POETOSSÍNTESE

Thursday, 29 July 2021 12:57

ÚRSULA GARCIA

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Úrsula Garcia Úrsula Garcia

Selete de poemas de escritos por Úrsula Garcia.

Bela 

  

Quando nasceu, o sono seu primeiro 
Nos meus braços, dormiu, rosada e quente, 
E deitando-a no berço levemente, 
Velei-lhe ainda o ressonar ligeiro. 

 
De sua mãe ao colo o derradeiro 
Dormiu, tão pálida e tão fria, 
Que uma Virgem de Lourdes parecia 
Entre os ramos em flor do sabugueiro. 

 
E ela deitou-a morta – ai! Coração! 
Num leito de cetim – o seu caixão, 
Que inundara de lágrimas e flores! 

Velou-lhe o último sono! Dor suprema! 
Longe... e eu não tive essa ventura extrema! 
Nem podemos unir as nossas dores! 

 
(Úrsula Garcia) 


 

UMA LEMBRANÇA 

  

Eu quis levá-la ao cemitério, um dia,
Mas em casa disseram: "Tão criança!"
"É tão longe!... É tão triste!" Eu insistia:
— Não sabe o que é tristeza, ela, e nem cansa!

A manhã é tão linda! o sol radia,
O ar tão puro, a brisa fresca e mansa...
É um passeio ao campo. Não faria
Mal algum visitar quem lá descansa...

E eu pensava : — É melhor ir caminhando
Com seus pezinhos, rindo, conversando,
Voltar da cor das rosas que levou..."

Não foi comigo... Mas lá foi levada
Numa manhã de sol... — muda, gelada,
Lívida, inerte... E nunca mais voltou!

  

Úrsula Garcia

(BIBLIOG. - Livro de Bela, 1901.)


 

A VIDA

 

A vida é um sonho. Há sonhos deliciosos:
E o tempo alegre e com deleite passa.
Passa, porém não volta, e os doces gozos
Se desfazem ao sopro da desgraça.

A vida é um sonho. Há sonhos horrorosos:
Causticante martírio que espedaça
O coração em haustos dolorosos,
Passa também; — na vida tudo passa

É um sonho a existência. Há lindos sonhos,
E há pesadelos hórridos, medonhos!...
Oh! nunca um dia se repete igual!

Tudo muda, desfaz-se, tudo cansa...
Como eterna só temos a esperança —
E sem tréguas em luta — o bem e o mal.

 

Úrsula Garcia

(Revista O Lyrio. Recife-PE, Dez. 1903)


 

UM VERSO DE PAUL VERLAINE

 

Teu olhar, meu consolo mais dileto,
Do mais doce clarão vinha repleto.
Trazia o espelho mago do passado.

Tinha o reflexo d’outro olhar extinto
Para sempre. Em teus olhos — eu não minto —
olhava-me do céu um morto amado.

Teu sorriso era a cópia mais perfeita
D’aquele a quem minh’alma foi sujeita
N’um relance por toda a eternidade.

Na tua boca o riso parecia
Como visão do céu, que me fazia
Sentir d’uma carícia a suavidade.

Escutando-te a voz sonhava tanto!
Embalada num terno e ameno capto
Que tinha d’outra vida, um não sei que.

Tua voz me acalmava a angústia infrene,
Nela ouvia, qual diz Paul Verlaine:
“L’inflexion d’une voix chère qui s’est tué...”[1]

Úrsula Garcia

(Da Revista: O Lyrio nº 8, 05 de junho de 1903, Recife/PE)

[1] A inflexão de uma voz amada que foi silenciada...


 

A UMA JOVEM

 

Tu nunca viste a flor desabrochando
Da meiga brisa ao matinal afago?
Nunca fitaste o claro azul d'um lago
Fresco, macio, transparente, branco?


Pois bem; a flor é teu retrato. E quando
Pousa em teus lábios um sorriso vago,
Teus olhos têm a limpidez do lago
E uma alma presa vai ali boiando.


Eu sei os sonhos que a cismar perscrutas,
Sei os mistérios de adoráveis lutas
Que o teu formoso coração alteram...


Crê no futuro: Deus protege as flores;
Deus abençoa os juvenis amores,
E as almas fortes que sofrendo esperam.

