Inspirado pela arquitetura secular de Aracati e pelas cheias do Rio Jaguaribe, o estilista e artista Felipe Camurça transforma relatos familiares em alta poesia têxtil. À frente da marca autoral LASCA, ele desenvolve uma estética pautada na memória viva, integrando a moda contemporânea ao trabalho artesanal cearense para transformar patrimônio e vivências em narrativas visuais profundas.

MARCIANO PONCIANO – Sua trajetória traz a marca de um reencontro potente: após um período de silenciamento na pré-adolescência provocado pelo preconceito em relação à sua sexualidade, a graduação em Moda na UNIFOR permitiu o resgate das vivências criativas cultivadas na infância. Como esse "retorno que transborda" transformou antigas memórias de dor em combustível poético para a sua criação?
FELIPE CAMURÇA – Ao ir embora fisicamente da cidade, com o tempo, fui ganhando mais liberdade para ser e me desenvolver. No entanto, metaforicamente, nunca deixei Aracati. No processo de psicanálise, revivemos e relatamos movimentos circulares de dor a cada sessão. As palavras saem espontaneamente por meio do método de associação livre, e a criação funciona da mesma forma. Ao ingressar na faculdade, pude revirar baús de memórias escondidas e ressignificar dores encontradas, atingindo a raiz inconsciente do problema. É para onde meu trabalho vai.
Roupas podem carregar significados estrondosos, inclusive escancarando o poder de sintetizar histórias.
MP – Nos últimos meses de vida do seu avô, Antônio Rodrigues Uchôa, você fez a promessa de jamais abandonar as suas histórias. De que modo os relatos do livro dele, “Minha Mãe, Uma Vida”, e a imagem poética de sua bisavó Virgínia atravessando o Rio Jaguaribe em um pequeno bote se converteram em pesquisa têxtil e narrativa?
FC – Meu avô Uchôa foi e continua sendo uma das minhas maiores inspirações de vida. Minha família, como um todo, é formada por profissionais de áreas não artísticas, principalmente médicos, e ocorreu certa relutância no momento em que bati no peito afirmando o que queria ser. No entanto, ao me observar em seus últimos meses, meu avô, com palavras meigas, me impulsionou a nunca largar minhas histórias e afirmou algo que nem eu mesmo ainda considerava: um artista. No dia 14 de abril de 2023, meu avô pôde descansar. Foram momentos extremamente difíceis, mas muito decisivos para minha história. Hoje, muito do que crio vem das minhas memórias, dores e relatos familiares, com a finalidade de dar outro espaço para momentos sensíveis, como o próprio luto sentido com a perda do meu avô. Vejo que ele fez o mesmo ao criar “Minha Mãe, Uma Vida”, livro condensado de histórias sobre Dona Virgínia, minha bisavó, que me inspirou em projetos como Cheia. A partir dos relatos literários, pude esboçar novas histórias que se relacionam às minhas próprias vivências contemporâneas, dando continuidade às criações do meu avô, porém, por meio de outras formas de arte. Nunca deixei de escrever e vejo que roupas podem carregar significados estrondosos, inclusive escancarando o poder de sintetizar histórias.
O rio se torna parte do homem.
MP – Na coleção masculina Cheia, as enchentes históricas de Aracati nos anos de 1917, 1974 e 1985 estruturam a travessia poética do personagem Antônio. Como a evolução visual traduz a reconciliação do corpo com o sagrado, com o feminino e com as memórias que transbordam?
FC – Como boa parte das minhas criações, existe um começo, um meio e um fim que se complementam igualmente. Ao estruturar a coleção Cheia, fiz inúmeras pesquisas sobre as enchentes que tomaram a cidade no século XX, usufruindo de documentos históricos, fotografias do acervo aracatiense e placas espalhadas pela cidade. Foi por meio dessas cicatrizes deixadas pelo tempo que pude observar e pensar sobre a indumentária masculina da época e sobre como os códigos de vestimenta eram rígidos. Adentrei-me, então, na pesquisa dos tecidos utilizados e de como aquele rio impactava a vida dos cidadãos, alterando totalmente a percepção de ergonomia (por meio do arregaçamento das mangas de camisas longas e das pernas das calças, da evitação e do medo de se molhar). A partir desse contexto, olhei para minhas próprias experiências enquanto homem gay, para o medo que me torturou por anos e para minha relação com o feminino. Cheia não busca romantizar a destruição que as cheias causaram à cidade, mas sim explorar uma imersão psicológica da persona em meio aos seus próprios conflitos. A coleção tem como ponto de partida a família "1917". Nela, vemos vestes enrijecidas e tons escuros ligados à placa da cheia daquele ano, traduzindo o desconhecimento. O meio, "1974", se mostra pelas cores claras e por uma vestimenta menos rígida, apresentando certa aceitação daquilo que antes era varrido para baixo do tapete. A última família, "1985", representa a aceitação do rio, do feminino e da própria essência. Vemos isso recorrendo a assimetrias, pele à mostra, transparências e vestes menos convencionais. O rio se torna parte do homem.

