A delimitação da vila é definida pelo ouvidor Manuel José de Faria[1], ao tempo em que se dá a expansão de sua estrutura urbana com os pedidos de demarcação de oficinas, currais e estaleiros em suas ruas centrais e um número considerável de solicitações de aforamentos em ruas diversas. Ao mesmo tempo, a cidade se organiza sobre uma rua principal (Santo Antônio) e está também ocupada por lojas de mercadores de fazendas, o que evidencia o arcabouço do zoneamento funcional da povoação, a qual contava, no final do século XVIII, com uma população estimada em duas mil pessoas, habitando trezentas casas. Assinala-se, então, o final do período da pecuária, traduzido pelas secas de 1777 a 1778 e de 1790 a 1793, e a entrada em cena do algodão, com o deslocamento da produção de charque para o sul do país. Em oposição à rusticidade dos tempos do gado, o algodão, em Aracati, é identificado como força motriz econômica associada à prosperidade comercial e ao refinamento dos costumes. O escritor Antônio Bezerra[2] (1841) assim se reporta à estrutura da cidade, composta “de quatro ruas grandes, mal alinhadas, que se estendem de norte-nordeste a sul-sudoeste, 16 menores” e várias travessas, além de “belas praças”, igrejas, um mercado público, um teatro e outros “magníficos prédios”, dentre os quais “82 sobrados”, quase todos situados na Rua do Comércio, “onde se vê grande número de lojas e armazéns de fazenda e outros objetos de negócios”, bem como o edifício da Câmara Municipal (Casa de Câmara e Cadeia), “um dos mais importantes do Estado”. Reforça-se, assim, o caráter artístico do conjunto arquitetônico e urbanístico, tido pelo Professor Arquiteto José Liberal de Castro como “a mais impressionante implantação urbana do Ceará, no século XVIII”.

A decadência da cidade ocorre no último quartel do século XIX, para o que concorreram fortemente a construção da via férrea de Baturité (1872) e o estabelecimento da linha de vapores diretamente para Fortaleza, em benefício do comércio da capital. A queda das atividades comerciais e industriais de Aracati se dá ao longo do século XX, período em que teve gradativamente a sua base econômica alterada para a agricultura e o extrativismo, quando também se transformou, mais tarde, no segundo destino turístico do Estado.
A mélange de soluções arquitetônicas e artísticas eruditas e populares é prova da produção de uma arquitetura mestiça, denotativa do traço português, dos materiais e técnicas construtivas autóctones e do braço escravo, responsável por sua elevação. Os imóveis construídos nos séculos XVIII, XIX e XX diferenciam-se conforme suas características arquitetônicas e construtivas, que vão da rusticidade das paredes espessas e vergas em arco abatido dos pesados edifícios do período colonial, passando pelo requinte dos azulejos, das esquadrias em madeira e vidro e dos balcões em ferro batido das construções do dezenove até as experiências protomodernas do início do século passado. Vale ressaltar, assim como em Icó, o arranjo pombalino da vila, traduzido pela presença de uma rua principal (Rua Cel. Alexanzito, antiga Rua Grande ou do Comércio), ruas de serviço (ruas Santos Dumont e Cel. Alexandrino, que estão hoje tomadas pelo comércio da cidade), pontos focais (as igrejas, o Mercado Público e a Casa de Câmara e Cadeia) e o “rossio” (Largo da Matriz).
Assim se expressou Ângelo Osvaldo de Araújo Santos (2000) em seu parecer relativo ao tombamento federal do sítio histórico de Aracati:
“a cidade de Aracati mantém, assim como Icó e Sobral, características do século XVIII no traçado urbano e no repertório arquitetônico, inscrevendo-se em sítio natural de rara beleza... Imensas dunas emolduram a paisagem urbana. Entre essas montanhas de areia, que marcam o horizonte alvo e resplandecente, e as águas do Jaguaribe, desenha-se a cidade, com suas torres e coqueiros. Igrejas e algumas casas nobres, que evocam os faustos da cidade antiga, com seus azulejos e pinhas, justificam o interesse do país pelo patrimônio que ali se enriquece de formas, cores e materiais dignos de admiração”.
TOMBAMENTO FEDERAL | Processo nº 969-T-78, Livro do Tombo Histórico, Inscrição nº 561; Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico, Inscrição nº 127, data: 31.10.2001.
AUTORES | Beatriz Diógenes e Romeu Duarte
FONTE | Guia dos bens tombados do Ceará /[textos/descrições dos bens Beatriz Diógenes e Romeu Duarte]. -- 1. ed. -- Fortaleza, CE : Fundação Waldemar Alcântara - FWA, 2024. p. 42-43
[1] Manoel José de Farias foi o ouvidor‐geral da capitania, encarregando-se da implantação da Vila de Santa Cruz do Aracati, quando determinou a criação da vila e o local para sua instalação (Cruz das Almas, ao sul do antigo povoado) por meio da Carta Régia de 1747.
[2] Antônio Bezerra de Menezes (Quixeramobim/CE, 1841 – Fortaleza/CE, 1921) foi um naturalista, historiador e poeta. Escreveu sobretudo sobre a história do Ceará, garimpando documentos oficiais, desvendando e elucidando os marcos de origem. Atuou de forma relevante nos círculos intelectuais da capital da província, tendo como objeto de estudo o Ceará.