A entrevista revela um autor que transforma memória, cotidiano e regionalismo em matéria literária. Valdy Menezes expõe o processo que sustenta seus romances, articulando lembranças, personagens populares e escolhas estéticas que moldam sua ficção.
MARCIANO PONCIANO – A escolha pelo gênero romance é um exercício de coragem e entrega?
VALDY MENEZES – Eu sempre sonhei em escrever um livro. Achava difícil, pois colocar todos aqueles personagens numa trama não é fácil. Pensei em escrever um livro com pequenos contos guardados. Passei a amadurecer a ideia quando, de repente, surgiu o tema para o meu primeiro romance. Foi legal. Exatamente como eu desejava: um romance histórico e misterioso. Acho que ficou a minha cara.
MP – Como reconhecer quando uma ideia tem fôlego, densidade e urgência suficientes para se transformar em romance, e não apenas em uma narrativa breve ou fragmentária?
VM – Quando você consegue ligar os fatos com facilidade, incluir histórias guardadas na mente ou histórias que surgem numa simples conversa. Por exemplo, no romance Cravos e Santas, eu estava tentando uma maneira de esclarecer o mistério do português que aqui veio morar, porém não surgia nada especial. No meio de uma consulta, um paciente me contou uma história de um familiar dele, que era português, ao qual Castorina pôs o apelido de “Camelo”, pois era alto e desengonçado. Ele gostou, adotou o apelido como sobrenome, surgindo a família Camelo, quando casou e foi morar em Beberibe.
Guardei muitos personagens, muitas histórias engraçadas, muito linguajar. Sabe, eu coloquei muitos populares nos meus livros, tentando eternizá-los...
MP – José de Alencar, considerado o pai do romance brasileiro, em seu livro Como e porque sou romancista (1873), atribui as primeiras memórias narrativas que lhe despertariam o gosto pela escrita à sua mãe. De onde vêm as memórias que resultam nas narrativas do seu romance?
VM – Da minha infância, brincando nas ruas de Aracati. Guardei muitos personagens, muitas histórias engraçadas, muito linguajar. Sabe, eu coloquei muitos populares nos meus livros, tentando eternizá-los, pois só os ricos vão para os livros de história, ganham nome de ruas. Esse pessoal que marcou uma geração com seus causos, ações de caridade e que ajudou a construir a cidade com o suor do rosto é logo esquecido. Além dos personagens, algo que marcou muito a minha memória foram as duas cheias que vivi: as cheias de 1974 e 1985. A primeira eu tinha apenas doze anos, mas lembro de tudo. Dormia e acordava vendo a água chegando, as pessoas se mudando para o outro lado do rio e, como meu pai era comerciante, senti a agonia deles, lutando para não perder as mercadorias. Fui um dos últimos a sair da cidade, pois a minha casa era um sobrado e era necessário vigiar a loja.
MP – Como se dá o seu processo criativo durante a escrita de uma obra literária?
VM – Eu não tenho uma linha pronta. A ideia surge, eu vou juntando com outras. Imagino como começar e como terminar. O meio vai surgindo. O livro Devolva Meu Coração foi interessante. Essa frase surgiu na minha cabeça e ficou martelando por dias. Tentando descobrir o significado, foram surgindo histórias, ora inventadas, ora adaptadas, até completar o romance.
MP – Na lida laboriosa da escrita, quase sempre há uma encruzilhada entre as escolhas estéticas a fazer. Quais veredas surgiram ao longo da escrita do romance Ricos de Marré? Quais caminhos foram abandonados?
VM – O livro Ricos de Marré foi o mais demorado para escrever. Não pela falta de ideias, mas por falta de motivação. E também porque resolvi relê-lo várias vezes, o que é um pecado. Toda vez mudava alguma coisa. Acho que durou uns quatro anos. O livro está concorrendo ao prêmio SESC de Literatura. O resultado sai no próximo mês, agosto. Alguém me disse que eu apressei no final. Verdade. Já estava impaciente com o livro. Encurtei o romance entre Damião e Madeleine. Talvez eu ainda reveja antes de lançar.
MP – Chega um momento em que a obra passa a ter vida própria. Quando isto ocorre, o que esperar dela?
VM – Todas elas adquirem vida própria. Basta seguir o que elas mandam. Fica mais fácil de escrever.
MP – Entre Cravos e Santas (2015), Cartas do Destino (2016), Devolva Meu Coração (2018) e Ricos de Marré (inédito), percebe-se uma trajetória marcada pela permanência no romance e pela fidelidade ao imaginário narrativo. Olhando para esse percurso, que transformações é possível reconhecer em sua escrita — na linguagem, nos temas e na maneira de construir personagens e mundos ficcionais?
VM – Acho que a minha escrita evoluiu muito para o regionalismo. Utilizo algumas expressões desconhecidas no Sul do país. Um certo bairrismo. Também acho bonitas essas falas. Alguns personagens existiram. Descrevi-os baseado nas lembranças. Outros descrevi observando pessoas do dia a dia. A personagem Eunice, do livro Ricos de Marré, foi baseada numa funcionária do setor de recursos humanos de um hospital em que trabalhei. Andava se arrastando, com papéis debaixo do braço, resmungando de tudo, alegando uma dor no punho que a impedia de realizar as tarefas. Usava uma munhequeira no punho direito, igual ao livro.
MP – No seu romance, intitulado Ricos de Marré, parte da trama ocorre em Aracati. A que se deve esse recurso?
VM – O livro Ricos de Marré se originou de uma conversa com um flanelinha, na Beira-Mar. A história, na realidade, começa no Bom Jardim, um dos bairros mais pobres de Fortaleza. Então, resolvi puxar para nossa cidade e iniciar na Vila Rafael, bairro com os mesmos problemas. Antes de se tornar bairro, ali era conhecido como Corredor do Sal, o caminho para as salinas, levando-me a falar sobre o nosso ouro branco.
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Entrevista concedida por Valdy Menezes a Marciano Ponciano em 26 de julho de 2026.

