Uma vez, como se diz nos contos de fadas, aconteceu que eu me afeiçoasse a uma cajazeira antiga, tão antiga que não sei de ninguém que a não tivesse conhecido já velha.
Era no caminho da capela onde em menina ia ouvir missa com minha avó, e muitas vezes, de passagem, me curvei rapidamente para apanhar e esconder no lenço alguns frutos que lourejavam entre as folhas secas que alastravam o solo em redor da árvore.
De tempos em tempos cortavam-lhe os galhos, mas ela substituía-os sempre, fazendo surgir rebentos novos desse tronco carcomido, junto do qual passávamos sempre, eu e os meus companheiros de infância.
Diziam que era uma árvore inútil, que raríssimos frutos dava, que de nada servia, pois nem mais sombreava o caminho, e decepavam-na toda, a fim de acabar com ela.
A cajazeira renascia sempre... e era com um secreto júbilo inexplicável que eu via surgir os brotos, tão verdes, tão tenros, tão lindos! Quando o seu tronco estava cortado, seco, despido, eu tinha pena e tristeza... embora não me animasse a dizê-lo, sabendo que seria acoimada de tola e pueril.
Muitos anos passaram... cresci; deixei essa terra querida onde a minha boa avozinha me levava tantas vezes à missa com ela, porque eu caprichava em portar-me com muito sossego, com muito modo, como ela dizia...
Quando voltei, a cajazeira existia ainda, mas já nem um fruto dava!
A perseguição dos seus algozes continuava... e ela sempre a resistir!
Quando eu passava por esse lugar, ia vê-la bem de perto, tocava-lhe no tronco furtivamente, tinha um prazer sem igual em contemplar de longe a sua folhagem de um verde tão brilhante coroando aquele tronco ressequido e rugoso, que nenhuma seiva parecia ter, e que era tão vivaz, entretanto!
Parece que havia um quer que seja de estranhamente misterioso entre mim e a velha árvore...
Quando, depois de muito tempo, eu, curvada ao peso de infindável angústia, passei uma vez pelo caminho onde a árvore se erguia, achei-a decepada, como em muitas outras vezes, mas seca, sem nenhum sinal de vegetação viva, e pensei intimamente que ela se associava a minha dor...
Durante oito anos continuei a passar ali todos os meses, também para ir à missa—mas ah! que diferença! Já não era a criança alegre e exuberante de vivacidade que acompanhava satisfeita a velha avó, tão bela ainda sob a sua coroa de cabelos brancos, tão condescendente, carinhosa e serena...
A doce velhinha, depois de jazer anos entrevada numa cadeira de rodas, foi dormir o sono dos justos no cemitério, e a criança descuidosa e risonha se transformara naquela mulher de luto, acabrunhada e envelhecida precocemente pelo mais desolador dos infortúnios...
Ah! Debalde meus olhos procuraram no cimo do tronco carcomido um rebento tenro e verde... Nunca mais...
A árvore morrera afinal, como morrera também a alegria da minha juventude...
Março-1903
Úrsula Garcia
(Da Revista: O Lyrio nº 7, 05 de maio de 1903, Recife/PE)