. Isso tudo resplandece n’O Aracati Literário.
MP- O I Seminário de Literatura Jaguaribana, realizado de 5 a 7 de agosto de 2026 no Teatro Francisca Clotilde, reúne autores, pesquisadores e a comunidade. O que o público pode esperar desse encontro e quais são os próximos passos da UECE para continuar fortalecendo a leitura e a escrita no Vale do Jaguaribe?
GS- O público encontrará um pouco mais de tudo isso que apareceu em minhas respostas anteriores. Espero que sejam três dias de encontros marcados por diálogo, amor e harmonia, entre a produção literária, a pesquisa acadêmica e a riqueza cultural do Vale do Jaguaribe. Reuniremos escritores, professores, estudantes e leitores em torno de debates, mesas-redondas, lançamentos de livros e atividades culturais que valorizam tanto a tradição quanto a renovação de nossa literatura. Mais do que um evento acadêmico, pretendemos aqui fortalecer os vínculos com a comunidade, estimulando a circulação de ideias, a formação de novos leitores e o reconhecimento da literatura jaguaribana como um patrimônio vivo de nossa identidade cultural.
Quanto ao futuro, a Deus ele pertence. Pretendemos continuar trabalhando como temos feito... Nosso objetivo agora é articular todo o necessário para que se iniciem as obras de nosso novo campus da UECE no Aracati. Para isso, precisamos unir esforços políticos e institucionais, em nível estadual e mesmo federal. Contamos com o apoio de deputados, vereadores, prefeitos e governadores, mas também das lideranças comunitárias e de representantes da sociedade civil. Apenas quando celebrarmos nosso campus definitivo, teremos o espaço necessário para consolidar nossa obra de cultivo em toda a região do Jaguaribe.
Tenho fé: vamos propiciar a ocasião... Os frutos virão quando o tempo se revelar favorável.
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Guimarães Silva, professor da UECE em Aracati, é especialista em Literatura, Filosofia e História. Autor de Origens do drama clássico e O Evangelho de Homero, traduziu Nietzsche e organizou obras diversas. Cronista da Gente de ação e membro da Academia Aracatiense de Letras.
▪Entrevista concedida por Guimarães Silva a Marciano Ponciano em 29 de julho de 2026.