MP – O personagem Antônio (“Filho do Rio das Onças”) atua como pintor, ator e escritor imerso na arquitetura colonial e no carnaval cultural de Aracati. De que forma essa persona fictícia reflete o seu próprio processo de desnudamento e libertação diante de inseguranças e convenções rígidas?
FC – Antônio é quase que minha colcha de retalhos. Ele é uma junção de inúmeras pessoas da cultura aracatiense que tenho como referência desde a infância, das coisas que imaginava ser e do que ainda posso oferecer à cidade. Ao criar uma persona, busco que ela seja um reflexo do público-alvo a ser atingido. No entanto, Antônio é um grande espelho do que sempre almejei para mim enquanto morador de Aracati, experienciador de toda a liberdade e confiança que nunca me senti confortável em ter.
MP – A narrativa do projeto Fragmento articula-se nos atos Estrutura, Fissura e Corpo. Como a rigidez da construção histórica cede lugar ao surgimento da pele e da identidade verdadeira à medida que o arcabouço secular trinca e se revela?
FC – Ao começar a desenvolver a coleção, pensei na ideia de um outdoor, algo feito a partir de várias camadas, mas que, com o badalar das horas, tem sua superfície corroída e abre margem para novas cores e imagens. Desde pequeno, faço terapia, agora me encontro na psicanálise e, até hoje, palavras ligadas a rachaduras se apresentam naturalmente, demonstrando uma relação de identificação quase inata com essas estruturas históricas. A partir da ideia da trinca, desenvolvi uma história sobre essa persona/edifício, que se situa em meio a estruturas simbólicas extremamente rígidas, mas que, por baixo de todo o concreto secular, guarda nuances nunca vistas superficialmente e que revelam o verdadeiro eu do ser. Todo o conceito reflete como me sinto psicologicamente atualmente, rachando minha estrutura a fim de me reconhecer.

[...] ao colocar um símbolo imperfeito no centro da minha identidade, reencontro toda a minha história.
MP – A partir de Fragmento, nasce a sua marca autoral, a LASCA, orientada pelo slogan "Corpos livres, memória viva: fragmento como estrutura". Qual é a força estética e política de colocar a ruína, o azulejo desgastado e o elemento quebrado no centro da identidade da marca?
FC – Olha, Marciano, sempre me senti desajustado, para não dizer quebrado. Crescer como uma pessoa LGBTQIAPN+ junto a estruturas sociais tão rígidas me fez ter uma visão extremamente distorcida do meu próprio eu. Sofri inúmeros preconceitos quando criança e você sabe… A infância é o solo onde pisamos para o resto da vida, é onde experimentamos algo novo a cada dia, sentimos a vida pela primeira vez. Perdi parte dela ao ser rejeitado dessa forma. Tive que aprender desde cedo a "me bater" até ceder partes minhas para "caber" e carrego marcas psicológicas das violências sofridas até hoje. Então, ao colocar um símbolo imperfeito como centro da minha identidade visual, reencontro toda a minha história. Não estaria aqui criando e me reinventando sem tudo o que já passei. Carrego, então, todo esse sofrimento e o transformo em algo importante, que pode enaltecer vidas como a minha, alinhando a arte ao cuidado mental.

