ENTREVISTA | ENTRE MUNDOS: A VISUALIDADE HÍBRIDA E COSMOPOLITA DE MIGUEL URION
Miguel Urion.

ENTREVISTA | ENTRE MUNDOS: A VISUALIDADE HÍBRIDA E COSMOPOLITA DE MIGUEL URION

Miguel Urion é um artista visual brasileiro cuja produção se destaca pelo vigor expressivo de sua paleta cromática. Desde a infância, foi conduzido por seus pais a um conjunto amplo de experiências culturais, artísticas e semióticas que moldaram, de maneira decisiva, a sofisticação imagética que hoje caracteriza sua obra.

No Litoral Leste do Ceará, fundou, ao lado de Maria Barbosa — mãe, artista e arte‑educadora — a Galeria d’Art Urion, instituindo na cidade de Fortim um espaço plural dedicado ao diálogo entre sua criação e a de outros artistas expositores. A galeria tornou-se, assim, um ponto de convergência para práticas, linguagens e sensibilidades diversas, ampliando o alcance de seu projeto artístico.

Esses e outros aspectos fundamentais de sua trajetória e de sua atuação no campo das artes visuais orientaram a entrevista que fiz com Miguel Urion.

MARCIANO PONCIANO- É possível afirmar que a primeira experiência com a estética da arte visual teve início no seio familiar e que ela foi decisiva para despertar em você o artista que se tornou?

MIGUEL URION- Sim. Acredito que a arte começou para mim antes mesmo de eu compreender que aquilo era arte. Minha formação estética aconteceu dentro da família e também através das experiências que vivi durante a infância.

Minha mãe, Maria Barbosa, teve formação em Belas Artes em São Paulo e sempre esteve muito ligada à educação, à cultura e à expressão artística. Ela utilizava a arte como instrumento de educação e transformação social. Meu pai também teve uma trajetória que me colocou em contato com diferentes culturas e lugares. 

"Antes de existir o artista, existia uma criança observando cores, formas, paisagens, pessoas, objetos, animais e símbolos".

Minha infância foi marcada por experiências no Ceará, na Amazônia, na Guiana Francesa e, posteriormente, na França. Antes de existir o artista, existia uma criança observando cores, formas, paisagens, pessoas, objetos, animais e símbolos. Hoje percebo que muitas dessas imagens permaneceram dentro de mim. Quando trabalho, muitas vezes sinto que não estou simplesmente criando algo novo, mas reorganizando memórias que foram acumuladas ao longo da vida.

 

MP- Sua mãe utilizava a arte aliada ao método Paulo Freire na alfabetização e formação de jovens em comunidades. Como essa visão pedagógica e social da arte marcou a sua postura em relação ao papel do artista na sociedade?

MU- Isso teve uma influência muito profunda na minha maneira de compreender a arte. Minha mãe sempre acreditou que a educação deveria partir da realidade das pessoas. A experiência com a pedagogia de Paulo Freire me mostrou que a arte também pode ser uma forma de leitura do mundo. Antes de interpretar uma imagem, uma pessoa já possui uma história, uma memória e uma maneira própria de enxergar a realidade. Por isso, nunca consegui separar completamente arte, educação e sociedade. Para mim, o artista não é apenas alguém que produz objetos para serem expostos. O artista também observa, questiona, registra e cria possibilidades de diálogo. A arte pode devolver às pessoas algo que muitas vezes lhes é retirado: a possibilidade de olhar para sua própria realidade e dizer “eu também posso criar, interpretar e transformar”.

“A arte pode devolver às pessoas algo que muitas vezes lhes é retirado: a possibilidade de olhar para sua própria realidade e dizer ‘eu também posso criar, interpretar e transformar’.” 

MP- De que forma a memória sensorial da floresta amazônica e o ambiente multilíngue da infância reaparecem hoje nas cores e texturas das suas obras?