 

16-março-1903

Úrsula Garcia

Da Revista: O Lyrio nº 7, 05 de maio de 1903, Recife/PE


 

A CAJAZEIRA DO BOM JESUS

 

AO DR. A. DE AMORIM GARCIA

 

Meu tio, — há 30 anos que um estudante de direito fez ao 7º aniversário duma sobrinha, aquela poesia intitulada — À Ursulinha —. Não se retribui um ramo de rosas com uma folha seca... entretanto, é em lembrança desses versos, preciosamente conservados, que lhe faço este oferecimento.

 

Uma vez, como se diz nos contos de fadas, aconteceu que eu me afeiçoasse a uma cajazeira antiga, tão antiga que não sei de ninguém que a não tivesse conhecido já velha.

Era no caminho da capela onde em menina ia ouvir missa com minha avó, e muitas vezes, de passagem, me curvei rapidamente para apanhar e esconder no lenço alguns frutos que lourejavam entre as folhas secas que alastravam o solo em redor da árvore.

De tempos em tempos cortavam-lhe os galhos, mas ela substituía-os sempre, fazendo surgir rebentos novos desse tronco carcomido, junto do qual passávamos sempre, eu e os meus companheiros de infância.

Diziam que era uma árvore inútil, que raríssimos frutos dava, que de nada servia, pois nem mais sombreava o caminho, e decepavam-na toda, a fim de acabar com ela.

A cajazeira renascia sempre... e era com um secreto júbilo inexplicável que eu via surgir os brotos, tão verdes, tão tenros, tão lindos! Quando o seu tronco estava cortado, seco, despido, eu tinha pena e tristeza... embora não me animasse a dizê-lo, sabendo que seria acoimada de tola e pueril.

Muitos anos passaram... cresci; deixei essa terra querida onde a minha boa avozinha me levava tantas vezes à missa com ela, porque eu caprichava em portar-me com muito sossego, com muito modo, como ela dizia...

Quando voltei, a cajazeira existia ainda, mas já nem um fruto dava!

A perseguição dos seus algozes continuava... e ela sempre a resistir!

Quando eu passava por esse lugar, ia vê-la bem de perto, tocava-lhe no tronco furtivamente, tinha um prazer sem igual em contemplar de longe a sua folhagem de um verde tão brilhante coroando aquele tronco ressequido e rugoso, que nenhuma seiva parecia ter, e que era tão vivaz, entretanto!

Parece que havia um quer que seja de estranhamente misterioso entre mim e a velha árvore...

Quando, depois de muito tempo, eu, curvada ao peso de infindável angústia, passei uma vez pelo caminho onde a árvore se erguia, achei-a decepada, como em muitas outras vezes, mas seca, sem nenhum sinal de vegetação viva, e pensei intimamente que ela se associava a minha dor...

Durante oito anos continuei a passar ali todos os meses, também para ir à missa—mas ah! que diferença! Já não era a criança alegre e exuberante de vivacidade que acompanhava satisfeita a velha avó, tão bela ainda sob a sua coroa de cabelos brancos, tão condescendente, carinhosa e serena...

A doce velhinha, depois de jazer anos entrevada numa cadeira de rodas, foi dormir o sono dos justos no cemitério, e a criança descuidosa e risonha se transformara naquela mulher de luto, acabrunhada e envelhecida precocemente pelo mais desolador dos infortúnios...

Ah! Debalde meus olhos procuraram no cimo do tronco carcomido um rebento tenro e verde... Nunca mais...

A árvore morrera afinal, como morrera também a alegria da minha juventude...

 

Março-1903

Úrsula Garcia

(Da Revista: O Lyrio nº 7, 05 de maio de 1903, Recife/PE)

 

 

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Úrsula Garcia

Úrsula Barros de Amorim Garcia- (1865 — 1905), nascida em Aracati — CE, poetisa, cronista e ensaísta, fez seus estudos no Rio Grande do Norte, aonde rumara acompanhando seu pai, magistrado; foi membro da Liga Feminina do Ceará e, em 1902, juntamente com Amélia Bevilacqua, fundou a Revista Feminina "Lírio", de prosas e versos; primeira mulher nordestina a fazer jornalismo político, colaborou com diversas publicações do Nordeste; escreveu Livro de Bela (1901). 

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