MP – No protótipo do look Corpo, você estabeleceu uma colaboração direta com a artesã Marinez da Silva Gomes, reunindo renda organdi, macramê, crochê e crochê filé em uma mesma peça. Como essa aliança reafirma os saberes tradicionais do Ceará como patrimônio vivo e motor de transformação social?
FC – Ao criar os esboços da LASCA, pensei de cara em unir esses polos dissidentes. Para além de não vermos tantas marcas de moda adotando essa união, tanto a população LGBTQIAPN+ quanto as manualidades apresentam inúmeras limitações e, infelizmente, esse é um setor extremamente desvalorizado no mercado. Em uma indústria da moda cada vez mais acelerada e que visa, na maioria das vezes, apenas o que é rápido, privilegiando o lucro, a criação manual deixa de ser bem-vista e passa a ser detalhe. Vejo muitas marcas que se beneficiam intensamente da nossa cultura, mas não têm o apreço de cuidar dela e de colocar a artesã em uma posição não de instrumento, mas sim de mestra e criadora equivalente. Dito isso, tenho uma admiração tremenda por Marinez e por todo o seu trabalho ao tocar o patrimônio cultural da nossa região. Quando falei sobre o projeto que estava desenvolvendo, ela fez questão de entrar de cabeça comigo. Criamos e imergimos juntos por dias, e observei a riqueza do processo artesanal e como aquilo não pode deixar de existir nunca. Nossos saberes devem ser compartilhados, alterados e passados de geração em geração para novos criadores. Este é o ponto principal do nosso projeto: abordar o artesanato de forma mais contemporânea, unindo saberes tradicionais a formatos menos convencionais de vestimenta, no intuito de revitalizar nosso patrimônio.

MP – Sua prática transita de forma orgânica entre o design de vestuário, a fotografia, a literatura e a linguagem cênica. Como a integração dessas diferentes estéticas visuais amplia a capacidade de contar histórias profundas sobre o seu território?
FC – Tive o privilégio de, desde cedo, ter contato com o mundo das artes. O atrelamento com o teatro foi o primeiro sopro de criação, e o movimento do ar se perpetua até hoje. A cultura é uma base extremamente importante na educação das crianças e me forneceu inúmeros escapismos na infância. Como num movimento circular, ao brincar de bonecas, criava mundos inteiros, ao mesmo tempo que atuava e fazia composições diferentes no ambiente que os cercava. Parece até engraçado, mas esse círculo é parte essencial do meu motor criativo até hoje. Seja escrevendo, desenhando ou fotografando, todas essas linguagens vêm de uma mesma raiz e só têm a acrescentar aos meus projetos.
[...] todos os caminhos me levam a Aracati.
MP – A cidade de Aracati — com seus casarões marcados pelo tempo, ruas tortas e o leito do Rio Jaguaribe — surge na sua obra não como mero cenário, mas como presença viva. O que significa afirmar que foi a sua cidade natal que o fez artista?
FC – Por muito tempo quis ir embora de Aracati e consegui partir. No entanto, a cidade nunca deixou de se movimentar dentro de mim, a partir de pulsos de memória e de identificação cultural. Nasci andando por essas ruas tortas, admirando sua arquitetura e as histórias que ali se perpetuam. Então, mesmo tendo passado por mazelas, mesmo na fuga, alimentando a ideia de viver em outra casa, bairro, cidade, país ou planeta, todos os caminhos me levam a Aracati. Ela foi meu primeiro lar e ecoa minhas histórias e, principalmente, minha família.
Serviço:
Redes Sociais de Felipe Camurça
@felipecammurça
@oceano.raso
______________________
Entrevista concedida por Felipe Camurça a Marciano Ponciano em 30 de outubro de 2026.