MU- Acredito que isso aparece principalmente de maneira intuitiva. A Amazônia ficou na minha memória através dos sentidos: a vegetação, a umidade, os sons, os animais, a intensidade das cores, a luz e aquela sensação de estar diante de uma natureza muito maior do que nós. Também tive uma infância atravessada por diferentes culturas e línguas. Passei pelo Ceará, pela Amazônia, pela Guiana Francesa e pela França. Isso criou dentro de mim uma espécie de vocabulário visual formado por muitas referências. Nas minhas obras, as cores funcionam quase como palavras de diferentes idiomas. As texturas, os sinais, as sobreposições e as figuras formam uma linguagem que não precisa necessariamente ser traduzida para ser compreendida. Talvez a polifonia que existe no meu trabalho venha justamente daí: de ter crescido entre mundos diferentes e nunca ter precisado escolher apenas um deles.

 

“Nas minhas obras, as cores funcionam quase como palavras de diferentes idiomas.”

MP- Aos nove anos, morando na França, você teve os primeiros contatos intuitivos com o graffiti e a arte de rua. Quando você retornou definitivamente ao Ceará em 2006, como foi a fusão entre o graffiti europeu e a luz, as paisagens e a cultura visual do litoral cearense?

MU- Foi um encontro entre duas experiências muito diferentes. Na França, ainda criança, tive contato intuitivo com o graffiti e com a cultura visual das ruas. A cidade passou a ser entendida por mim como uma superfície viva, onde muros e paredes também podiam carregar mensagens, desenhos e identidades. Quando retornei definitivamente ao Ceará, em 2006, encontrei uma luz completamente diferente. O litoral cearense tem uma intensidade própria: o mar, a areia, o céu, a vegetação, as casas, os barcos, os animais e as cores do cotidiano. O que aconteceu foi uma transformação daquela linguagem urbana que eu trazia. Ela encontrou a luz tropical e a cultura visual cearense. Não foi simplesmente trazer o graffiti europeu para o Ceará. Foi permitir que o Ceará modificasse aquilo que eu havia aprendido na Europa. É dessa mistura que nasce parte importante da minha linguagem: uma pintura com estrutura urbana, mas atravessada pelo sol, pela natureza e pela cultura do litoral.

 

MP- Sua obra é composta por muitas camadas, das quais emerge uma polifonia. Entre elas é possível perceber a influência que tem a arte indígena. Quando surgiu essa influência?

MU- Essa influência surgiu muito cedo, principalmente durante minha infância na Amazônia e na Guiana Francesa, quando tive contato com diferentes povos, manifestações culturais e formas de representação que eram muito diferentes da tradição artística europeia. Mas existe outra referência que foi muito importante para mim: a arte businenge, também conhecida como arte Maroon, presente principalmente nas comunidades descendentes de africanos escravizados que conquistaram sua liberdade e formaram sociedades autônomas na região das Guianas e do Suriname. O termo Businenge está relacionado aos povos Maroons das Guianas. São comunidades que preservaram e desenvolveram formas próprias de organização cultural e artística, combinando heranças africanas com elementos adquiridos ao longo de sua história na floresta amazônica. A arte businenge me interessa especialmente pela força dos seus padrões, pela geometria, pelo ritmo das linhas, pela relação entre ornamentação, corpo, madeira, objetos e identidade. Em muitas manifestações businenge, os desenhos não são simplesmente decoração: carregam pertencimento, memória e identidade cultural. Essa experiência foi importante porque me fez perceber que uma linguagem visual pode existir simultaneamente como estética, memória e identidade. Então, quando falo das influências indígenas e businenge no meu trabalho, não estou dizendo que reproduzo literalmente essas tradições. O que existe é um diálogo com aquilo que ficou registrado na minha memória. Minha pintura é construída por camadas porque minha própria formação também foi construída assim: referências indígenas, africanas, businenge, brasileiras, europeias, urbanas e espirituais convivendo dentro de uma mesma experiência. Talvez seja justamente essa mistura que produza a polifonia da minha obra.

 

MP- O que a sua arte, essencialmente urbana na forma, diz sobre o lugar onde ela é maturada e criada?

MU- Ela mostra que uma linguagem urbana não precisa nascer necessariamente em uma grande metrópole. Fortim é um lugar pequeno, mas possui uma riqueza visual enorme. Existe o rio, o mar, a vegetação, os animais, a arquitetura, os pescadores, os barcos, as cores das casas e toda a vida cotidiana. Meu trabalho nasce desse contraste: uma linguagem contemporânea, urbana e cosmopolita produzida em uma pequena cidade do litoral cearense. Eu não preciso estar em Paris, São Paulo ou outra grande capital para dialogar com o mundo. Posso estar em Fortim, dentro do meu ateliê, e construir uma obra que dialogue com diferentes culturas e experiências. Nesse sentido, Fortim não é uma limitação geográfica para minha arte. É parte da própria linguagem dela.

