Bela
Quando nasceu, o sono seu primeiro
Nos meus braços, dormiu, rosada e quente,
E deitando-a no berço levemente,
Velei-lhe ainda o ressonar ligeiro.
De sua mãe ao colo o derradeiro
Dormiu, tão pálida e tão fria,
Que uma Virgem de Lourdes parecia
Entre os ramos em flor do sabugueiro.
E ela deitou-a morta – ai! Coração!
Num leito de cetim – o seu caixão,
Que inundara de lágrimas e flores!
Velou-lhe o último sono! Dor suprema!
Longe... e eu não tive essa ventura extrema!
Nem podemos unir as nossas dores!
(Úrsula Garcia)
UMA LEMBRANÇA
Eu quis levá-la ao cemitério, um dia,
Mas em casa disseram: "Tão criança!"
"É tão longe!... É tão triste!" Eu insistia:
— Não sabe o que é tristeza, ela, e nem cansa!
A manhã é tão linda! o sol radia,
O ar tão puro, a brisa fresca e mansa...
É um passeio ao campo. Não faria
Mal algum visitar quem lá descansa...
E eu pensava : — É melhor ir caminhando
Com seus pezinhos, rindo, conversando,
Voltar da cor das rosas que levou..."
Não foi comigo... Mas lá foi levada
Numa manhã de sol... — muda, gelada,
Lívida, inerte... E nunca mais voltou!
Úrsula Garcia
(BIBLIOG. - Livro de Bela, 1901.)
A VIDA
A vida é um sonho. Há sonhos deliciosos:
E o tempo alegre e com deleite passa.
Passa, porém não volta, e os doces gozos
Se desfazem ao sopro da desgraça.
A vida é um sonho. Há sonhos horrorosos:
Causticante martírio que espedaça
O coração em haustos dolorosos,
Passa também; — na vida tudo passa
É um sonho a existência. Há lindos sonhos,
E há pesadelos hórridos, medonhos!...
Oh! nunca um dia se repete igual!
Tudo muda, desfaz-se, tudo cansa...
Como eterna só temos a esperança —
E sem tréguas em luta — o bem e o mal.
Úrsula Garcia
(Revista O Lyrio. Recife-PE, Dez. 1903)
UM VERSO DE PAUL VERLAINE
Teu olhar, meu consolo mais dileto,
Do mais doce clarão vinha repleto.
Trazia o espelho mago do passado.
Tinha o reflexo d’outro olhar extinto
Para sempre. Em teus olhos — eu não minto —
olhava-me do céu um morto amado.
Teu sorriso era a cópia mais perfeita
D’aquele a quem minh’alma foi sujeita
N’um relance por toda a eternidade.
Na tua boca o riso parecia
Como visão do céu, que me fazia
Sentir d’uma carícia a suavidade.
Escutando-te a voz sonhava tanto!
Embalada num terno e ameno capto
Que tinha d’outra vida, um não sei que.
Tua voz me acalmava a angústia infrene,
Nela ouvia, qual diz Paul Verlaine:
“L’inflexion d’une voix chère qui s’est tué...”[1]
Úrsula Garcia
(Da Revista: O Lyrio nº 8, 05 de junho de 1903, Recife/PE)
[1] A inflexão de uma voz amada que foi silenciada...
A UMA JOVEM
Tu nunca viste a flor desabrochando
Da meiga brisa ao matinal afago?
Nunca fitaste o claro azul d'um lago
Fresco, macio, transparente, branco?
Pois bem; a flor é teu retrato. E quando
Pousa em teus lábios um sorriso vago,
Teus olhos têm a limpidez do lago
E uma alma presa vai ali boiando.
Eu sei os sonhos que a cismar perscrutas,
Sei os mistérios de adoráveis lutas
Que o teu formoso coração alteram...
Crê no futuro: Deus protege as flores;
Deus abençoa os juvenis amores,
E as almas fortes que sofrendo esperam.
16-março-1903
Úrsula Garcia
Da Revista: O Lyrio nº 7, 05 de maio de 1903, Recife/PE
A CAJAZEIRA DO BOM JESUS
AO DR. A. DE AMORIM GARCIA
Meu tio, — há 30 anos que um estudante de direito fez ao 7º aniversário duma sobrinha, aquela poesia intitulada — À Ursulinha —. Não se retribui um ramo de rosas com uma folha seca... entretanto, é em lembrança desses versos, preciosamente conservados, que lhe faço este oferecimento.
Uma vez, como se diz nos contos de fadas, aconteceu que eu me afeiçoasse a uma cajazeira antiga, tão antiga que não sei de ninguém que a não tivesse conhecido já velha.
Era no caminho da capela onde em menina ia ouvir missa com minha avó, e muitas vezes, de passagem, me curvei rapidamente para apanhar e esconder no lenço alguns frutos que lourejavam entre as folhas secas que alastravam o solo em redor da árvore.
De tempos em tempos cortavam-lhe os galhos, mas ela substituía-os sempre, fazendo surgir rebentos novos desse tronco carcomido, junto do qual passávamos sempre, eu e os meus companheiros de infância.
Diziam que era uma árvore inútil, que raríssimos frutos dava, que de nada servia, pois nem mais sombreava o caminho, e decepavam-na toda, a fim de acabar com ela.
A cajazeira renascia sempre... e era com um secreto júbilo inexplicável que eu via surgir os brotos, tão verdes, tão tenros, tão lindos! Quando o seu tronco estava cortado, seco, despido, eu tinha pena e tristeza... embora não me animasse a dizê-lo, sabendo que seria acoimada de tola e pueril.
Muitos anos passaram... cresci; deixei essa terra querida onde a minha boa avozinha me levava tantas vezes à missa com ela, porque eu caprichava em portar-me com muito sossego, com muito modo, como ela dizia...
Quando voltei, a cajazeira existia ainda, mas já nem um fruto dava!
A perseguição dos seus algozes continuava... e ela sempre a resistir!
Quando eu passava por esse lugar, ia vê-la bem de perto, tocava-lhe no tronco furtivamente, tinha um prazer sem igual em contemplar de longe a sua folhagem de um verde tão brilhante coroando aquele tronco ressequido e rugoso, que nenhuma seiva parecia ter, e que era tão vivaz, entretanto!
Parece que havia um quer que seja de estranhamente misterioso entre mim e a velha árvore...
Quando, depois de muito tempo, eu, curvada ao peso de infindável angústia, passei uma vez pelo caminho onde a árvore se erguia, achei-a decepada, como em muitas outras vezes, mas seca, sem nenhum sinal de vegetação viva, e pensei intimamente que ela se associava a minha dor...
Durante oito anos continuei a passar ali todos os meses, também para ir à missa—mas ah! que diferença! Já não era a criança alegre e exuberante de vivacidade que acompanhava satisfeita a velha avó, tão bela ainda sob a sua coroa de cabelos brancos, tão condescendente, carinhosa e serena...
A doce velhinha, depois de jazer anos entrevada numa cadeira de rodas, foi dormir o sono dos justos no cemitério, e a criança descuidosa e risonha se transformara naquela mulher de luto, acabrunhada e envelhecida precocemente pelo mais desolador dos infortúnios...
Ah! Debalde meus olhos procuraram no cimo do tronco carcomido um rebento tenro e verde... Nunca mais...
A árvore morrera afinal, como morrera também a alegria da minha juventude...
Março-1903
Úrsula Garcia
(Da Revista: O Lyrio nº 7, 05 de maio de 1903, Recife/PE)