 

MP- Você editou e publicou o livro BUTANU BUNECU, edição própria, em parceria com Luiz Roberto Ferreira de Oliveira. Fale-nos sobre as motivações e processos criativos investidos nesse trabalho.

MU- Butanu Bunecu nasceu da necessidade de transformar em linguagem algumas experiências, pesquisas, imagens e questões que, durante muito tempo, permaneceram dentro de mim. É um trabalho que atravessa diferentes campos do imaginário, dos símbolos, da espiritualidade, da arte e da experiência humana. Não queria produzir simplesmente um livro convencional. Queria construir uma obra que tivesse uma linguagem própria e que pudesse reunir diferentes camadas de pensamento e criação. A parceria com Luiz Roberto Ferreira de Oliveira foi importante para a realização desse projeto. A decisão de fazer uma edição própria também representa uma busca por autonomia dentro do processo criativo. Para mim, o livro e a pintura fazem parte do mesmo universo. São linguagens diferentes utilizadas para investigar perguntas semelhantes.

 

MP- Em Fortim, você mantém viva a Galeria D’Art Urion. Quando teve início esse projeto? Quais os desafios em se manter uma galeria longe dos grandes centros urbanos?

MU- A Galeria D’Art Urion surgiu da vontade de criar um espaço de arte no próprio lugar onde vivo e trabalho. Manter uma galeria longe dos grandes centros é um desafio porque existe uma diferença de infraestrutura, circulação de público, divulgação, transporte das obras e acesso ao mercado de arte. Mas também existe uma liberdade muito grande. Em Fortim, consigo manter uma relação muito próxima entre minha casa, meu ateliê, minha galeria e a paisagem que alimenta meu trabalho. A galeria não é apenas um espaço comercial. Ela é também uma extensão do meu processo artístico e uma maneira de aproximar a arte das pessoas que vivem aqui.

Eu acredito que é importante mostrar que a produção artística não está restrita às grandes capitais. Existem artistas criando e construindo suas trajetórias em lugares pequenos, e essas experiências também fazem parte da arte contemporânea brasileira.

 

MP- Você realizou trabalhos voluntários de arte-educação com crianças em situação de vulnerabilidade social em Fortim e Diamantina (MG). Como essa troca com as crianças retroalimenta o seu processo criativo no ateliê?

MU- As crianças me lembram de algo fundamental: antes de aprendermos as regras da arte, nós simplesmente criamos. Quando uma criança recebe uma folha e algumas cores, normalmente não começa perguntando se aquilo está correto. Ela experimenta, mistura, inventa personagens, cria mundos e encontra soluções próprias. Essa espontaneidade também me alimenta como artista. A experiência com as crianças me ensina que a arte não precisa começar pela técnica. Pode começar pela curiosidade. E existe uma troca verdadeira. Eu não acredito que o professor ou o artista seja alguém que simplesmente transmite conhecimento. Quando entro em contato com uma criança, também recebo alguma coisa dela: uma forma diferente de enxergar, uma combinação inesperada de cores, uma imagem ou uma ideia que talvez eu jamais tivesse imaginado sozinho. Isso retorna comigo para o ateliê. Por isso, arte e educação continuam inseparáveis na minha trajetória. A arte não serve apenas para formar artistas. Ela também pode ajudar uma pessoa a descobrir que possui uma voz, uma imaginação e uma maneira própria de interpretar o mundo.

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Entrevista concedida por Miguel Urion a Marciano Ponciano no dia 02 de outubro de 2026.

 

SERVIÇO:

Galeria D’Art Urion

Endereço: Rua Joaquim Pereira, nº 200, Barra, Fortim – Ceará

Horário de visitação: Segunda a domingo, das 9h às 12h e das 14h às 18h

Para melhor organização da recepção e garantia de uma experiência adequada, solicita-se que o visitante entre em contato previamente para agendamento da visita.

Instagram: Galerie d’Art Urion

WhatsApp: (88) 99969-1259

 

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